CAPÍTULO 04

2823 Words
Brand Desde cedo, eu sabia que a vida tinha um jeito estranho de me desafiar. Cresci correndo pelas vielas, brincando com outros moleques da minha idade, que assim como eu, muitas vezes não tinham nem um pão em casa para comer. Essa favela sempre foi o meu lar, um lugar onde as histórias tristes são tão comuns quanto as marcas de bala nas paredes de tijolos ou madeiras envelhecidas. Aqui é o lugar onde você aprende a se virar desde pequeno, porque a vida, na grande maioria das vezes, não te dá muitas escolhas. É f**a você ver sua mãe chorando escondida por não ter um prato de comida para dar ao filho e essa era a minha realidade. Minha mãe, uma mulher forte e determinada que foi abandonada grávida pelo pai que queria que ela me abortasse e na época ela fugiu de São Paulo pra cá para me proteger e recomeçar sua vida. E durante a minha infância, ela trabalhava como diarista, mas o que ganhava nem sempre era o suficiente. A nossa realidade era igual a de muitas famílias aqui da favela, incluindo da molecada que cresceu comigo, o qual muitos não estão mais nesse mundo, e isso é f**a de lembrar. Eu queria dar uma vida melhor pra minha coroa e desde muito novo, percebi que precisava fazer coisas que a maioria das crianças não deveria fazer para conseguir dinheiro e aos poucos, fui entrando em um mundo que parecia oferecer aquilo que a minha realidade negava. Foi assim que, ainda muito novo, dei meus primeiros passos no submundo do crime. Um crime pequeno aqui, outro ali, um assalto a alguém que passava num local mais deserto, depois outro contra um pessoal que tava numa parada de ônibus e assim, eu mergulhava cada vez mais fundo em um mar de ilegalidade, alimentando uma sensação de poder que a vida cotidiana jamais me daria e mesmo sendo totalmente errado, isso me satisfazia. Pouco tempo depois, fui pego e passei um tempo numa instituição para menores infratores, devido a um assalto que pratiquei a um supermercado. Quando ganhei a liberdade, saí de lá sem ter conquistado a tal ressocialização que eles tanto falam por aí e então entrei para o tráfico, onde comecei como fogueteiro, depois fui vapor e mais pra frente soldado, até chegar na gerência de segurança e atualmente, com 26 anos de idade, sou o subchefe, cargo ao qual fui promovido após a prisão de PH, por ser o homem de maior confiança do Cristiano. Mas, pra chegar onde cheguei não foi fácil, foi correria total e cada degrau que subi na hierarquia do crime, foi fazendo meus corres com dedicação e disciplina, pois eu queria dar uma vida melhor pra minha coroa que no começa chorava, implorava pra eu não me envolver, mas não teve jeito, acho que esse lance de perigo sempre esteve nas minhas veias e aqui estou, podendo dar a minha mãe tudo que ela merece. Meu passado no crime moldou minha jornada e definiu o meu presente. Naquele maldito dia da invasão em que essa comunidade virou um inferno, um mar de sangue se formou entre as vielas e eu não arreguei, troquei bala sem dó, até tiro na perna tomei, mas isso aí faz parte desse meio e sem dúvida nenhuma, aquela foi a maior e mais sangrenta invasão já enfrentamos até hoje. Mas eu tô aqui firme e forte, e se precisar, tô pronto pra outra. Infelizmente muita gente morreu, incluindo alguns soldados do nosso bonde e por esse motivo, muita coisa foi reformulada no esquema, novos homens entraram pro movimento e alguns dos melhores soldados foram promovidos a novos cargos de confiança, naquele esquema de pirâmide da hierarquia. No comando do PH, essa comunidade estava crescendo e isso tem que continuar, tem que fortalecer o progresso e aumentar o faturamento cada dia mais. Manter o foco no lucro, agindo sempre na disciplina. Quando o Payú soube que seu pai caiu no privado, ele entrou em parafuso, surtou legal, precisou