ISABELA FERRARI
Ai, que raiva. Que ódio. Que vontade de gritar.
Aquela mulherzinha ridícula…
Feita sob medida pro Alencar.
Falsos, arrogantes, egocêntricos. Um casal digno de reality show.
Respiro fundo e volto pra minha mesa, tentando não socar o teclado.
Nem consigo pegar o celular que ele vibra — Fer, claro.
📱 LIGAÇÃO ON
— Oi, miga! — diz com voz animada demais.
— Oi, Fer. O que foi?
— Nada. Só queria saber como minha miguxa tá...
— Vai, Fer. Fala logo o que você quer.
— Assim você me ofende. — dramatiza.
— Corta a novela e desembucha.
— Que tal um cineminha hoje à noite?
— CINEMA, hoje? Fer, hoje é QUARTA. Eu trabalho amanhã.
— Só um filminho, prometo! Me distrair, te distrair... aceitar, aceita, aceita!
— Se eu aceitar, você para com essa palhaçada?
— Paro.
— Então tá. Vamos ao cinema.
— AAAAA! Hoje, às oito! Cinelovers!
— Tô aceitando só porque hoje foi o dia que eu quase pedi demissão.
— O quê?! Por quê?!
— Em casa eu te conto tudo.
— Beleza. Beijo, Isa.
— Beijo, Fer.
📱 LIGAÇÃO OFF
Guardo o celular. Me preparo pra voltar à sanidade, quando escuto o salto irritante e vejo a loira de vestido vermelho surgir de novo — Aline, a noiva barraqueira.
Ela para bem na minha frente, toda metida a vilã de novela mexicana.
— Deseja algo, senhorita? — pergunto, mantendo a compostura.
— Não... só vim te dar um aviso.
— Aviso?
— Sim. Não pense que vou deixar você ir pra cama com o MEU noivo, secretarizinha.
Dou uma pausa. Pisco. Me certifico de que ouvi certo.
— Desculpa, não entendi.
— Não se faça de sonsa. Sei que as secretárias do Victor sempre acabam na cama dele.
— Olha... senhorita Aline, pode ficar tranquila. Eu tô aqui pra trabalhar, não pra deitar com ninguém. Muito menos com seu noivo.
— Assim espero. — diz com um sorrisinho venenoso e sai, desfilando como se tivesse vencido alguma coisa.
Fico parada por dois segundos, em silêncio.
O nível de loucura que eu presenciei hoje merece um prêmio.
Eu? Na cama com o Victor Alencar?
Nem se ele fosse o último ser humano na Terra.
Nem se me pagassem em barras de ouro.
Nem se o mundo tivesse acabado e só restasse eu, ele e um extintor.
Mas claro, só comigo que acontece esse tipo de karma.
Devo ter matado uma santa na outra vida.
Sacudo a cabeça e foco no que importa: o trabalho.
Começo a digitar os documentos da próxima semana.
Organizar arquivo.
Receber e redirecionar e-mails.
Atender telefonemas.
Anotar e encaminhar.
Tramitação de processos.
Recepcionar visitantes.
Controlar entrada e saída de correspondências.
Quase nada, né? E ainda tenho que aguentar a Barbie vingativa achando que eu tenho tempo pra trepar com o chefe.
Dou uma risada amarga sozinha.
Tô terminando uma minuta de reunião quando o interfone toca.
— Senhorita Ferrari. Pode encerrar por hoje. Não volto mais.
Respondo apenas com um:
— Sim, senhor.
Ele desliga.
Volto a olhar para a tela.
Nenhum “obrigado”. Nenhuma desculpa pela cena anterior. Nada.
Apenas Victor Alencar sendo Victor Alencar:
Arrogante. Controlador.
E, pra meu azar, perigosamente bonito.
Mas ele não vai me quebrar.
Nem ele.
Nem a loira turbinada.
Nem esse caos disfarçado de escritório.
Eu sou Isabela Ferrari.
E vim pra muito mais do que fazer café e engolir sapo.