O preço é mais alto ainda?

1218 Words
Kayra Selik Ela entra devagar, como se saboreasse o momento. O salto ecoa crüel no chão de madeira e ela pisa com gosto. Ela praticamente desfila na minha frente. Como se pisasse nas nuvens e o sorriso transborda veneno. Como pode sermos irmãs, mas sermos tão diferentes? Não temos nada parecido. — Olhe para você, Kayra. Tão... patética. — Ela solta uma risada baixa. — O grande Emir Selik, reduzido a uma aberração de mulher acorrentada... isso foi um clássico que nem se vê nos filmes. Eu jamais esperei que fosse de derrubar desse jeito... eu estou amando isso tudo. — Se veio para me insultar, poupe a sua saliva. — Rosno contra ela. — Você foi mais baixa do que pensei. — Ah, não. Eu vim para comemorar mesmo. — Ela junta as mãos em frente ao rosto e puxa o ar. — Finalmente, Kayra, você está exatamente onde merece estar... e ainda vem mais. — Ela comemora. Ela se aproxima mais. Os olhos dela brilham com algo entre satisfação e loucura. Ela é doente, só pode. — Eu sempre soube que você não era melhor do que eu. Mas papai... oh, papai. Ele te tratava como uma rainha e nunca entendi o motivo. E eu? Uma boneca esquecida num canto... bem numa prateleira empoeirada. — Ela começa com as loucuras dela. — Eu não sei o que ele viu em você... eu sempre fui mais doce e mais bonita. Mais refinada, com classe e presença. Como pode? — Papai tentou te incluir. Era você que se fechava. — Ele negä. Ela estala a língua e se mostra divertida. — Não se atreva a justificar o que ele fez. Eu era invisível... sempre foi assim. Enquanto você aprendia a lutar, saia com ele, fazia viagens, aprendi o sistema e mais, eu aprendi mais dos segredos das coisas. Eu era enfiada em salões para aprender a sentar direito, a servir vinho, a sorrir mesmo sangrando, a me calar mesmo quando eu queria dar apenas uma breve sugestão... — Ela cuspe as palavras. — Ninguém nunca se importou! Você esfregava na minha cara que era a favorita... a filha mais forte, a mais esperta e a mais honrada. Andava por todos os lados ao lado dele como se fosse a única. — Eu não pedi nada disso. — Digo. — Mas teve tudo. — Ela quase grita. — E eu? Eu passei a odiar cada olhar dele para você. Cada elogio. Cada vez que ele falava "minha herdeira" e me deixava no canto. Eu nunca era mencionada e eu também era filha dele! — Ela grita. — Ele nunca chegou pra mim nem pra perguntar se eu estava bem... se eu queria algo. A boca dele sempre foi você... Ela se agacha na minha frente, ficando com o rosto próximo ao meu. — Eu jurei que um dia você cairia. Eu esperei tanto... pensei tanto e tive muitas frustrações, mas esse dia chegou... finalmente! — Ela sorrir largo. — Se é pra ser sozinha agora, eu fico com gosto. — Ela realmente enlouqueceu ou foi muito paciente para esperar esse momento. Não sei ao certo a minha opinião ainda. Estou fraca demais para pensar em detalhes. — Então me matä logo. Poupe o seu teatrinho... vai em frente! — Eu a incentivo. — Não é isso que quer? Ser a única? Ayllin nunca pegou numa arma, então até o momento eu não tenho tanto temor. — Matär? — Ela ri. — Não, irmã. O que eu tenho planejado é muito pior... mörte é fácil demais e eu quero sentir esse gosto por muito tempo. — O que você vai fazer? Ela levanta, ajeitando o vestido e os cabelos. — Amanhã à noite, você vai se casar... com Halit Tokatlı. — O meu coração afunda. Isso só pode ser uma piada. Uma piada de muito mäl gosto. Ela não pode fazer isso. Jamais! — Não! Não, não, não... você não ousaria! — Eu não posso nem ver esse homem. — Eu te dei um bom casamento... — f**a-së! Eu não pedi nada e foi contra a minha vontade. — Ela é pior do que pensei. — E voltando a você... ele quer uma mulher obediente. E você precisa sumir daqui. — Ela dá de ombros. — Halit vai garantir isso... com ou sem você querendo. E ele já aceitou.— Ela realmente me odeia com todas as forças. Halit é um homem mais velho de praticamente cinquenta anos que tem um longo histórico de barbaridades. Ele comada outros negócios, o grupo dele, apesar de ter negócios com a gente, ele é envolvido em escândalos. Ele matou as três esposas que teve e cada filha que nasceu, foram violentadäs e mortäs. Ele é metido com tráfico humano e realiza todo o tipo de crüeldade. Todo o território ao norte que ele comanda é um campo de barbaridades e crüeldades. Ele não tem pena de nada, odeia as mulheres e tudo ao redor. Ele aprecia a dor e o sofrimento e eu lembro do meu pai falando dele. Já tentaram lhe mätar e isso lhe custou uma cicatriz enorme no rosto, mas ninguém consegue esse feito. Ele é um louco. Nenhuma mulher fica viva com ele e o tempo que fica, é para sangrar até a mortë. Já não se sabe quantas morreram nas mãos dele. E eu nem quero saber. — Você... v-você enlouqueceu! — É a única resposta. — Ele é a solução perfeita. Longe do nosso círculo, sem rastros e eu não sujo as minhas mãos. E você? Vai cumprir esse papel pela primeira vez: o de mulher submissa. — Ela sussurra se divertindo. — E você precisa se casar, Kayra... é uma mulher que já passou da idade do nosso normal. E agora eu me pergunto... do que adiantou aprender tanto sobre treinos, armas e lutas? Nada! — Eu prefiro apodrecer nesta cadeira... Ela se aproxima mais, com fúria nos olhos. — Você não manda em nada! — Ela puxa o meu cabelo curto com força, fazendo a minha cabeça pender para trás. — Entendeu? Nada! A partir de hoje, eu dou as ordens e o meu marido será apenas um símbolo... eu sei bem convencê-lo de tudo. Eu tenho o poder agora... e você não tem nenhum. Sinto a primeira bofetada no rosto. É rápida e seca. A dor arde, mas eu permaneço firme. Ela me soca. Uma, duas vezes. O canto da minha boca rasga. O gosto de sangue é familiar. Assim é fácil ela me atacar por eu estar presa. Se eu estivesse solta, ela não fiaria em pé nem por cinco segundos. — Cada tapa é por cada noite que eu dormi chorando, ouvindo nosso pai dizer que você era especial. Cada soco é por cada olhar que ele nunca me deu! — Ela range os dentes. — Isso não justifica nada, Aylin. — Digo, cuspindo sangue. — Não é culpa minha. — Mas você vai pagar do mesmo jeito... Ela pega algo do chão. Um pedaço de madeira, talvez. Antes que eu possa reagir, ela me acerta na cabeça com força. A dor é cortante. Uma explosão branca preenche a minha visão. O som é abafado e tudo gira. E então, a escuridão me engole e não consigo mais lutar.
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