de vários homens pra segurar o cara. Claro que ele foi preparado desde muito novo pra assumir esse papel de líder, mas ele não esperava que fosse tão logo. A prisão do PH foi um duro golpe pra todos, mas principalmente pro Payú que sempre idolatrou o coroa dele e se ele já era um cara calado, frio e observador, depois dessa prisão, ficou mais ainda e tenho impressão de que até seu olhar é mais sombrio do que há seis meses atrás quando tudo aconteceu. Mas eu tô aqui, ajudando ele no que precisar, caindo e levantando até o fim. E agora tô aqui trocando uma ideia com ele, que tá pilhadão. — 06 meses, c*****o, exatamente 06 meses que meu pai tá enjaulado naquele inferno sem uma chance remota dele ganhar a liberdade! — Payú toma um gole grande de vodka. — Calma meu parceiro! Essas coisas são complicadas mesmo, a gente sabia que se ele caísse, seria difícil, são muitos crimes nas costas dele. — Tento acalmar ele. — E mais um monte que colocam na conta dele, Brand! — É f**a! Mas qualquer um de nós que caia lá, eles vão querer trancar e jogar a chave fora! — Só que você não pode perder o controle agora, tem que se manter firme, porque é exatamente isso que eles querem, te desestabilizar, te enfraquecer pra te pegarem também! — Isso nunca! — ele responde me olhando sério — Morro furado a bala, mas preso não vou! — suas palavras eram quase um juramento. — Então segura a onda, no momento certo as coisas vão acontecer! Os advogados estão trabalhando duro pra isso, tu sabe! Pega aí pra se acalmar. — passei um fino bolado na responsa pra ele e acendi um pra mim também. Eu e ele temos parceria há bastante tempo, jogamos bola juntos e soltamos muita pipa no alto do morro, mas na minha época de criminalidade na pista, a gente perdeu um pouco o contato, que foi retomado novamente quando eu entrei pro bonde. — E o machão e as piranhas da briga? - ele pergunta com o semblante um pouco mais relaxado. — Ordens executadas! Tão tudo no sapatinho agora, inclusive a limpeza no mercadinho já começou hoje! — solto a névoa branca pro alto embaçando minha visão. — É isso aí! — ele responde acendendo o beck enquanto olha pra ponta com cara de quem tá com o pensamento longe, mas é só o jeito dele mesmo, sempre caladão. Dou mais uma tragada forte no meu, segurando forte e ele faz o mesmo. — Vou te deixar aí viajando na onda! Bora colar na resenha mais tarde? — perguntei levantando da cadeira, enquanto ele estava deitado no sofá velho da salinha da boca. — Onde? — ele pergunta. — Hi, tá viajando mesmo, hein? — eu ri e ele também. — Qual foi, Hildebrando? Refresca minha memória aí! — ele me zoa, me chamando pelo meu nome de batismo, que ele sabe que eu odeio. Fui batizado com este nome em homenagem ao seu avô materno e meu vulgo Brand, é uma abreviação do meu nome. Nós dois gargalhamos. — O churrasco na laje da casa do Tielo, vai ter a gravação do clipe do T5. O T5 é cria da nossa comunidade, jogou muita bola comigo e com o Payú e quase entrou pro movimento, mas desde novo ele sonhava em ser famoso com as músicas de funk que ele escreve. Até que conseguiu oportunidade e agora mora na zona sul, tá famosão e a comunidade toda tem maior orgulho dele. — Pô, tô ligado! É tanta p**a pra resolver que eu nem lembrava que é daqui a pouco, mas vou colar lá, sim. T5 é fechamento nosso! E você fica em total atenção, Brand! — Sempre! — respondi vendo que ele já tava brisadão e saí dali, deixando ele que tá numa onda forte demais. FABIELE Tenho 18 anos e morei a vida toda aqui no Jacarezinho com minha mãe Diana. Ela é uma mulher incrível que me criou sozinha após meu pai ter morrido quando eu tinha apenas dois meses de vida, deixando apenas um vazio que minha mãe preencheu com seu amor incondicional. Mulher mais forte e guerreira que ela, eu não conheço, ela tem a força de