Capítulo 6

948 Words
MAJU NARRANDO Dizem que quando algo muito marcante acontece na sua vida, você nunca esquece os detalhes. O cheiro, o som, a roupa que estava usando, até a hora do dia. Eu nunca vou esquecer a noite em que o Gui foi preso. Eu estava no meu quarto, tentando estudar, mas a favela nunca é silenciosa. O barulho do baile lá embaixo, os fogos, as conversas, tudo misturado. Eu me acostumei a viver com o som do caos como trilha sonora, mas naquela noite havia algo diferente. Um burburinho estranho, uma agitação que fez minha barriga gelar. Quando escutei os passos pesados na escada e a voz da minha mãe chamando meu nome, já sabia que alguma coisa r**m tinha acontecido. Ela entrou no quarto chorando, e não precisou dizer nada. Eu só perguntei: — O que foi, mãe? E quando ouvi a palavra “preso”, senti como se alguém tivesse arrancado o chão debaixo de mim. O Gui não era santo. Eu sabia disso. Sabia que ele andava com uns caras que não valiam nada, que se deixava levar por essa vontade de mostrar que podia ter mais do que a gente tinha. Mas na minha cabeça, ele ainda era o meu irmão. Aquele que me protegia quando eu tinha medo de sair sozinha, que brigava comigo por coisas pequenas só para depois trazer um chocolate de desculpa. Naquela noite, a imagem dele sendo levado algemado pela polícia ficou presa dentro de mim como uma cena que eu nunca presenciei de fato, mas que parecia ter assistido mil vezes. Cada pessoa da favela comentava, cada vizinho cochichava, e parecia que todo mundo me olhava como “a irmã do preso”. Eu nunca me senti tão envergonhada e tão vazia ao mesmo tempo. Os dias seguintes foram ainda piores. Eu via minha mãe tentando ser forte, mas eu sabia que por dentro ela estava desmoronando. Eu ouvia ela chorando no banho, ou no silêncio da madrugada. E aquilo me matava, porque eu também estava destruída. Só que eu não queria mostrar. Não queria que ela carregasse também a minha dor. Eu me fechei. Parei de sair, de sorrir, de ter vontade de qualquer coisa. A escola virou um peso, os amigos começaram a desaparecer porque ninguém quer ficar perto de quem carrega uma sombra tão pesada. Eu virei uma versão apagada de mim mesma, como se tivesse perdido o brilho junto com o Gui. E, no fundo, o que mais doía não era só a ausência dele. Era a culpa. Eu me culpava por não ter falado mais, por não ter insistido para ele se afastar daquela vida. Eu lembrava de cada vez que ele chegava em casa depois de um baile, todo empolgado, falando de dinheiro fácil, e eu só revirava os olhos e dizia que ele era i****a. Nunca sentei para conversar sério, nunca disse o quanto eu tinha medo de perdê-lo. Minha mãe também se culpava. Ela sempre foi muito liberal com a gente. Sempre confiou no Gui, sempre acreditou que ele era diferente. E talvez ele fosse mesmo, mas a diferença não foi suficiente para impedir que ele se deixasse levar. Eu via o olhar da minha mãe todos os dias e reconhecia nele o que eu sentia: culpa e impotência. Eu fiquei meses assim. Um fantasma de mim mesma. Chorando escondida, sem vontade de nada, vivendo no automático. Até que a Maria Clara apareceu. No começo, eu não queria acreditar que alguém podia realmente se importar comigo. Eu já tinha visto muita gente se aproximar por interesse, gente falsa que some na primeira dificuldade. Mas a Maria Clara não foi embora. Ela foi ficando, aos poucos, sem pedir nada em troca. Eu tentava afastar, mas ela sempre voltava, sempre sorrindo, sempre paciente. Ela foi quebrando minhas paredes sem nem perceber. Primeiro, com pequenas conversas, depois com risadas, até que um dia eu percebi que estava contando coisas para ela que não tinha coragem de falar nem para mim mesma. Foi estranho, mas foi libertador. Minha mãe sempre diz que a Maria Clara me salvou. Eu também acredito nisso. Porque se não fosse ela, eu talvez tivesse me perdido na escuridão. Foi estranho, porque fazia tempo que eu não me sentia assim com ninguém. Eu tinha amigas, sim, mas nenhuma que realmente conhecesse a minha dor. Nenhuma que ficasse comigo nos dias ruins, que não julgasse o meu silêncio. A Maria Clara ficou. Ela foi minha base quando eu já não conseguia sustentar a mim mesma. Teve uma noite em que eu estava no quarto, chorando em silêncio, e ela entrou sem bater. Eu fiquei com vergonha, tentei limpar o rosto rápido, fingir que não era nada. Mas ela sentou na cama, me puxou para um abraço e disse: — Você não precisa fingir comigo. Eu desabei. Chorei como não chorava há meses, deixando sair tudo que estava entalado. E ela ficou ali, em silêncio, me abraçando, até eu me cansar do próprio choro. Nenhuma amiga tinha feito isso antes. A Maria Clara trouxe de volta algo que eu achava que tinha perdido para sempre: a capacidade de confiar. E não foi só comigo. Ela também deu força para a minha mãe. Eu via o jeito que a Dara olhava para ela, como se tivesse encontrado uma filha a mais. Minha mãe, que carregava tanta culpa, encontrou na Maria Clara um pouco de alívio. Como se, ao ver o bem que ela fazia para mim, conseguisse acreditar que ainda havia esperança. Eu nunca vou esquecer o dia em que minha mãe disse para ela: “Você salvou a minha filha.” E eu pensei: “Ela salvou nós duas.”
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD