VICTOR ALENCAR
Conversava com Scott sobre os relatórios da manhã quando Aline entrou pela porta como se fosse dona do andar.
— Oi, querido. — diz, já com o tom meloso que me irrita.
— Oi, Aline. — respondo, seco.
— Amor... — ela se aproxima, forçando i********e.
Suspiro fundo.
— O que foi agora, Aline?
— A sua secretarizinha me destratou. Não queria me deixar entrar. E ainda estava de conversinha fiada no telefone.
Conto até três mentalmente. Mais um drama.
— Como assim? Ela está aqui há dois dias. Não me parece o tipo de pessoa que destrata alguém.
— Então agora você tá duvidando de mim? — ela cruza os braços. — Ela tem que ser demitida. Agora.
— Aline...
— É sério. Ela precisa entender que eu sou a noiva e mando aqui também.
Mando chamar Isabela.
Ela entra rápido, como sempre.
Postura reta, olhar focado…
Mas aquele uniforme apertado e o jeito firme de falar me desconcertam mais do que deveriam.
Ela bate na porta.
— Entre.
Ao ver Scott, ela dá um leve sorriso.
Esse sorriso.
Me irrita. Me distrai. Me deixa puto.
Não sei o porquê. Ou finjo que não sei.
— O que o senhor deseja? — pergunta, educada.
— Quem você pensa que é pra destratar minha noiva? — disparo, com a raiva engasgada na garganta.
— O quê? — ela murmura, surpresa.
— Aline não precisa ser anunciada quando vier. Entendido?
— Eu só pensei que... já que o senhor estava com o sócio... não quisesse ser interrompido.
— Não pense. Só trabalhe. É pra isso que eu te pago. Não pra bater papo no telefone.
— Com todo respeito, senhor Alencar... — diz, erguendo os olhos e me encarando com firmeza. — Eu não estava batendo papo. Estava fazendo o que o senhor mandou: marcando as reuniões.
— Aline disse que você estava de conversinha.
Internamente, xingo.
Porra, Aline... você já pegou implicância com a garota? Dois dias?
— Ela ouviu errado. Eu só perguntei o nome dela, para anunciá-la com educação. E se o senhor me paga para trabalhar, é exatamente o que estou fazendo. — diz com uma calma irritante.
Não digo nada.
Olho para Aline, meu olhar já diz tudo.
Ela entendeu.
Volto o olhar para Isabela.
— E a reunião?
— Eles pediram que o senhor vá até São Francisco ainda hoje. Estão aguardando.
— Droga.
Justo hoje.
— Quando me chamou, eu já estava vindo confirmar.
— Confirma. E desmarque qualquer outro compromisso.
— Sim, senhor. Algo mais?
— Não.
Ela sai.
Volto o olhar para Aline. Estou por um fio.
— Que merda foi essa, Aline?
— Ela não me tratou como eu mereço.
— Ela é minha secretária. Não sua. Ela estava trabalhando. Você é uma estranha pra ela. E você nem se apresentou.
— Ah, então agora você vai defendê-la?
— Não tô defendendo. Só não gosto de ser feito de i****a por uma cena de ciúmes no meio do expediente.
— Você sabe muito bem o porquê eu tô assim. Não é à toa que nenhuma secretária dura aqui. Você acha que eu sou burra?
— Se sabe, então me diz: por que ainda tá aqui?
— Porque eu te amo, p***a! — grita.
Silêncio.
Respiro fundo. Cruzo os braços. Falo firme:
— Tá perdendo tempo se acha que esse amor que você diz ter por mim vai me mudar.
Scott, que ainda está na sala, tenta mediar:
— Chega, os dois.
— Tá vendo, Scott? Olha como ele me trata.
— Ele tá estressado, Aline. É só isso. — diz Scott, com o tom calmo de sempre.
— Ótimo. Vou deixar vocês em paz. Preciso fazer compras. — ela me beija no rosto e sai batendo o salto no piso.
Fico olhando pra porta. Passo a mão no cabelo, tentando me recompor.
Volto ao computador, termino os relatórios que consigo, pego minhas coisas e saio com Scott.
Ao passar pela recepção, vejo Isabela digitando no computador, concentrada. O rosto iluminado pela tela, os dedos rápidos, a expressão impassível.
— Senhorita Ferrari. — chamo.
Ela me olha com certa tensão.
— Pode encerrar por hoje. Não sei se volto. Tenho voo pra São Francisco.
Ela só assente com a cabeça e volta ao que fazia, sem demonstrar nada.
Fria. Profissional. Impecável.
Mas eu sei.
Eu sei que ela tá engolindo a raiva.
E o pior?
Isso me deixa ainda mais... curioso.
Se ela pensa que eu esqueci o jeito como ela me olhou…
Ela não faz ideia do que eu estou pensando agora.