leoa e é dona de um coração imenso, porém às vezes ela surta com meu jeito de ser, pois sou do tipo que não leva desaforo para casa e desço do salto, se precisar. Amo pagode e baile funk, danço até o chão mesmo, aliás, amo qualquer tipo de resenha. Sou o tipo de pessoa que acredita que a felicidade pode ser encontrada nos lugares mais simples e crescer em favela me ensinou isso. Por mais que o cenário em que vivo seja marcado por dificuldades, temos que aproveitar ao máximo. Ver o pôr do sol por trás do morro, contemplar o sorriso sincero de uma criança empinando pipa, acompanhar o ritmo da música tocando alto pelas vielas estreitas. Tudo isso faz parte da minha vida desde sempre. Às vezes vou junto com minha mãe ajudar nas suas vendas, mas não é a minha praia, não. Prefiro ajudar ela a preparar os doces durante a noite do que ir vender, não tenho muita paciência para vendas, não. Minha mãe é uma doceira incrível, seus produtos são maravilhosos e ela sonha em ter a própria confeitaria e eu quero muito ajudá-la a conseguir isso. Ultimamente quem tem ido com ela vender no centro do Rio, sempre que dá, é a Amanda, que é mais calma e meiga do que eu, então tem mais paciência para atendimento ao público. Eu conheço tudo onde moramos e praticamente todos os moradores da comunidade. Muitas putianes daqui não gostam de mim e tá tudo certo, eu também não gosto de muitas delas, da maioria, eu diria. Sou de poucos amigos, mas aqueles que têm a minha amizade, têm minha lealdade até o fim. As encaradas e os cochilos das outras garotas deixam claro que sabem do meu relacionamento com o sub e mesmo sendo julgada, sei que elas gostariam de estar no meu lugar. Então o lance é elas ficarem na delas e eu na minha, mas se passarem do limite, o p*u come pra cima delas, não tenho paciência, não. Minha mãe fica louca comigo. Minha vida é um equilíbrio instável entre alegria, adrenalina e perigo. Aqui no portão da escola da Amanda, estou esperando ela sair pois já deu o sinal e logo ela aparece. Hoje eu arrasto ela pra dar uma animada e m*l posso conter a minha empolgação para contar onde iremos. Enquanto eu aguardo na entrada da escola da comunidade, o sol brilha forte, iluminando as cores das casas ao redor e eu observo o fluxo intenso de moradores indo e voltando, que apesar das dificuldades não se deixam abalar. Meus olhos percorrem a pequena multidão de alunos que começam a sair do interior da escola, conversando animadamente, incluindo duas ou três sonsas que não vão com a minha cara. Hoje vou levar Amanda para fazer algo diferente e não vou aceitar que ela diga não, a bichinha tá só existindo desde a morte da mãe dela, não sai, não dá uma distraída nem nada, isso tem que mudar. Percebi que a mesma moto vermelha com letras prateadas já passou por aqui três vezes desde que eu cheguei, certeza que é algum dos soldados e até parece que eu não sei que está a mando de uma certa pessoa me vigiando. Reviro os olhos com esse pensamento e volto para a realidade. Meu celular vibra e tiro do bolso do short. “Tá fazendo o que aí na frente do colégio?” Revirei novamente os olhos e bloqueei a tela do celular sem responder. Eu não disse que o cara da moto era um soldado me vigiando? Estava aqui cuidando o que estou fazendo para relatar tudo. Saio dos meus pensamentos com a voz da Amanda que sai pela porta de metal da escola com sua beleza destacando-se entre as demais alunas. Minha amiga é gata demais. — Agora sim estou me sentindo importante, afinal, minha melhor amiga veio me buscar na escola! — Amanda fala sorrindo, vindo em minha direção. — Claro, uma princesa dessas precisa ser escoltada! — devolvo a zoeira — Até que enfim, hein? É colégio interno isso aí? — Você fala isso porque já terminou o ensino médio, né gatona? Bateu saudade da época do colégio, é? — ela