Capítulo 13

1113 Words
MAJU NARRANDO A Maju olhou pra mim sentada na cama, ainda toda sem graça, e bateu palmas como se tivesse decidido algo muito sério. — Vamos escolher uma roupa pra você. Na mesma hora eu já senti o perigo. Conhecendo a peça, sabia que aquilo não ia terminar bem. Ela foi direto no guarda-roupa, puxando cabide atrás de cabide, jogando roupa em cima da cama como se tivesse montando um desfile. Eu só observava, tentando adivinhar qual seria a sentença final. Aí ela parou. Segurou um vestido na mão. E quando eu vi… meu Deus do céu. — Amiga… — comecei, já desconfiada. Era um vestido vermelho, daqueles bem colados no corpo, com um tecido meio diferente, tipo com um ferrinho que moldava tudo. Curto. Curto num nível que eu nunca tinha usado na vida. Da marca Tyson Venta. — Põe esse — ela disse, simples, como se tivesse mandando eu vestir uma camiseta básica. Eu arregalei o olho. — Não, Maju. Não. Nem pensar. — balancei a cabeça com convicção. — Isso aí não tem nada a ver comigo. Ela me olhou de cima a baixo, cruzou os braços e fez aquela cara de quem já decidiu tudo. — Tem sim. — Amiga, isso é muito curto — falei, quase rindo de nervoso. — Muito colado. Não vou pôr não. — Vai pôr sim — ela respondeu, já me empurrando o vestido. — Porque tu vai ficar linda. — Maju, pelo amor de Deus… — Linda, Clara. Linda. — ela repetiu, como se aquilo resolvesse tudo. — E ó, não é só isso não. Hoje vai vir mais gente da família, vai ter mais churrasco ainda. Hoje é dia de comemorar. Hoje vai ser só a batida. Eu suspirei. Ela continuou falando, toda empolgada, andando de um lado pro outro do quarto: — Então se arruma bem, gata. A gente vai tirar foto, vai postar, vai rir, vai fazer tudo. Confia em mim. Eu olhei pro vestido de novo. Depois olhei pra ela. Depois pro vestido. — Tá bom… — falei, derrotada. — Mas se eu passar vergonha, a culpa é sua. Ela abriu um sorriso vitorioso. — Sempre foi. Peguei o vestido e fui me trocar. Quando coloquei… meu Deus. Gente, vocês não têm noção. Era curto. Muito curto. Colado. Colado de um jeito que eu nunca tinha usado. Eu me olhei no espelho e fiquei parada uns segundos, tentando reconhecer quem era aquela menina. — Maju… — falei, saindo devagar. — Isso aqui tá muito piriguete. Ela me olhou e abriu a boca. — Clara… — ela respirou fundo. — Tu tá linda pra c*****o. — Para! — falei, colocando a mão no vestido, tentando puxar pra baixo, como se isso fosse resolver alguma coisa. — Para você. — ela riu. — Tu tá maravilhosa. É isso. Hoje você não é a Clara da faculdade. Hoje você é a Clara do churrasco. Eu ri, nervosa. — Eu nunca me vesti assim na vida. — Sempre tem uma primeira vez, né? — ela respondeu, piscando. Como se não bastasse o vestido, ela ainda puxou a cadeira e começou a me maquiar. — Mas eu nem uso maquiagem assim… — tentei argumentar. — Hoje vai usar — ela disse, concentrada. — Confia. Passou base, um pouco de blush, máscara de cílios, um batom que eu jamais escolheria sozinha. Eu me sentia em outro universo. — Pronto — ela falou, se afastando. — Agora sim. Eu me olhei no espelho de novo. Era eu… mas não era. Era a mesma Clara, só que com uma coragem que eu não sabia que tinha. — Tu vai ficar bem arrumada na favela — ela disse, toda orgulhosa. Antes que eu pudesse responder, a mãe dela apareceu na porta do quarto, analisando a cena. — Ué… — ela falou, olhando pra mim de cima a baixo. — Como que é o nome daquelas meninas mesmo? Eu pensei rápido. — Mandraka? Ela bateu palma e riu. — Isso! Hoje a patricinha tá mandraka. Hoje a patricinha tá favelada. Pronto. Aí eu fiquei com tanta vergonha que não sabia se ria ou se sumia. — Meu Deus do céu… — murmurei. A Maju quase caiu de tanto rir. — Viu? Eu falei que tu ia arrasar. Eu balancei a cabeça, ainda tentando processar tudo. Ela realmente tava me transformando. Não só na roupa, na maquiagem, mas no jeito de estar ali, naquele lugar, naquela casa cheia de gente, riso e barulho. Era estranho. Era assustador. Mas também… era libertador. Ela terminou de me arrumar, me olhou com orgulho e falou: — Pronto. Agora sim. Hoje você é nossa. E eu fiquei ali parada por alguns segundos, ainda meio chocada, tentando entender em que momento tudo tinha mudado tão rápido. Parecia que tinha passado um furacão por cima de mim: a faculdade, o susto da rua cheia, o churrasco, o abraço, o vestido vermelho, a maquiagem, as risadas. Tudo junto, misturado, sem aviso. Aí eu pensei, quase rindo sozinha: “Se alguém me visse agora, nunca ia imaginar que eu era a mesma menina tímida que chegou aqui achando que era um baile.” Aquela Clara que desceu do Uber toda certinha, com roupa de faculdade, mochila nas costas e mil pensamentos na cabeça, não parecia ter nada a ver com a menina que eu via no espelho agora. Eu ainda era eu, claro, mas tinha alguma coisa diferente. Talvez fosse a coragem emprestada da Maju. Talvez fosse o clima da casa, cheia de gente, de barulho, de vida. Ou talvez fosse só o fato de eu ter parado, por alguns minutos, de me preocupar tanto com o que iam pensar. Eu senti vergonha, muita. Vergonha do vestido curto, da maquiagem que eu não costumava usar, dos comentários, dos olhares curiosos. Vergonha até de mim mesma, por estar ali, fora da minha zona de conforto. Mas, junto com essa vergonha, vinha uma sensação estranha e boa, quase como um frio na barriga misturado com riso preso na garganta. Eu percebi que ninguém ali estava me julgando de verdade. Eles estavam vivendo, comemorando, rindo alto, falando alto, sendo do jeito que eram. E, de algum jeito, me incluíram nisso tudo sem nem pedir licença. Eu sorri. Um sorriso meio tímido ainda, meio sem saber onde colocar as mãos, mas sincero. Não era um sorriso de quem estava completamente à vontade, era o sorriso de quem estava aprendendo a ficar. No fundo, bem lá no fundo, eu sabia: eu tava me divertindo. Me divertindo por estar ali, por ter aceitado, por ter deixado a vida me puxar pelo braço naquela sexta-feira que era pra ser comum e virou tudo, menos isso.
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