ISABELA FERRARI
Nem acredito que fui contratada.
A felicidade me engole por dentro e, sem pensar, começo a pular no corredor — sim, pular — e improviso uma dança ridícula.
Mas dane-se.
Eu consegui a vaga de secretária. Do babaca. Mas consegui.
Quando viro de lado…
Victor Alencar está me encarando da porta entreaberta.
— Ah, pai… — murmuro, morrendo por dentro.
Mais um mico pra minha extensa coleção.
Me recomponho no mesmo instante, faço cara de séria e saio o mais rápido possível em direção ao RH.
Chego em casa ainda com um sorriso no rosto e o coração pulando como se tivesse ganhado na loteria.
Largo minhas coisas no sofá, rumo à cozinha, com uma fome que parece nunca ter fim.
Esperei o ônibus por quase uma hora. Quem mandou morar tão longe? Vida que segue.
Olho o relógio: seis da noite.
Começo a preparar o jantar pra mim e pra Fer, focada, cantarolando baixinho.
Tão concentrada que nem percebo quando ela chega.
— Oii, gatona! — grita, surgindo na cozinha.
— Ai, Fer! Quer me matar do coração?!
— Drama, sempre um show à parte. Agora desembucha! Fala! Conseguiu o emprego?
— Consegui! — grito, sorrindo — Fui contratada!
Conto tudo, desde o café voador até a contratação surpresa.
E Fer?
Simplesmente morre de rir.
— Já deu, né? — resmungo, tentando parecer ofendida.
— Desculpa, miga, mas você surtando com o café na camisa do chefe... foi hilário! — me abraça em seguida. — Mas sério, Isa, tô muito feliz por você!
— Obrigada.
— E aí? Como é o tal dono da empresa?
— Velho, né?
— Velho? — franze o cenho. — Você não disse que era o tal Victor Alencar?
— Então… não é velho. E nem é o pai. É o filho.
— Ah, então conta: ele é como? Careca? Barrigudo? Fala cuspindo?
— Bonitinho. — dou de ombros, tentando não lembrar dos olhos dele.
— Bonitinho?! Sério, Isa?
— Sim. Arrogante, metido a b***a, mas bonitinho.
Fer arqueia uma sobrancelha, claramente não convencida.
Pega o celular e começa a digitar com pressa.
— Vamos ver quem é esse tal Alencar.
Em segundos, a tela exibe uma foto. Depois outra.
Um homem lindo de terno, ao lado de outro senhor elegante.
Na legenda:
"Herdeiro do império Alencar, Victor Alencar assumirá o lugar do pai, Fausto Alencar, ao lado do filho do sócio, Scott Simões."
Fer arregala os olhos.
— MIGAAAAA! Sua vaca! Esse é seu chefe?!
— Sim. — reviro os olhos.
— E você me solta um “bonitinho”? Mulher, esse homem é um colírio com pernas! Um crime ambulante!
— Aham. O crime que comete é ser um i****a com um ego gigante.
— Isa… você vai trabalhar com um deus grego desses todos os dias e tá aí, agindo como se fosse nada?
— Porque é nada, Fer! Além de cretino, ele é grosso, prepotente, e trata todo mundo como lixo.
— Ai meu Deus… você vai acabar se apaixonando por ele.
— Fer! Você cheirou água-oxigenada hoje? Só pode.
— Tô falando sério! Secretária. Chefe. Ambiente de trabalho. Já vi essa novela!
— É, viu na TV mesmo. Porque na vida real, eu não quero e nem penso em relacionamento. Já deu pra mim. Depois de tudo o que aconteceu… já bastou.
Fer se cala por um instante.
Me olha com carinho.
— Eu sei, miga. Mas você merece ser feliz. Namorar. Amar. Rir de verdade.
— Esse “alguém” não existe. E se existisse, com certeza não seria Victor Alencar.
— Vamos ver. Eu aposto minhas escovas e pranchas que vocês dois ainda vão se pegar no corredor dessa empresa.
— Fer!
— Aposto mais: casamento. Aliança no dedo. Você de branco e ele de terno preto me olhando com aquela cara de “me ferrei bonito”.
— Essa sua cabeça só funciona com roteiro de novela. Você está delirando.
— Você tá negando com muita força pra quem tá com os olhos brilhando, viu?
— Brilhando de raiva, isso sim.
Ela dá risada e sai correndo pro quarto.
Eu fico ali, sozinha na cozinha, resmungando e tentando convencer a mim mesma de que ela está errada.
Mas então, lembro do olhar dele.
Do jeito como ele me provocou.
E por um segundo…
Só por um segundo…
Olho pro teto e sussurro:
— Pai... por que justo eu fui trabalhar com um cretino tão bonito?