diz rindo. — Deus me livre, tô fora! Abençoado foi o último dia do terceiro ano! — levantei as mão para o alto, em sinal de agradecimento e ela riu. — Na verdade vim até aqui pra te buscar e te levar em um lugar. — abracei ela pelo ombro. — Onde? — ela pergunta, pegando o celular de dentro da mochila azul jeans, cheia de bottons coloridos. — Na parte alta do morro, hoje tem música ao vivo rolando por lá e a gente pode ficar vendo. — Eu hein? Por que eu perderia meu tempo com isso? — Amanda pergunta sem entusiasmo algum. Desde a morte da mãe dela, ela está sempre tristinha e eu faço de tudo pra animar ela. — Amanda, meu amor! Você precisa se distrair, se divertir um pouco. Eu sei que você ainda sente muito por tudo o que aconteceu, e eu também. Mas você precisa seguir em frente, precisa de um up, sabe? Vamos comigo? Vai rolar a gravação do clipe do T5 hoje e eu quero ver ele de pertinho. — Do T5? Aquele T5? — ela pergunta um pouco mais empolgada. T5 é um funkeiro que era morador aqui da comunidade e que está fazendo muito sucesso, e ela gosta muito dele, assim como eu. — Isso mesmo! Gostou né? Vamos? Vai que rola uma fotinho com ele, hein? — Mas como um cara tão famoso como ele vem fazer um clipe aqui? — Hi, Amandinha! Você está por fora mesmo. O T5 é daqui e só foi morar na pista depois que começou a fazer sucesso, provavelmente o empresário dele queria ele mais próximo lá. Mas ele está sempre aqui na comunidade. — Sério? Mas não tem problema a gente ir sem ser convidada? — Amanda pergunta. — Claro que não, esse tipo de evento não precisa de convite, é na frente do público, inclusive vai aparecer alguns moradores no clipe dele, mas só podemos chegar até certa distância! Vai estar lotado de gente lá, vamos! — falei puxando o braço dela — Aliás, o chefe gosta muito desse fortalecimento aí! — Chefe? Fortalecimento? Do que você tá falando, Fabi? — Ai Amanda! Você é um bebê ainda no quesito gírias e macetes da favela porque está sempre trancada em casa, mas isso acabou! Já ouviu a frase “vem comigo que no caminho te explico”? É exatamente isso, eu te explico melhor na subida até lá! — Mas e a Laura? Eu tenho que levar ela pra escola! — Amanda fica dura igual estátua, me fazendo parar também. — Esqueceu que minha mãe não foi vender os doces hoje? Ela vai levar a Laura até a escola e depois vai no atacado comprar os ingredientes para a semana. — Esqueci mesmo! Você pensou em tudo, né? — ela diz e eu apenas rio, beijando meu ombro e vendo que não adiantava tentar recusar o meu convite, ela se deu por vencida. — Mas buscar a Laurinha na escola, eu busco, hein? — diz levantando o dedo indicador. — E como vou ir desse jeito? Eu tô com a camisa do uniforme, vamos em casa para eu trocar de roupa. — Não vamos em casa coisa nenhuma, senão a gente não consegue um bom lugar na gravação. Coloca essa aqui! — falei tirando meu cropped de botões, entregando a ela. Na verdade era uma camisa mais curta, cropped mesmo eu estava usando por baixo da camisa. Ela ficou calada segurando a camisa na mão e me olhando. — Vai logo, Amanda! Troca rapidinho no banheiro da escola antes que tranquem o portão! — balancei a mão para ela ir logo e ela sorriu negando com a cabeça, mas foi se trocar. Logo depois, ela apareceu toda lindinha, mas um pouco tímida, que é o jeito natural dela. — O que foi, Amanda? — Tá um pouco curta essa camisa, Fabi! — Tá nada, você está linda! Até porque você é mais baixa que eu, então em mim fica mais curta ainda! Adoro! — dou risada e ela também. — Mas não tá demais, não? — ela pergunta colocando a mochila nas costas. — Não tá demais, nem de menos, está perfeito! Agora vamos logo que eu quero ficar bem na frente! — puxei o braço dela para irmos assistir a gravação do clipe.
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