Noiva cobra...cap ..10

973 Words
ISABELA FERRARI (versão revisada) Até que enfim, em casa. Jogo a bolsa no sofá e os documentos em cima da mesa. Vou direto pra cozinha — fome tá gritando. Fer ainda não chegou. Deve estar atolada de clientes no salão. Banho tomado, barriga finalmente cheia… É hora de começar a maratona. Sento no chão do quarto com a papelada espalhada ao meu redor. Vai ser uma longa noite. Mas eu não me importo. Só quero entregar tudo pronto. — Boa noite, Isa. — diz Fer, entrando no quarto e me olhando com um sorrisinho cansado. — Boa, Fer. — O que é tudo isso? Me diz que não é trabalho... — É, infelizmente. Comecei cedo e parece que vou virar a noite. — Miga, quer ajuda? — Não, você deve estar exausta. — Só um pouquinho. Mas posso ajudar sim. Você não quer dormir ao menos um pouco? — Quero. Então... tá, me ajuda, vai. Fer senta no chão comigo sem reclamar. Ela sempre foi boa com números. Fizemos Administração juntas, mesmo ela tendo escolhido a estética como carreira. Graças a ela, por volta das duas da manhã, tudo está organizado. TUDO. — Fer, obrigada. De verdade. — De nada, miga. Não ia deixar você surtar sozinha. — Vamos comer? Minha fome voltou. — Bora, porque eu também tô morrendo. Comemos, conversamos um pouco, rimos do caos… e então, desmaiei na cama. Coloquei o despertador com medo de perder a hora. Não podia dar mole justo agora. Na manhã seguinte, lá estou eu de novo. Subindo escada. Com sono. Carregando documentos. Sim, podia pegar o elevador, mas... claustrofobia não dá trégua. Quase caio dura quando chego no andar da diretoria. Coloco os papéis na mesa, me jogo na cadeira e tento parecer plena. Missão quase impossível. O elevador se abre. Perfume forte. Passos decididos. Terno impecável. Victor Alencar. — Bom dia, senhor. — digo, forçando um sorriso. — Na minha sala. — responde, do jeito seco e arrogante de sempre. — m*l-educado. — sussurro. Ele nem responde, mas sei que ouviu. Aquele micro levantar de sobrancelha não me engana. Entro na sala. Ele me olha de cima a baixo. Será que minha roupa tá amassada? Será que tô com olheira? Tanto faz. Ele me entrega uma folha. — Quero que ligue para esses contatos e marque uma reunião para hoje à tarde. — Sim, senhor Alencar. Algo mais? — Não. — Com licença. Saio, mas antes de começar a ligar, volto com os documentos. — Com licença, senhor. — O que foi agora? — Aqui estão todos os documentos solicitados. Organizados por ordem alfabética e por ano. — coloco na mesa com todo o cuidado e um leve toque de orgulho. Ele me olha surpreso. Mas, claro, não fala nada. Só volta ao notebook como se eu tivesse trazido o jornal do dia. Quando estou saindo, Scott entra. — Bom dia, Isabela. — diz, sorrindo. — Bom dia, senhor. — Já pedi pra me chamar só de Scott. — Desculpa, Scott. Victor nos observa. Depois volta ao trabalho, mas com aquele olhar… de quem não gostou da interação. — Vejo que terminou tudo. — Sim. — Parabéns. — Obrigada. Com licença. Volto pra minha mesa. Começo as ligações. Primeiro número, ninguém atende. Segundo, ocupado. Terceiro… toca. Mas antes que eu diga “alô”, o elevador se abre e ela aparece. Uma loira. Alta. Vestido vermelho, justo, brilhante. Cabelo digno de comercial. Peito saltando como se fosse escapar da roupa. Ela para na minha frente, olhos julgadores dos pés à cabeça. — Quem é você, garota? — Bom dia, senhorita. Sou a nova secretária do Sr. Alencar. — O Victor está? — Sim. Com quem posso anunciar a visita? — Não precisa me anunciar, querida. — ela sorri com veneno. — É que ele está com o sócio. Pode ser que prefira não ser interrompido. — Ele vai gostar. Eu sou a noiva. E entra sem esperar. Noiva. É CLARO que ele teria uma noiva assim. Luxo, silicone, nariz empinado. Feitos um para o outro. Volto a focar no que interessa. Até que o telefone da recepção toca. — Empresa Alencar, bom dia. — Na minha sala. Agora. — a voz dele é cortante. Mas o que foi agora?! Pego o caderno de anotações, bato na porta e entro. — O senhor me chamou? — Quem você pensa que é pra destratar minha noiva? — Oi?! Eu devo ter pulado essa parte do roteiro. Que cena é essa? — Como assim? — pergunto, confusa. — Quando Aline vier, ela não precisa ser anunciada. Entendido? — Eu só pensei que o senhor não quisesse ser interrompido, já que estava com o seu sócio. — Não pense. Trabalhe. É pra isso que você tá aqui. Não pra ficar de conversinha no telefone. Respira, Isa. Respira. — Desculpe, senhor Alencar, mas eu não estava “de conversinha”. Estava marcando as reuniões que o senhor me pediu. Apenas perguntei o nome dela pra fazer meu trabalho com educação. Silêncio. Ele olha para Aline com uma cara de poucos amigos. Depois me encara de novo. — E então? A reunião? — Eles pediram que o senhor vá até São Francisco ainda hoje. Estão aguardando sua confirmação. — Droga. — rosna. — Quando me chamou, eu estava vindo justamente confirmar. — Pode confirmar. E cancele qualquer outro compromisso meu de hoje. — Certo. Algo mais? — Não. Saio. Com vontade de chorar, gritar, voltar pra casa. Mas engulo em seco. Nem uma desculpa. Nada. Victor Alencar é o tipo de homem que pisa… E acha que o mundo deve agradecer por isso. Mas uma coisa é certa: Eu posso ser nova aqui. Mas não sou burra. E não sou frágil. Se ele acha que vai me quebrar… Tá mexendo com a secretária errada.
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