CAPÍTULO 05

2427 Words
Amanda A minha vida e a da minha irmã já tinham mudado tanto desde a separação dos nossos pais e depois da morte da mamãe, mudou mais ainda. Os primeiros meses após sua morte foram como um nevoeiro denso que se instalou sobre mim e Laurinha. Todo dia era uma batalha contra a tristeza e ainda é, nossa mãe faz falta em todos os momentos e minha irmã foi poupada de alguns detalhes de como tudo aconteceu, pois já basta a dor de lutar com a ausência repentina em nossas vidas. Nossa vida virou completamente de cabeça para baixo e precisamos sair da casa onde estávamos morando pois não teríamos como pagar o aluguel e então fomos morar com minha madrinha e a Fabiele, que nos acolheram de braços abertos, compreendendo que precisávamos de tempo para nos adaptarmos à nova realidade e agora mais do que nunca, rala são nossa família. Fabi e eu costumamos dizer que somos irmãs de mães diferentes e aos poucos, Laura e eu estamos nos adaptando a viver na comunidade, que tem sim coisas ruins, mas não é tudo que falam por aí. Enquanto não consigo emprego, me inscrevi na oficina de dança da associação da comunidade. A associação tem projetos muito bons para crianças e adolescentes, projetos esses, financiados em grande parte pelo tráfico, óbvio. Mas pelo menos é algo bom sendo feito para quem precisa. Laurinha também está participando, porém as oficinas dela são música e informática e em meio a tanta tristeza que vivemos nos últimos meses, ao menos essas oficinas nos fazem bem. Eu sempre tive vontade de fazer dança e quando era criança, amava participar das apresentações da escola, mas meu pai, que era um pouco conservador, não permitia e aqui na comunidade, encontrei a oportunidade de colocar meu corpo em movimento. Diana gostou bastante de estarmos participando, mas eu já disse a ela que vou continuar na oficina somente até conseguir emprego. Entrar para o grupo de dança ajudou muito no processo do luto, pois eu achei que fosse enlouquecer sem minha mãe ao nosso lado e hoje, após quase três meses de dança, quando danço, não sinto apenas a perda, que óbvio ainda me causa muita tristeza, mas sinto a alegria de estar viva, de explorar a força que existe dentro de mim. Temos uma apresentação marcada para logo e quando eu estiver me apresentando, será como uma homenagem à minha mãe que sempre me apoiava a seguir meus sonhos. A dança me trouxe de volta à vida, e embora a dor da perda ainda esteja comigo, agora ela caminha ao lado da cura que a dança me proporcionou e sei que quando eu tiver que sair do grupo para trabalhar, vou sentir muita falta. Fabi veio me esperar no final da aula para irmos assistir à gravação do clipe do T5 e confesso que fiquei empolgada com a possibilidade de ver ele de pertinho. Eu sei todas as suas músicas. Conforme fomos nos aproximando do local onde a Fabi disse que seria a gravação, que era bem distante da nossa casa, havia muitas pessoas. Todas elas querendo ver o T5, óbvio, e quando o vimos, ficamos eufóricas, mas não podemos chegar mais perto, os seguranças não permitiram. Lá ficamos assistindo tudo durante algumas horas, o funkeiro tatuado que adoramos, usando muitos cordões de ouro, cantava as músicas com algumas garotas com corpos maravilhosos dançando ao seu redor. E nos momentos que ele gravava sem camisa, a mulherada, incluindo nós, ficava em êxtase, afinal, ele é lindo. A equipe de produção se movia freneticamente por todos os lados, ajustando cada detalhe para capturar a essência da comunidade em cada cena e para que os muitos homens armados que estavam por toda a parte, não aparecessem nas imagens. Essa questão de pessoas altamente armadas em diversos cantos da comunidade, me assustava muito no início, mas agora já estou começando a me acostumar. Mas é claro que tendo um famoso aqui, todo cuidado era redobrado e eu observei que nessa parte mais alta da comunidade, há muito mais desses homens armados do que lá embaixo. Enquanto T5 cantava suas letras um pouco ousadas, Fabi e eu dançávamos ao ritmo da batida tomando energético que ela comprou para nós. Cada batida parecia celebrar a força e a resiliência da favela, e por alguns momentos eu me peguei refletindo sobre a beleza que muitas vezes passa despercebida em meio às dificuldades do dia a dia. — Você dança pra c*****o, Amanda! Quem diria, hein? — Que nada, Fabi! Funk é muito fácil de dançar e a oficina de dança está me ajudando muito. — eu me defendo e sugo o energético