DARÁ NARRANDO
Ser mãe nunca foi fácil, mas ter o Mauro ao meu lado sempre fez tudo parecer possível. Juntos, criamos três filhos: o Guilherme, a Maju e a Lara. Cada um deles é um pedaço de nós, cada um carrega um pouco do nosso amor e da nossa luta. Sempre acreditei que, mesmo com as dificuldades, com a correria do dia a dia e a vida dura que a gente levava, daríamos conta de formar pessoas boas.
E demos. Pelo menos até a vida mostrar que a gente não tem controle de tudo.
O dia em que o Gui foi preso foi o dia em que minha vida desmoronou. A cena nunca sai da minha cabeça: a notícia chegando, a revolta no peito, o desespero estampado no olhar do Mauro, que tentava parecer forte, mas tremia por dentro. Não era só o meu filho sendo levado, era a minha família inteira sendo arrastada com ele.
A Maju desabou. Minha menina, que sempre foi tão sonhadora, tão dedicada, se fechou num mundo de dor. Passava horas trancada no quarto, chorava escondido, perdeu aquele brilho que sempre iluminou nossa casa. Foi como se, junto do irmão, ela tivesse sido algemada também.
E a Lara… ah, a Lara. Com 17 anos, não dava pra esconder nada dela. Ela entendeu cada detalhe, cada notícia, cada olhar trocado em silêncio entre mim e o Mauro. Não era mais uma criança que se distraía facilmente; ela sabia o peso do que estava acontecendo. Vi minha filha mais nova amadurecer à força, engolir a revolta, engolir as lágrimas, e tentar ser firme para não me dar mais trabalho. Mas eu sei: toda vez que ela batia a porta do quarto, era pra chorar baixinho.
O Mauro se esforçava pra manter a casa de pé. Trabalhava dobrado, mas no silêncio dele eu sentia a culpa. Eu também carregava a minha. A gente sempre acreditou no Gui, sempre demos liberdade porque confiávamos. Ele nunca bebeu, nunca usou d***a, nunca foi de arrumar confusão. Então deixávamos ele ir pros bailes, pros rolês, porque acreditávamos que ele sabia se cuidar. E acreditar nos filhos não deveria ser um erro. Mas, no fim, o mundo lá fora foi c***l. E, quando percebi, meu menino, que só queria um dinheiro a mais, estava atrás das grades.
As cartas dele sempre chegavam cheias de saudade e preocupação. O Gui não falava muito de si; falava da gente, principalmente da Maju. Perguntava se ela estava estudando, se estava feliz, se tinha amigos. Eu lia aquilo com o coração apertado. Como contar a verdade? Como dizer que a irmã estava cada vez mais apagada, que eu não via sorriso sincero nela desde o dia da prisão?
Foram dois anos de luta silenciosa. Dois anos de dor dividida entre quatro paredes. Dois anos de ver minhas filhas reagirem de jeitos diferentes à ausência do irmão: Maju se fechando cada vez mais, e Lara tentando fingir uma força que eu sabia que ela não tinha.
Até que, devagarinho, algo mudou.
A Maju começou a renascer. Primeiro em passos pequenos: voltando a se arrumar pra sair, voltando a estudar com gosto. Depois em passos largos: entrou na faculdade, começou a se animar com as aulas, fez novas amizades. E foi aí que um nome começou a aparecer na nossa rotina: Clara.
No começo, confesso que achei que fosse só mais uma colega. Mas o jeito como a Maju falava dela era diferente. Era nos detalhes, no cuidado nas palavras, no brilho nos olhos que eu não via há tanto tempo. Clara não era só uma amiga. Clara estava sendo essencial para devolver a vida à minha filha.
E eu agradeço a Deus todos os dias por isso. Porque ver a Maju sorrir de novo, depois de dois anos mergulhada numa dor silenciosa, foi como respirar depois de muito tempo sufocada.
Clara não trouxe só a alegria da Maju de volta. Trouxe esperança pra mim, pro Mauro e até pra Lara, que também precisava acreditar que nossa família ainda podia ser feliz, apesar de tudo.
E é por isso que digo, em voz alta e com todo o coração: obrigada, Clara. Você não faz ideia do bem que trouxe pra dentro da minha casa.
