Eduardo foi tomar banho primeiro, aproveitei para procurar algo para comer, por sorte tinha pão de queijo e café fresquinho.
— Você quer? — perguntei para Artur que mais parecia minha sombra pois onde eu colocava o pé ele colocava também.
— Quero leite com toddy. — respondeu.
— Tudo bem. — procurei por todo o armário até achar o toddy, depois peguei leite na geladeira. — quer que eu esquente um pouco? — o menino apenas balançou a cabeça negando, então eu preparei gelado mesmo e o entreguei.
— Tem que botar no meu copinho. — ele disse e apontou para o copo sobre a pia, o mesmo tinha um canudo comprido.
Coloquei o leite no tal copo e o garoto foi se sentar na sala, voltei a fazer meu lanche, no exato momento que terminei o Eduardo saiu do banho, foi minha vez de passar uma água no corpo, quando sai vesti uma bermuda, camisa e tênis, já pronto voltei para a sala, nos três saímos do apartamento logo depois, o campinho não ficava muito longe, apenas três ruas atrás do prédio, assim que chegamos Artur já foi logo correndo na frente, enquanto Eduardo o acompanhava levando a bola debaixo de um dos braços.
— Eu e o papai contra o Davi. — Artur gritou.
— Acho justo.
— Eu vou ter que jogar? — perguntei apreensiva. — eu não estou muito afim não.
— Poxa! — o menino fez bico e carinha triste.
— Para de ser chato. — Eduardo me deu um empurrão. — vamos jogar logo.
— Eu tenho escolha?
— Não! — os dois responderam em coro.
Não gasta nem dizer como aquilo foi desastroso, eu m*l conseguia acertar um chute e acreditem até o Artur conseguia me driblar. O estranho é que no final acabou sendo divertido, os dois começaram a me zoar depois de um tombo que eu levei, resumindo, fui tentar chutar a bola, me enrolei com a mesma e cai de b***a no chão, doeu, mas eu me acabei de rir, assim como os dois.
Depois do meu tombo nós paramos de jogar, Artur avistou um carrinho de sorvete e quis tomar um, depois que tomou ele acabou se juntando com outros três garotos e começaram a jogar bola por conta própria. Ficamos ali até anoitecer, Eduardo não falou uma só palavra, ele parecia distante e pensativo, de uma forma estranha aquilo me deixou preocupada mas também não tive coragem de lhe perguntar o que estava acontecendo.
Ao voltar para casa passamos por um carrinho de hot-dog, compramos três para viagem e seguimos de volta ao apartamento. Assim que chegamos Eduardo foi dar um banho em Artur e tomar um outro para tirar o suar do corpo, apesar do sol já ter ido embora o calor ainda estava de m***r, eu suava por poros que nem sabia que existiam, também estava morta e só queria dormir. Quando eles saíram eu também tomei outro banho, apesar do calor eu não conseguia ficar sem camisa, todo home fica e é até normal, mas não para mim, na minha opinião ficar sem camisa é o mesmo que ficar pelada.
Ao sair do banho meu estomago roncava, resolvi comer meu lanche e cair na cama o mais rápido possível, ao voltar para sala encontrei Artur quase cochilando no sofá, o menino parecia exausto, segui pra a cozinha, Eduardo comia em silencio na mesa de jantar, me sentei perto dele e peguei meu lanche.
— O Artur não vai comer?
— Ela já comeu. — e o silêncio voltou a reinar.
— Aconteceu alguma coisa? — tomei coragem e perguntei, eu não podia continuar naquela duvida, num momento Eduardo estava normal e em outro parecia que tinha morrido alguém.
— Você não estava mentindo não é mesmo? — ele falou no mesmo instante que largava seu lanche. — você não é o Davi.
— Só agora você notou isso? — um sorrisinho leve de ironia surgiu em meu rosto.
— Quem é você? — então ele me encarou confuso.
— Milena, eu sou aquela garota que veio aqui dizendo que era o Davi. — respondi e respirei fundo em seguida. — ou pelo menos eu era aquela garota.
— Como isso é possível?
— Sinceramente eu não sei. — arqueei os ombros. — em um dia eu era eu e no outro eu estava nesse corpo.
— Então sábado passado não eram drogas?
— É claro que não. — falei imediatamente. — eu não uso drogas.
— Mesmo assim isso não tem logica nenhuma. — Eduardo se levantou e começou a andar em círculos. — como uma pessoa pode trocar de corpo com outra? Do nada.
— Na verdade não foi do nada. — falei. — uma cigana me parou na sexta-feira, disse que minha vida iria mudar e me deu um cordão, no decorrer do dia uns coisas ruins aconteceram, achei que era culpa dela e joguei o cordão fora, o engraçado é que tenho quase toda certeza que Davi encontrou esse cordão, mas o mesmo desapareceu magicamente.
— Isso é muito louco. — Eduardo voltou a se sentar, em seguida apoiou os cotovelos na mesa e recostou a cabeça sobre as mãos. — vocês já tentaram encontrar essa tal cigana?
— A velha tomou chá de sumiço e minhas amigas estão tentando entrar em contato com um psicanalista mas até agora nada. — respondi, por um instante ficamos em completo silêncio.
— E se vocês nunca voltarem ao normal?
— Nem fala uma coisa dessas. — senti meu coração apertar. — eu estou com tantas saudades da minha casa, dos meus pais e até do chato do meu irmão. — meus olhos se encheram de lagrimas mas ao mesmo tempo um leve sorriso surgiu em meus lábios.
— Cara é muita coisa para me assimilar. — Eduardo respirou fundo.
— Pelo menos agora você acredita em mim e eu não preciso ficar bancando o "Davi" todo o tempo.
— Minha cabeça parece que vai explodir. — Eduardo se levantou novamente. — preciso dormir e colocar as ideias em lugar, amanhã a gente vê o que faz.
— Você vai me expulsar daqui? — senti meu coração acelerar, se Eduardo me mandasse embora o que eu iria fazer? Eu não tinha nenhum outro lugar para ficar.
— Não, é claro que não. — senti um certo alivio. — mas precisamos dar um jeito de vocês voltarem ao normal.
— É tudo que mais quero. — ele assentiu e saiu em direção a sala, pegou o Artur que já dormia profundamente no sofá e seguiu para seu quarto.
Eu estava bem mais aliviada agora que o Eduardo acreditava em mim, tenho certeza que o Davi também ficaria feliz, peguei o celular e tentei ligar para o mesmo, o celular chamou, chamou, mas ninguém atendeu, tentei mais duas vezes e nada, onde será que ele está que não atende esse celular?