Não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira, porque está escrito: Minha é a vingança; eu recompensarei, diz o Senhor.
— Romanos, 12:19.
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Aosta, Itália.
Perdão.
Desde pequenos, somos ensinados sobre a importância de perdoar. Aprendemos com nossos pais, na igreja e até mesmo na escola que, apesar de todas as mágoas e ressentimentos, devemos praticar o perdão. Nos ensinam que perdoar é uma ação libertadora, que nos livra do rancor, raiva e vingança.
Somos ensinados que a vingança pertence à Deus, que devemos amar ao próximo e perdoá-lo. Devemos perdoar, mesmo que a injustiça sofrida tenha sido grande, para ficarmos em paz, com nós mesmos e com o próximo. É preciso perdoar, para nos libertarmos da amargura que nos aprisiona.
O poder do perdão é imenso. É como uma sentença de liberdade para quem vive atormentado pelos acontecimentos passados. Perdoar é compreender que tais acontecimentos ficaram no passado, aprender com tudo que aconteceu e se libertar do peso da mágoa.
Guardar rancor é como uma pedra, presa aos nossos calcanhares, que sempre nos arrasta para o fundo. Para a escuridão. Ódio, rancor e sede de vingança são sentimentos ruins, que nos afastam de Deus.
Na bíblia, aprendemos a necessidade e importância de perdoar. Aprendemos que, se perdoamos, somos perdoados. Que o perdão nos traz libertação e não tem limites — devemos perdoar sempre que necessário.
Quando guardamos rancor, criamos muros difíceis de derrubar, nos isolando dos outros. Não devemos nos vingar ou guardar ira, devemos amar. Devemos perdoar.
Perdoar não é fácil. Não é tão simples livrar-se do desejo de vingança, que corrói cada parte do seu ser.
Nesse momento, não me sinto pronto para perdoar. Pelo contrário, ainda sinto sede de vingança. Sinto ódio. Sempre ensinei meus fiéis sobre o perdão, assim como aprendi sobre ele.
Não posso praticar o perdão, se o ódio me corrói. Não quero o liberar das suas dívidas, de tudo que fez. Sinto que, caso o deixasse impune, estaria abandonando meu senso de justiça. Ele não pode ficar impune. Ela merece que eu a vingue.
Sentado na enorme cama do Hotel, observo mais uma vez os papéis que trago comigo desde que saí de Florença, horas atrás. Minha carta de desligamento e meu certificado de dispensa. Eu, oficialmente, deixei o sacerdócio.
Sei que muitos irão questionar minha escolha. Irão pensar nos mais diversos motivos para abandonar o sacerdócio, principalmente, o celibato. Irão pensar que me apaixonei ou que, talvez, cansei dessa vida de sacerdote, mas nenhum deles sabe o real motivo.
Sei que, muitos deles, ficaram contra mim. Muitos me julgam pela minha escolha. Até os entendo, afinal, o que poderia levar um padre, que amava tanto o sacerdócio, desistir de tudo?
Meu futuro, nesse momento, é incerto. Estou hospedado em um hotel, sem ter para onde ir. Não tenho emprego ou parentes para me auxiliar. Não posso recorrer ao monastero, logo, me sinto perdido.
Eu era feliz. Era sacerdote e lecionava teologia na Universidade Sacro Cuore, em Florença. Tinha certeza das minhas escolhas, do meu desejo em seguir no sacerdócio.
Até a chegada daquela carta. Aquela maldita carta.
Agora, estou na minha cidade natal, com um nome. Nome esse tão comum não apenas aqui, mas em toda Itália. Não tenho a certeza do que farei, mas não pretendo desistir. Eu irei me vingar, nem que tenha que ir até o inferno para isso.
Tenho apenas um nome. Nome esse tão comum nessa cidade, ou melhor dizendo, na Itália. Tenho poucas informações, quase inexistentes, apenas seu nome e a informação de que ele reside nessa cidade. Há, obviamente, a enorme possibilidade de que essa pessoa tenha ido embora da cidade, mas sinto que ele está aqui.
E caso esteja, não desistirei até encontrá-lo.