Eu nunca vou esquecer a primeira vez que percebi a mudança real na Maju. Foi uma sexta-feira qualquer. Ela chegou da faculdade com os livros debaixo do braço e um sorriso no rosto. Não era aquele sorriso forçado que eu já tinha visto algumas vezes, só pra me enganar. Era um sorriso leve, verdadeiro, que iluminava o olhar dela.
Ela entrou pela cozinha falando sem parar, contando que tinha se atrapalhado num trabalho, mas que a Clara tinha ajudado, que as duas tinham passado a tarde na biblioteca. Enquanto ela falava, gesticulava, ria, eu fiquei parada, só observando. Era a minha menina voltando. Era como se eu tivesse viajado dois anos no tempo e reencontrado a filha que eu pensava ter perdido.
O Mauro chegou do trabalho nesse mesmo dia, cansado, mas eu não aguentei e falei:
— Você reparou na Maju? Ela tá diferente. Tá viva de novo.
Ele olhou pra filha, que ainda estava animada, e apenas assentiu, com aquele sorriso discreto que ele sempre dava quando estava emocionado demais pra falar. Depois, quando ela subiu pro quarto, ele me abraçou e sussurrou:
— Fazia tempo que eu não via esse brilho nela. Seja quem for essa Clara, ela fez um milagre.
E eu concordei.
Com o passar das semanas, fui notando outras coisas. Maju passou a se arrumar mais. Não era por vaidade, eu conhecia minha filha. Era por gosto de viver, por querer estar bem. Começou a cozinhar coisas novas, às vezes falava: “Aprendi isso com a Clara, vou testar aqui em casa”. Eu e o Mauro trocávamos olhares cúmplices, porque sabíamos que aquele era o tipo de detalhe que só quem realmente importa inspira.
E a Lara também sentiu a diferença. Uma noite, estávamos na sala, só nós duas, e ela falou, meio sem jeito:
— Mãe, a Maju tá feliz, né? Fazia tempo que eu não via ela desse jeito.
Meus olhos encheram de lágrimas na hora, porque ver minhas duas filhas retomando a leveza era como sentir meu coração cicatrizar.
— Tá sim, filha. E você também merece estar.
Ela sorriu, um sorriso misto de alívio e esperança. A Lara carregava uma maturidade que não era pra idade dela. Eu sabia o quanto ela tinha sofrido calada com a prisão do irmão, tentando ser forte pra não me sobrecarregar. Ver a irmã renascer era também um peso a menos sobre os ombros dela.
E foi aí que eu percebi o quanto a presença da Clara não estava mudando só a vida da Maju. Estava mudando a vida de todos nós.
As cartas do Gui sempre vinham cheias de perguntas sobre a irmã. “Ela tá estudando?” “Ela tá saindo mais?” “Ela tá feliz?” Eu respondia com cuidado, sempre tentando passar esperança. Mas, nos últimos tempos, já não era mais preciso forçar palavras bonitas. Eu podia dizer com sinceridade:
— Sua irmã tá sorrindo, Gui. Tá se levantando de novo.
E eu sei que, no fundo, ele ficava em paz. Porque o que mais doía nele não era a prisão em si, mas a dor que isso tinha causado à Maju. Ele sempre foi um irmão protetor, desses que brigam, implicam, mas que no fundo dariam a vida pela irmã.
Eu lembro de uma carta em especial, em que ele escreveu:
“Se algum dia ela voltar a sorrir, me avisa. Porque é só isso que eu quero saber daqui de dentro.”
Naquele dia, chorei a madrugada inteira. E agora, vendo a Maju se reconstruindo, eu tenho vontade de escrever de volta com letras garrafais: “Ela voltou a sorrir, Gui. Ela voltou.”
O Mauro, apesar de calado, também vivia repetindo o quanto estava agradecido. Às vezes, sentado na varanda depois de um dia exaustivo, ele soltava:
— A Clara é uma bênção, Dara. Deus colocou essa menina na vida da Maju na hora certa.
E eu acreditava nisso com todas as minhas forças.
Não era só amizade, não era só companhia. Era algo maior: Clara trouxe luz, trouxe sentido, trouxe esperança. E, sem perceber, trouxe paz também pra dentro da nossa casa.