ISABELA FERRARI
Depois de sair da clínica onde minha mãe está internada, peguei um táxi direto para a empresa Alencar.
No caminho, meus pensamentos se embaralham.
Minha mãe... cada dia que passa, ela se perde mais de si. Hoje nem sequer me reconheceu.
Sinto um nó apertado na garganta e balanço a cabeça, tentando expulsar o peso da tristeza.
— Chegamos, moça — diz o taxista.
— Obrigada. — Pago a corrida e desço.
Paro na calçada e encaro o prédio.
Imponente. Alto. Frio.
Quase como o homem que carrega o sobrenome estampado lá em cima.
Respiro fundo. Ainda tenho um tempinho antes da entrevista.
Vou até uma cafeteria na esquina. Preciso de um café. Nem tanto pela fome — mais pra tentar enganar o nervosismo que me corrói.
Saio da cafeteria distraída, como sempre, e… POC!
Esbarro com tudo em uma parede.
Não.
Não é parede.
É um peito. Um terno. Um homem.
Grande. Quente. Furioso.
O café voa da minha mão direto pra camisa branca dele. Uma mancha se espalha como sangue em tecido de linho fino.
— MAS QUE MERDA, GAROTA! NÃO OLHA POR ONDE ANDA?! — rosna a voz grave, me fazendo gelar.
Levanto o olhar devagar e dou de cara com ele. Um deus grego em modo satânico. E furioso.
— D-desculpa, senhor… eu… — gaguejo, completamente sem chão.
— Olha a merda que você fez, sua desastrada.
— Foi sem querer, eu juro. Eu pago pela camisa… — digo, tentando me manter de pé.
Por dentro, minha mente grita:
"Pronto. Parabéns, Isabela. Nem arrumou o emprego e já tá devendo."
— Nem que você trabalhasse um ano inteiro, seu salário miserável pagaria essa camisa.
Esnobe. Arrogante. Babaca.
— Desculpa de novo, senhor. Não foi minha intenção. — engulo o choro com orgulho ferido.
"Mas sabe de uma coisa? Bem feito. Toma essa, playboy de merda." — diz minha consciência revoltada.
— Não quero suas desculpas. Só sai da minha frente.
— Quem você pensa que é pra falar assim comigo?! Já pedi desculpas! Se não quer, vá…
— Olha a boquinha, garota. — corta seco e entra no prédio.
— SEU BABACA CRETINO! RETIRO MINHAS DESCULPAS! BEM FEITO! — grito, irritada, enquanto ele desaparece pela porta giratória.
Sim, eu surtei.
Sim, eu gritei na frente de um prédio corporativo.
Sim, o segurança da portaria tá rindo da minha cara.
Parabéns pra mim.
Respiro fundo, ignoro os olhares e entro.
Na frente do elevador, hesito. Eu odeio lugares fechados.
Aperto o botão, entro e fecho os olhos.
Conto até vinte… vinte e um… vinte e dois… e espero que chegue logo.
Quando as portas se abrem no último andar, dou de cara com a recepção.
Meu coração afunda.
Vinte. Vinte e duas candidatas. Todas impecavelmente maquiadas, roupas justas, cabelos milimetricamente escovados.
Seios saltando. Saltos altíssimos.
Um exército de Barbies empresariais.
— "Ótimo, Isa. Só faltou vir de pijama."
Sento-me em uma cadeira vaga, ignorando os sorrisos m*l disfarçados de deboche. Mexo os dedos — mania antiga quando fico nervosa.
Uma a uma vai entrando, saindo.
Rímel intacto. Perfume forte.
Todas parecendo disputar um papel de novela.
Quando só faltam duas, minha barriga revira.
A penúltima sai toda sorrisos.
— Próxima candidata — ouço uma voz grave vinda da sala.
Levanto-me como se fosse para o abate. Entro. A porta fecha atrás de mim.
E aí ele vira a cadeira.
PÁ.
É ELE. O i****a DO CAFÉ.
— VOCÊ?! — dissemos os dois ao mesmo tempo, em perfeito uníssono de choque.
Congelamos.
Olhos fixos.
Climão.
Caos.