ISABELA FERRARI
Acordo antes mesmo do despertador tocar.
Tomo um banho rápido, faço minha higiene matinal, e vou direto pro uniforme novo.
Me olho no espelho e... Ah, ótimo. A blusa tá apertada.
Respirei, estufei o peito (o que só piorou) e tentei me convencer de que era impressão minha.
Mas não era.
— Será que o Sr. Alencar mandou fazer esses uniformes pensando em quem? Boneca inflável? — resmungo sozinha.
Ou será que fui eu que engordei?
Não importa.
Primeiro dia de trabalho, não posso causar. Já chega o café na camisa dele ontem.
Na cozinha, preparo o café da manhã pra mim e pra Fer, minha miga do coração, que sabe fazer milagres com um secador, mas nem fritar um ovo consegue.
— Bom dia, Isa — ela aparece ainda de pijama, descabelada.
— Bom dia, Fer.
— Tá de pé desde as quatro da manhã, é?
— Que nada. Acordei no mesmo horário de sempre. Só... empolgada.
Ela me analisa com um sorrisinho.
— ISA! Você tá um estouro com esse uniforme!
— Tá apertado demais, Fer. Isso aqui não é roupa pra trabalhar, é quase um convite ao assédio.
— Para, miga! A culpa é do seu corpo, não da roupa.
— Sei…
Rimos e tomamos nosso café em paz. Mais ou menos.
Chegando à empresa, cumprimento o porteiro — que provavelmente me considera uma maluca desde o surto no dia da entrevista — e vou em direção ao elevador.
Paro. Fico olhando. Odiando.
Detesto lugares fechados.
Respiro fundo e… decido ir de escadas. Afinal, tô adiantada.
Tiro os sapatos, prendo o vestido com um nó e começo a subir.
E me arrependo no terceiro andar.
Mas agora já comecei, né?
— Ufa! — ofego ao alcançar o andar da diretoria.
Recalço os sapatos, ajeito o cabelo, e vou até minha nova mesa, que fica de frente pra sala do chefão.
Deixo minha bolsa de lado e começo a dar uma olhada nos papéis que já estavam lá.
Respirei fundo.
— Vai dar tudo certo, Isa. Tudo certo.
Então o elevador se abre.
E lá vem ele.
Victor Alencar.
Impecável. Inacreditável. E insuportável.
Ao lado, um homem tão bem vestido quanto — mas sem aquele olhar de quem quer devorar a alma dos outros.
Antes de entrar na sala, Victor me chama:
— Na minha sala. Agora.
— Sim, senhor — respondo, controlando o revirar de olhos.
— Nem um bom dia? Que educação. — Murmuro baixo:
— Disse algo? — pergunta, parando na porta.
— Não, senhor. Nada.
Mas o sócio dele ouviu. E deu uma risadinha de canto.
Ótimo. Primeiro dia e já sou a piada.
Pego um caderno e uma caneta, e entro na sala.
Ele está no notebook, digitando como se eu não existisse.
Fico lá. Em pé.
Dois minutos.
Três.
O salto começa a incomodar. O suor escorre entre os p****s. A blusa aperta as costelas.
— Com licença, Sr. Alencar... — digo, tentando manter a postura. — Estou aqui há um bom tempo. O senhor deseja algo?
Ele ergue os olhos.
E aquele olhar...
Meu corpo esquenta. Tomara que seja raiva.
— Quero que tire cópias deste contrato... — diz, entregando um papel — ... e organize todos aqueles documentos por ordem alfabética e ano.
Ele aponta para uma pilha.
Não. Uma MONTANHA.
— Isso tudo?
— Ah, senhorita Ferrari... — diz com aquele sorrisinho de canto — quero tudo organizado até amanhã de manhã.
— O quê?! — escapa da minha boca antes que eu possa evitar.
Ele levanta uma sobrancelha.
— A senhorita falou algo?
— Não, não, senhor Alencar. — recuo.
— Muito bem. Pode se retirar.
Saio da sala com um leve ranger de dentes.
— Tá de brincadeira, né? — sussurro pra mim mesma, encarando a pilha. — Isso é perseguição. Só pode. Tá se vingando da camisa...
E eu que achava que o primeiro dia ia ser leve.
Iludida.
Totalmente ferrada.
Mas se ele acha que eu vou desistir...
Ele não me conhece.