Kayra Selik
Acordo com um gemido involuntário. Me sinto tonta e completamente perdida.
A luz do dia invade a cabana pelas frestas da madeira podre, queimando os meus olhos e revelando cada ferida no meu corpo. A cabeça lateja com força brutal, e uma sensação pegajosa escorre por minha nuca. É sangue. Sinto o gosto metálico ao tossir e a garganta arranhando. Eu nunca estive numa situação tão complicada como essa na minha vida e eu preciso achar um jeito de sair daqui.
Tento mover os dedos, e cada centímetro do meu corpo grita de dor. Hematomas, cortes, músculos em espasmo. Eu sei... Ayllin não parou quando desmaiei. Ela continuou me batendo mesmo inconsciente. Uma covarde! Ela aproveitou bem o fato de eu ter ficado presa, porque eu solta, ela jamais conseguiria e ela sabe disso. Eu não tenho mais ninguém e a família para mim já acabou.
Se eu sair daqui, se eu conseguir mesmo e ir para longe, jamais voltarei e vou esquecer que um dia eu fui uma Selik.
As correntes continuam presas aos meus pulsos e tornozelos. A cadeira de ferro já não é mais o que me segura — é a dor, a exaustão, o desespero. O tempo passa lentamente aqui dentro e eu só sei que é dia. Nem sei se é manhã ou tarde. A fome bate forte e a boca só tem gosto de sangue.
— Drogä... como e-eu vou sair daqui? — Eu não vejo nada ao redor.
O tempo passa e passa numa lentidão que me deixa mais fraca. Mas, a porta se abre com um rangido metálico e os meus olhos se apertam diante da claridade. Um soldado entra. É um dos que me prendeu ontem. Ele segura uma chave pequena e, com um gesto brusco, destrava a corrente da cadeira.
Mas, essas correntes ainda ficam nas pernas e nos meus braços.
— Você tem cinco minutos no banheiro ao lado. E comida. Aproveite. — Ele diz, seco, sem me olhar nos olhos.
Tento resistir. O meu orgulho ainda vive, mas a dor... a dor é incontrolável. Eu me arrasto, literalmente, até a porta lateral. Cada passo é uma tortura. As paredes do pequeno banheiro são de pedra bruta, geladas. Me apoio nelas, tentando não desmaiar. O espelho rachado mostra o meu rosto inchado, com sangue seco no couro cabeludo e um roxo imenso ao redor do olho esquerdo. É, ela fez um grande estrago.
Lavo o rosto devagar, engolindo soluços silenciosos. Tudo isso é tão louco pra mim.
Eu sou Kayra Selik. Eu fui Emir Selik. E agora... sou uma prisioneira. A segunda fase começou num piscar de olhos.
Eu me alivio e a bexiga estava em colapso. Ao retornar, sou jogada novamente na cadeira. O mesmo soldado coloca uma bandeja suja diante de mim. Tem um pão seco com gergelim, ovos mexidos e um copo de água.
— Come. A Próxima refeição, só à noite. E é bom estar forte... o seu noivo chega hoje. — Ele diz com um sorriso crüel antes de sair e bater a porta com um estrondo.
O meu estômago se revira. Halit Tokatlı. O monströ. Um homem conhecido por seus crimes, por matar esposas e violentar filhas. Um traficante de mulheres que coleciona corpos como troféus. É com ele que querem me casar? Sinto um nó na garganta e, por um instante, desejo que a comida esteja envenenada. Mas sei que não. Minha irmã quer que eu sofra, quer me ver destruída antes de mortä.
Como num gesto automático, levo a comida à boca. Os ovos estão frios, o pão duro. Mas alivia a dor no estômago vazio. Engulo a raiva junto com cada mordida. Os meus olhos ardem de ódio. Eu jamais vou esquecer isso aqui. Jamais vou esquecer esses machucados, esse sangue, essa prisão e essa humilhação. Vou levar comigo para onde eu for e se eu tiver a graça de me vingar, irei fazer por cada dor que estão me causando agora.
