Capítulo 12

1187 Words
CLARA NARRANDO Eu comecei a comer com eles, mesmo já tendo comido no shopping. Vai explicar pra Maju que eu tava satisfeita? Ela e a mãe dela pareciam em missão de me fazer experimentar tudo da churrasqueira. E, sinceramente, impossível resistir. O cheiro de carne, de farofa e de refri gelado misturado com música boa… não tinha como dizer não. A casa tava cheia, o som vinha da rua, gente conversando, rindo, criança correndo. Era aquele tipo de barulho que parece confusão, mas no fundo é só alegria. E eu ali, meio tímida, meio perdida, mas feliz de ver todo mundo tão animado — principalmente a Maju. Ela não parava de sorrir desde a hora que eu cheguei. Depois de um tempo, o Gui desceu pra ficar com os amigos dele. A casa ficou um pouco mais calma, só o barulho das panelas e o cheiro de churrasco ainda vindo da laje. A Maju virou pra mim, com aquele jeitinho pidão que eu nunca conseguia negar. — Amiga, você quer dormir aqui hoje? — perguntou, com os olhos brilhando. — Tá tendo churrasco, a gente tá comemorando, dorme aqui. Amanhã é sábado, a gente não vai pra faculdade. Meu sonho é você dormir aqui, então dorme, vai? Eu olhei pra ela e ri. — Tá bom, amiga. Mas eu vou ligar pro meu pai, tá? Só que… eu não trouxe roupa. Só tenho meu material da faculdade. Se quiser, eu vou comprar alguma coisa rapidinho. Ela fez uma cara indignada. — Comprar roupa, Clara? Pelo amor de Deus, mulher, tem um guarda-roupa ali cheio. Tu coloca uma roupa minha, ué. — Tá bom, mas eu quero tomar um banho primeiro. Tô desde cedo sem. — falei, já rindo. — Demorou. — Ela pegou uma toalha e foi em direção ao banheiro. — Pega aqui, ó. Deixa que eu deixo a toalha na porta pra você. Ela fez isso e sumiu. Eu entrei no banheiro, agradecida por um momento de sossego depois de tanto barulho. A água quente caindo no corpo foi a melhor sensação do dia. Mas o que eu não sabia era que o caos me esperava logo depois. Quando saí, percebi que ela não tava mais ali. E o pior: pra chegar no quarto dela, eu tinha que passar pelos outros — o da mãe, da irmã e do irmão. Ou seja, uma maratona. Chamei: — Maju? Silêncio. — Maju, cadê tu? — insisti, meio alto, meio tímida. Nada. Comecei a me irritar. Peguei o celular, liguei pra ela — chamou, chamou, e nada. Olhei em volta, tentando ver se ela tinha deixado roupa em algum lugar, mas não tinha. Pensei: “Ah, quer saber? Eu vou assim mesmo, rapidinho. Ninguém vai me ver.” Apaguei a luz, respirei fundo e me preparei pra atravessar o corredor. O coração batendo rápido, tipo missão impossível. Corri. Dei dois passos e ouvi a porta atrás de mim abrir. — Eita, peguei no flagra! — uma voz masculina disse, rindo. Parei na hora. Gelei. Virei devagar, já sentindo o rosto queimar. Era o Gui. Ele ficou parado, com os olhos arregalados, e levantou as mãos como quem tá se rendendo. — Ai, caramba, não vi que tinha gente aqui! Desculpa, de verdade! — falou rápido, meio sem graça. — Juro que não sabia que você tava… é… — ele parou, coçando a nuca. — Enfim, foi m*l mesmo. Eu nem consegui responder. Só balancei a cabeça, tipo “tá tudo bem”, e saí correndo pro quarto da Maju. Fechei a porta, encostei as costas nela e respirei fundo. Meu coração parecia uma bateria de escola de samba. “Meu Deus, que vergonha!” Eu me sentei na cama, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. Queria rir, mas tava com tanta vergonha que só consegui colocar a mão no rosto. A música da rua ainda tocava, o barulho das pessoas conversando, rindo, e eu ali, quietinha, parecendo que tinha acabado de participar de um filme de comédia. Pensei: “Parabéns, Clara. Primeira noite dormindo na casa da Maju e já paga esse mico. Amei.” E, mesmo morrendo de vergonha, não consegui deixar de sorrir. Porque no fundo… fazia tempo que eu não me sentia tão viva. Entrei no quarto sem saber o que fazer. A Maju não tinha separado nenhuma roupa, e eu também não ia sair fuçando o guarda-roupa dela, né? Fiquei ali, sentada na cama, olhando pro nada, tipo uma estátua, pensando: “mano, e agora?” Peguei o celular e comecei a ligar pra ela, uma, duas, três vezes. Nada. Nenhum sinal de vida. A sensação era de que ela tinha evaporado da casa. Eu só pensava: “essa menina me deixou aqui pelada de coragem, socorro.” O tempo passou e nada dela aparecer. Eu já tava quase indo dormir daquele jeito de tanto desespero, quando ouvi uma batidinha leve na porta. — Clara, tá aí? — era a voz da Maju. Abri a porta só um pouquinho, me escondendo atrás, morrendo de medo de alguém ver. Vai que o irmão dela tava por ali no corredor? Eu não ia arriscar. — Mulher do céu, tu me deixou sozinha no banheiro na tua casa! — falei num sussurro meio bravo, meio rindo. Antes que ela respondesse, ouvi outra voz vindo do corredor: — O que que tem, menina? Só tem mulher aqui! — era a mãe dela, a dona Dara, falando toda tranquila, como se fosse super normal. — Meu marido tá lá em cima e o Gui tá na rua. Aí eu, nervosa, soltei logo: — Seu filho não tá na rua não, viu tia! Ele me viu passando! Ela riu, cruzou os braços e respondeu com aquele jeitinho debochado de mãe que não liga pra nada: — E o que que tem, menina? Uma moça bonita dessa com vergonha de quê? Tem que parar com isso, vai! Pronto. Eu fiquei vermelha na hora. Sério, parecia um tomate maduro. A Maju só ria da minha cara, encostada na porta, segurando o riso pra não desabar. — Ai, amiga, desculpa! Eu fui ajudar a minha mãe com o fogo da churrasqueira e esqueci total de você! — Tu me esqueceu pelada no banheiro, Maju! — falei, indignada. Ela gargalhou alto. — Ai, credo, Clara! Tu é muito certinha, menina. Aqui em casa é todo mundo de boa! E eu lá, me encolhendo toda, sem saber onde enfiar a cara. — De boa pra você, né? Porque pra mim foi um trauma! — falei rindo, mas com o coração acelerado. Dona Dara deu uma última risadinha e disse, indo embora pelo corredor: — Vocês duas são engraçadas demais. Vai, Maju, ajuda tua amiga aí antes que ela tenha um treco! Aí sim a Maju entrou, ainda rindo, e jogou um short e uma blusinha na cama. — Pronto, princesinha da roça, se veste aí e depois desce pra comer, que o churrasco tá ficando top! Eu só balancei a cabeça, meio sem graça, meio rindo também. Peguei as roupas e pensei: “Se sobrevivi a isso, sobrevivo a qualquer coisa.”
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