pelo canudinho. — Aham, sei! Tu manja muito, isso sim! Nos desconcentramos um pouco quando o T5 veio cantando e gesticulando muito próximo de onde estávamos. Foi uma gritaria geral de todos que ali estavam. — Hi, estão todos aí, o bonde inteiro só no cantinho! — Fabi diz, olhando para algum ponto específico, ficando na ponta dos pés. — Quem? — pergunto, olhando na mesma direção que ela, embora eu não soubesse sobre o que ela se referia. — O bonde do Payú! — E quem é Payú? — pergunto. — Payú é o dono da favela agora, ele é filho do PH que comandava tudo aqui até ele ser preso na última invasão. — ela diz, ainda olhando na mesma direção. Ouvir ela falar sobre a invasão, remexe algo dentro de mim, trazendo lembranças do dia mais triste da minha vida e eu tentei puxar outro assunto para não desabar aqui mesmo. — Mas ele é muito r**m? Tipo aqueles traficantes que falam na internet? — Ah, Amanda, sabe como é, né? Não é santo, não! Ele quer tudo pelo certo, não aceita trairagem e coisa errada, se vacilar, ele cobra sem dó! Mas ele é um tremendo gato e gostoso. Olho para ela revirando os olhos, Fabi é muito doidinha. Ela me abraça sorrindo e continuamos dançando, enquanto eu olho rapidamente na direção do tal bonde que ela falou. Eram vários homens portando armas de vários tipos diferentes e um deles em específico, se destacava dos demais. Alto, postura ereta, com diversas tatuagens pelo corpo, com uma cara de psicopata que dava medo e ainda assim… bonito. Mas eu não fiquei olhando muito, vai que desse problema pra mim. Quando a gravação estava no final, T5 tirou fotos com algumas pessoas que estavam mais à nossa frente, infelizmente nós não conseguimos fazer nenhum registro com ele, mas continuamos dançando pois as músicas ainda tocavam. Realmente vir aqui, me trouxe uma alegria que a tempos eu não sentia. De repente, um rapaz cheio de tatuagens, com uma arma enorme atravessada nas costas e cara de quem iria matar todo mundo, se aproximou de nós e eu gelei. Posso estar confundindo, mas ele parece ser um dos caras que estava no tal bonde que a Fabi mencionou agora pouco. Ele fala algo no ouvido da Fabi que continua no passinho, porém agora mais discreto e eu continuei também para tentar disfarçar o medo que estava sentindo e o tremor que estava invadindo meu corpo. O que esse cara queria? — Não me trava, não, Brand! — escutei Fabi dizer enquanto levantava os cabelos para o alto por conta do calor, enquanto o m*l encarado falava mais alguma coisa no ouvido dela, olhando sem cerimônia alguma para os p****s dela e ela seguia negando com a cabeça. Ela é doida de falar nesse tom com um cara desses? Fico olhando mais um tempo para os dois conversarem e observei que tem algo a mais entre eles, há muita i********e e arrisco a dizer também que a troca de olhares entre eles, deixa nítida a química que emana de um para o outro. Tomo mais enérgico na tentativa falha de agir normalmente, mas um homem com o porte dele e a arma que carrega, é como um ímã que atrai a atenção de qualquer pessoa. É praticamente impossível não olhar em sua direção, então acredito que meu olhar entrega que estou apavorada. Entre uma palavra e outra com a Fabi, vejo que ele olha em minha direção e eu desvio o olhar, devo estar com cara de bicho do mato olhando para eles que logo se despedem com um beijo bem quente que me fez ruborizar e que atraiu olhares de muitas pessoas na direção deles, confirmando assim, a minha desconfiança de que algo acontece entre eles. Os lábios de Fabi estavam grudados aos de um homem de semblante sombrio, índole mais que duvidosa e aparência amedrontadora. E eu ali, sem saber como agir. Assim que ele se foi, estando eu, curiosa, impressionada e muito assustada com aquilo, perguntei: — Fabi, eu estou enxergando coisas ou rola alguma coisa entre você e aquele cara? — A gente não tá atrasada pra buscar a Laurinha? — Ela perguntou tentando mudar de assunto e eu olhei a hora no celular. Realmente já estava no horário de buscar a minha irmã. Foi tão divertido assistir o T5 que eu nem vi a hora passar. Cantei e dancei um pouco, mas a Fabi dança muito, ela vai até o chão mesmo. E foi muito bom passar essa tarde me distraindo e esquecendo um pouco das memórias tristes que sempre invadem os meus pensamentos diariamente. Me senti alegre novamente, me senti livre, cheia de alegria e de esperança. — Está dentro do horário! — respondi. — Mas não foge do assunto, não, dona Fabi! — dei um leve