Não custa ainda sonhar.
As horas passam devagar. Tento encontrar alguma forma de escapar. Me estico até quase deslocar o ombro para alcançar um pedaço de madeira quebrada no chão, mas está fora de alcance. Tento puxar a minha mão da corrente, e a pele se abre em sangue, mas ela continua presa. Desisto apenas quando o desespero me enche de náusea. Nada do que eu pense tem jeito. Nada. Eles não facilitam em nada.
O tempo passa até que ouço vozes do lado de fora. Três passos. A porta se abre e vejo que ainda é dia, mas não faço ideia de que horas são.
Dois homens entram. Altos, armados, frios e eles param. E atrás deles... ele.
Halit Tokatlı.
O sangue gela nas minhas veias. Ele tem cerca de cinquenta anos, rosto duro, olhos escuros como carvão. Usa um terno escuro e gravata vermelha. Está perfeitamente arrumado, mas há algo podre em sua presença. Algo violento. Ele exala perigo, ele é a prórpia mortë e eu jamais queria estar diante desse homem.
— Levante a cabeça. — Ele ordena, com voz firme e áspera.
Obedeço devagar. Os nossos olhos se cruzam. Ele me observa com desprezo e interesse. Um caçador avaliando a presa.
— Fraca demais... está muito machucada. Mas ainda útil — Ele murmura, se abaixando até ficar na minha altura. — Vai servir.
— Eu nunca vou me casar com você. — A minha voz sai trêmula, mas firme. — Prefiro morrer.
Ele sorri, como se tivesse ouvido uma piada e rir bem na minha cara.
— Vai casar, sim. De hoje para amanhã, à meia-noite. Já está tudo preparado. — Ele me olha toda. — O seu corpo é propriedade minha agora. E se não me der um filho em um ano... vai desaparecer na calada da noite como todas as outras. — Ele segura o meu queixo com força e me obriga a abrir a boca. — Tem dentes fortes. É saudável... ótimo. — Ele me solta com um empurrão.
Me afasto com um gemido contido. Os homens atrás dele não reagem. São acostumados a ver esse tipo de cena.
— Estou indo cuidar dos preparativos. Volto à noite para buscar a minha noiva. — Ele se vira e caminha até a porta, antes de lançar um último olhar. — Durma bem e descanse enquanto pode. Vai precisar de forças, minha jovem!
A porta se fecha. É trancada novamente na maior brutalidade.
Desabo no chão. Encolhida. Respirando com dificuldade e as lágrimas escorrem, mas não é de medo. É raiva. Ódio. Como Ayllin foi tão estúpida? Halit não quer só o meu corpo. Ele quer o nome Selik. Quer usar o meu sangue contra o conselho. Me fazer de peça em uma guerra e então me destruir. Se esse casamento acontecer, ele pode tomar o poder. Controlar tudo. Se esse casamento ocorrer, ele pode usar o exército dele e invadir tudo na mansão principal. Ele pode aniquilar o conselho privado já que terá a filha mais velha.
E ninguém vê isso? Que tipo de acordo eles fizeram?
Não. Não vou deixar. Eu prefiro morrer do que ser usada desse jeito. Se houver uma chance... um erro... uma fresta de fraqueza. Eu vou escapar. Eu vou matar cada um deles. Eu já consigo ver todos eles sangrando diante de mim, cada um deles no chão e eu mostrando a minha força. Eu fui bem treinada pelo meu pai e não posso deixar tudo em vão.
Os meus olhos se fixam nas correntes. No teto. No chão. No cadeado. Alguma saída. Alguma ideia. Os meus músculos estão fracos, mas minha mente, não. Ainda não. Eu ainda tenho a minha mente e preciso usar isso a meu favor antes da meia noite. Tenho que fugir antes daquele homem voltar outra vez.
Pensa Kayra... pensa...