VICTOR ALENCAR
Acordo antes do despertador tocar.
Aline ainda dorme ao meu lado, espalhada nos lençóis como se nada no mundo a preocupasse.
Quem me dera ter esse luxo.
Me levanto sem fazer barulho e vou direto para o banheiro.
Mais um dia fingindo que está tudo bem.
A verdade?
Estou cansado.
Cansado desse noivado forçado.
Cansado de sorrir nas fotos.
Cansado de manter essa farsa em nome de um acordo que meu pai assinou antes de largar tudo nas minhas costas.
O tal “empréstimo salvador” feito com o pai da Aline?
Uma armadilha dourada.
E eu, o i****a que herdou as correntes.
Desde que assumi o comando da Alencar, venho tentando impedir a queda.
Cortei gastos, reformulei setores, negociei contratos, vendi até ativos antigos da família.
E mesmo assim… ainda estamos no fio da navalha.
O problema?
Se eu não mantenho essa palhaçada de noivado em pé, o velho corta o financiamento.
E aí sim, a empresa vai pro buraco.
Mas não é um maldito contrato que vai decidir minha vida.
Não pra sempre.
Depois do banho, desço para o café.
Hoje, quero o mais amargo que tiver — pra ver se tira o gosto azedo do jantar de ontem com a “família perfeita”.
Aline, claro, tentou me convencer de marcar a data do casamento para agosto.
Quase engasguei com o vinho.
Só cedeu depois do sexo.
Me deu até o final do ano.
Maio.
Eu tenho até dezembro.
Se até lá eu não salvar a Alencar, vou me afundar com ela.
— Bom dia, senhor Victor. — diz Ana, a funcionária mais fiel da casa.
— Bom dia, Ana. Meu pai ligou?
— Ainda não, senhor.
— Também não respondeu minhas ligações. E olha que deixei umas mil.
— A senhorita Aline vai descer para o café?
— Não faço ideia. Se acordar, diga que eu saí cedo por causa de uma reunião importante.
— Certo.
Tomo o último gole de café, pego minhas chaves e saio.
Não estou no clima de fazer papel de noivo apaixonado.
Não estou no clima de fazer absolutamente nada… além de colocar essa empresa de volta de pé.
Chego à Alencar e estaciono.
Cumprimento superficialmente quem cruzo no caminho, entro no elevador e aperto o botão do último andar.
Mais um dia de reuniões, decisões difíceis e cara de poker.
Quando as portas se abrem, dou de cara com ela.
Isabela Ferrari.
Minha nova secretária.
Pontual. Postura impecável. Uniforme alinhado.
Mas o que mais chama atenção…
é o contraste.
Ela tem aquele rosto de anjo — pele limpa, olhar firme, quase inocente — mas sei que é só casca.
Aprendi do pior jeito que nenhuma mulher que entra nesse prédio quer só trabalhar.
Elas querem poder. Dinheiro. Status.
E ela...
não vai ser diferente.
— Bom dia, senhor. — diz, com um sorriso leve.
Respondo da forma mais seca possível:
— Na minha sala.
E sigo sem olhar pra trás.
Ouço baixinho:
— m*l-educado.
Um sorrisinho puxa o canto da minha boca.
Ela é atrevida.
Isso me diverte.
Entro, sento, ligo meu notebook…
E a imagem dela, com aquele uniforme justo, ressurge na minha cabeça como uma maldição doce.
Talvez hoje eu tire umas horas pra... relaxar.
Ela parece dedicada, eficiente... mas seria ainda melhor presa contra minha mesa, gemendo o nome que ela insiste em falar com tanta formalidade.
Estou cansado, estressado, e fodido até o pescoço.
Mas se for pra ter um alívio no meio disso tudo…
Talvez Isabela seja exatamente o que eu preciso