empurrão nela que tomou o restante do energético e jogou a latinha numa lixeira próxima de nós, me olhando com cara de travessa. — Então, vamos que no caminho eu te explico! — Ela diz e assim que nos afastamos da multidão, indo em direção à escola, ela começou a contar. — Conta logo! — Quase ordenei. — O Brand é meu boy, amiga! Lembra que eu já tinha te falado que eu tinha um lance com um carinha? Então? É ele. Fico calada alguns segundos, tentando processar a informação. — Lembro, aliás, como esquecer? Você sai escondida algumas noites e só volta de madrugada, sua safada! Eu só não sabia que era alguém assim! — falei, sem achar o termo certo. A Fabi e eu dividimos o mesmo quarto e algumas vezes ela sai pela janela para a Diana não ver. Eu devia ter suspeitado que era com alguém do mundo errado, já que ela precisa se esconder para vê-lo. — Assim como, Amanda? Do bonde você quer dizer? — Ela perguntou tranquilamente. — É amiga, você viu que ele estava com uma arma enorme? — É um fuzil Amanda, coisa normal entre eles! Aliás, armas tem em todos os cantos na comunidade, você sabe disso! E o Brand é o subchefe agora! — Fabi respondeu se abanando pois estava muito calor e pelo trajeto, ela cumprimentava algumas pessoas. Meu coração deu um salto. Eu jamais poderia imaginar que ela estivesse envolvida em algo tão perigoso, afinal, não precisa ser muito esperta para saber que o termo subchefe, como ela se referiu, significa ser alguém importante na comunidade. — E vocês namoram há quanto tempo? — perguntei, me abstendo de julgamentos. — Ah, não é namoro, não! — Ela diz e eu olhei confusa para ela. — É um lance, a gente se curte muito, temos uma química forte, ele me enche de presentes, presentes esses que minha mãe não pode nem sonhar, hein? — Ela levanta em minha direção, o dedo indicador com a unha enorme e bem feita porque ela é muito vaidosa. — Mas é isso, esses caras são assim, é lance e não namoro, Amandinha! — A Diana não sabe, então? — Nem pode nem imaginar que eu estou com ele, uma vez ela viu a gente junto e surtou, quase me bateu e me fez jurar que eu nunca mais ia ficar com ele e mais um monte de coisas! Ela não aceita porque sabe como é, né? Ele é envolvido. Mas quem diz que eu consigo ficar longe? — Como assim, amiga? Ele faz alguma maldade com você? — Hi, Amanda! Você é ingênua, hein? Vai ter que aprender muito ainda, mas fica tranquila que eu vou te ensinar tudinho! — Ela entrelaçou seu braço no meu, enquanto fomos indo em direção à escola. — Esses caras do bonde são malucos, possessivos, mulherengos e ciumentos. O Brand é o subchefe, imagina a mulherada em cima dele? Elas caem matando sem cerimônia e se minha mãe sequer sonhar que estou com ele, se forma a próxima guerra mundial lá em casa e ela vai falar na minha cabeça até 2050, afinal, o Brand não é o genro que uma mãe sonha para sua filha e você não deixe isso escapar, hein? — Claro que não, né Fabi? Não vou dizer nada, eu sou sua amiga! Mas você não tem medo desse cara? — Ah, eu sou doida por ele, amiga! Ele me leva a loucura, sabe? Ele é meu stress diário com as neuroses dele por ciúmes sem motivos, mas sou maluca pelo meu marrento! — Fabi fala, revirando os olhos. — Você é doida, sabia? — Eu sei! — ela responde e nós rimos. — Ele tem ciúmes e nem é namoro? Deus me livre de ter um relacionamento assim! — falei. — Ainda bem que você pensa assim! No bonde deles tudo é em excesso: dinheiro, sexo, mulheres, loucura e muito, muito perigo. É osso, Amanda! Depois que entrar nessa vida, não tem volta, tem umas minas aí, que mesmo levando esculacho deles, não conseguem sair disso. Tem outras que se arrastam pelo chefe, mas ele não se apega e não dá moral pra ninguém! — Que chefe? — perguntei postando nos stories, um videozinho que aparecia o T5 cantando muito próximo de nós na gravação do clipe. — O dono de tudo aqui, Amanda, o Payú! Eu te mostrei ele antes, lá com o bonde dele. — Se eu vi ele, nem sei quem é! — falei e rimos. — Alto, tatuado, marrento e gato pra c*****o! As mulheres se estapeiam por causa dele! — Fabi fala, digitando algo no seu celular. Seguimos nosso trajeto enquanto a Fabi seguiu contando como se envolveu com aquele cara e como é o “relacionamento” quente entre eles E eu fiquei pensando nas coisas que ela falou. Mulheres brigando por causa de bandido? Eu hein? Tenho amor ao meu cabelo e a minha vida, quero distância de homem assim.
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