CLARA NARRANDO
Quando o Guilherme começou a falar de verdade, deu pra sentir que ali não era só brincadeira. Ele entrou num assunto mais sério, com aquele tom de quem ainda tá digerindo tudo o que viveu.
Ele contou que, quando estava lá dentro, todos os dias ele se pegava pensando a mesma coisa: “mano, quando eu vou sair daqui? quando vai ser o último dia que eu vou passar por isso?”
E o pior era que, segundo ele, todo dia parecia o último. Todo dia ele criava aquela esperança de que alguém ia chamar o nome dele, que alguém ia avisar que era a vez dele ir embora. E quase nunca era.
Ele falou que isso foi a pior coisa que ele fez consigo mesmo: criar expectativa demais. Criar esperança demais. Porque quando não acontecia, a frustração vinha pesada. Era como se ele tivesse que se levantar do chão todos os dias.
A mãe dele ouviu tudo com atenção e discordou em parte. Disse que era importante ele nunca ter se conformado com aquela situação. Que o fato de ele ter se revoltado, de não aceitar aquilo como normal, foi o que fez ele não querer mais voltar pra aquele caminho.
— Se você tivesse se acostumado com aquilo, talvez hoje ainda estivesse lá — ela disse.
O Guilherme riu e respondeu, cheio de convicção:
— Você é louca, coroa. Nunca mais. Agora eu vou trabalhar. Agora eu vou deixar essa família rica, igual a Clara.
Eu ri e falei na hora:
— Mano, eu não sou rica não menino.
Ele apontou pra mãe e falou, todo sério:
— Mas agora vocês vão ter o provedor da família.
Como o pai dele não estava ali naquele momento, a mãe logo respondeu:
— Quero ver teu pai ouvir isso.
Ele não pensou duas vezes:
— Eu que vou bancar o meu coroa. Meu coroa vai andar só nos kit.
Aquilo me fez rir, mas também deu pra sentir o orgulho que ele carregava. Ele falava brincando, mas tinha verdade ali. Tinha vontade de fazer diferente.
Depois disso, a gente subiu lá pra cima. O churrasco já tava rolando solto. Música alta, gente rindo, conversa atravessada, carne passando de mão em mão. Não era só festa. Era comemoração, era alívio, era família junta.
Eu, como sempre, fiquei mais quieta no começo. Sou tímida, gosto de observar. Mas eu falo muito, né? Então bastou alguém puxar conversa que eu já tava ali, falando sem parar.
Comecei conversando com uma tia dele. Gente, sem exagero nenhum, a gente ficou umas duas horas conversando. Sobre a vida, família, escolhas, erros, sonhos. Eu sentei num banco, peguei farofa com carne, comecei a comer e falar. Quando percebi, já tava completamente envolvida na conversa.
Depois eu tava conversando com a avó. Logo em seguida, brincando com uma criança. Daqui a pouco, abraçando a mãe dele. E ela falava que me amava toda hora. Minha amiga também. Era “te amo” pra lá, “te amo” pra cá.
Eu não sei explicar o quanto aquela família é carinhosa. Eles tratam todo mundo com tanto respeito, educação e acolhimento. Fazem questão de te deixar confortável, de te fazer sentir parte dali. Desde a primeira vez que eu fui naquela casa, sempre foi assim.
Nesse dia, eu quase não tive contato com o Guilherme. Ele tinha acabado de chegar, então toda a atenção tava voltada pra ele. Abraços, conversas, emoção. A gente trocou poucas palavras depois daquele primeiro momento. Nunca ficamos conversando sozinhos.
Quando eu vi o horário, já era mais de duas da manhã. Na verdade, quase três. Eu já tava morta de sono.
Eu falei pra minha amiga que eu já tava caindo de sono. Que queria mandar mensagem pro meu pai, ligar pra ele pra ver se ele ainda tava acordado, só pra falar que eu tava bem. Ela super entendeu. Disse que eu podia descer e dormir, que mais ou menos umas três e meia da manhã ela desceria também. Ela só não ia naquele momento porque a mãe dela ainda tava lá em cima, e ela queria esperar.
Pra mim, tudo bem. Eles estavam comemorando, eu tinha acordado cedo pra ir pra faculdade, meu corpo já tava pedindo arrego. Ela desceu comigo, arrumou a cama, deixou tudo certinho. Depois disso, eu liguei pro meu pai. Ele já tava dormindo, mas acordou quando o telefone tocou.
Contei que eu tava na casa da minha amiga, que tava rolando um churrasco, uma festa. Não falei da parte do irmão, claro. Eu nem sabia como meu pai ia reagir, nunca tinha comentado isso com ele. Falei só o básico, até inventei que era aniversário da irmã dela. Ele ficou tranquilo, desejou boa noite, e eu desliguei.
Deitei. Finalmente.
Eu tava mexendo no celular, quase dormindo, quando alguém bateu na porta.
— Quem é? — perguntei.
— Guilherme.
Na hora eu estranhei.
— Oi… a Maju tá aí? — ele perguntou.
Eu levantei da cama, abri a porta um pouquinho e falei:
— A Maju tá lá em cima.
— Minha mãe mandou chamar ela. Você sabe se ela tá no banheiro?
— Deve tá.
Ele foi até o banheiro e bateu na porta.
— Ô, Maju.
— Oi.
— Minha mãe tá te procurando. Tu sumiu.
— Tô cagando.
Gente… eu quase engasguei de tanto rir.
— Ave Maria, ave Maria… — ele falou. — Todo mundo te procurando, achando que tu veio dormir, a gente colocou música lá pra tu dançar que tu gosta, e tu tá cagando? É, sua p***a.
— Me deixa cagar em paz, pelo amor de Deus — ela respondeu.
Eu tava parada na porta do quarto, ele na porta do banheiro, e os dois discutindo aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo. Eu só fiquei ali, rindo baixinho, tentando não fazer barulho.
Depois disso, ele saiu do banheiro rindo, passou pela porta do quarto e falou:
— Semana que vem ela vai pro baile. Quer ir pro baile amanhã?
Ele acendeu a luz do quarto.
Eu arregalei o olho.
— Não — falei na hora. — Eu tenho muito medo disso.
Ele riu.
— Dorme aqui amanhã então, que amanhã tu vai conhecer o quê é bom.