Capítulo 14

890 Words
CLARA NARRANDO Aí, como se não bastasse o vestido, a maquiagem e toda a transformação forçada, ela ainda resolveu colocar um tênis búfalos em mim. Mas não era qualquer búfalo, não. Era aqueles grandes, pesados, chamativos, que balançam só de você respirar. Quando eu me vi no espelho com aquilo tudo, eu arregalei o olho. — Mulher do céu… — falei, quase num sussurro desesperado. — Tu tá me vestindo igual você anda, só que… em mim não sobe não. Ela começou a rir, daquela risada debochada dela, como se eu tivesse falado a coisa mais absurda do mundo. — Cala a boca, Clara. Em mim fica bonito, em você vai ficar um espetáculo. Confia. — Mas em você faz sentido, amiga. Você nasceu pronta pra isso. Eu não. Eu nasci pra tênis, mochila e cara de quem tá indo pra aula. — Hoje não — ela respondeu, já me puxando pra frente do espelho. — Hoje você vai sair arrumada na favela. Hoje é dia de foto, de rir, de viver. Para de drama. Eu ainda tentei argumentar, mas no fundo eu sabia: quando a Maju cisma, não tem discussão. Coloquei os búfalos, ela deu os últimos retoques na maquiagem, passou um brilho, ajeitou meu cabelo e deu aquele sorriso satisfeito, como quem diz “missão cumprida”. Quando eu finalmente saí do quarto, foi tudo muito rápido. O quarto dela ficava num ponto da casa que dava pra ver praticamente tudo. Sala, corredor, entrada… parecia um palco. E justo nesse momento, como se fosse coisa de filme, o irmão dela estava entrando pela porta. Ele entrou andando tranquilo, como se fosse só mais um movimento normal do dia, mas na hora que levantou o rosto e me viu parado ali, todo arrumada, ele parou por meio segundo e soltou, bem natural: — Eita… que gatas! Pronto. Foi ali que eu travo. Eu não sei receber elogio. Nunca soube. Quando alguém fala alguma coisa boa de mim, meu cérebro simplesmente entra em curto. Eu não consigo falar “obrigada” como uma pessoa normal. Eu começo a justificar, minimizar, explicar. Tipo: “Ah, não é nada não…” “É só porque eu arrumei o cabelo…” “Essa roupa aqui foi baratinha…” “Nem tô tudo isso…” Então quando ele falou aquilo, eu só senti meu rosto pegar fogo. Fiquei vermelha, sem saber onde enfiar a cara. Eu pensei: ele falou gatas… então inclui eu. E isso me deixou mais sem graça ainda. Ele falou, passou, continuou andando. Mas eu fiquei ali, parada, tentando fingir normalidade enquanto meu coração batia descompassado só pela vergonha. A Maju, como se nada tivesse acontecido, virou pra mim: — Amiga, quer um refri? Eu falei que sim, claro, qualquer coisa pra sair daquele foco. Ela foi em direção à cozinha e me deixou sozinha na sala. A casa era dessas de cozinha americana, então dava pra ver tudo. Eu fiquei ali, encostada num balcãozinho, meio dura, sem saber o que fazer com as mãos, esperando ela pegar o refrigerante. Foi aí que ele encostou do meu lado. Não colou, não chegou perto demais, mas chegou o suficiente pra eu perceber a presença. Ele olhou pra mim e soltou, do nada: — Vamos pro baile hoje? Eu virei o rosto na hora, confusa. — Quê? — Pro baile — ele repetiu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Já fui pro baile? Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, a mãe dele já entrou na conversa, lá da cozinha mesmo: — Não, Gui. Não vai pra baile nenhum, não. Chegou hoje e já tá querendo causar? Não, não, não. Ele bufou. — Ô, B, deixa nós ir pro baile. Deixa eu mostrar o que é bom aqui pra menina. Meu Deus do céu. Eu já me encolhi toda. — Não, melhor não — falei rápido, tentando encerrar o assunto. Mas a Maju, traíra, entrou na pilha: — Vamos, vamos pro baile! Eu olhei pra cara dela, incrédula. — Não, amiga. Não vou. Você me chamou pra dormir aqui, não pra sair. E se eu pedir pro meu pai, eu sei que ele não vai deixar. Ele riu. — Tu tem que pedir pro teu papai? Que princesa… Aquilo me deu um estalo de raiva. Eu virei na hora. — Sim, tenho. Ele que me sustenta. Ele me olhou diferente, mais sério. — Não, então eu entendo. Seu pai é firmeza. — Meu pai é o melhor pai do mundo da vida — falei, com convicção. Ele assentiu. — Então tá certo. Mas vamo escondido… — Não vou — falei firme. — Não adianta. A mãe dele já reforçou: — Isso mesmo, não vai. Não vai ninguém. Você chegou hoje e já tá dando trabalho demais, Guilherme. Ele fez cara de tédio. — Ah, que saco… Aí eu não aguentei e soltei: — Tem que pedir permissão pra mamãezinha. Ele riu. — Não, tem que respeitar a coroa, né? A coroa falou não. Ela só tacou um pano de prato nele. — Tô brincando! — ele falou, rindo. E eu fiquei ali, encostada no balcão, com o coração ainda acelerado, morrendo de vergonha, mas ao mesmo tempo rindo por dentro daquele caos todo. Porque, sem perceber, eu já tava completamente dentro daquela casa, daquela bagunça e daquela história.
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