MARIA CLARA NARRANDO
Foram poucas as vezes em que vi Dara tão vulnerável quanto naquela noite na cozinha. As palavras dela ecoavam dentro de mim como uma confissão que não tinha sido feita só para mim, mas talvez para ela mesma também. O silêncio que seguiu depois do abraço da Maju parecia carregar anos de dor guardada. Eu fiquei ali, absorvendo aquele peso, como se fosse parte dele também.
O nome do Guilherme ainda não havia sido mencionado diretamente naquela conversa, mas pairava no ar como um fantasma. Eu sabia que ele estava preso — não era segredo. O que eu não sabia eram os detalhes, e parte de mim tinha medo de perguntar. Mas, ao mesmo tempo, sentia que a Dara precisava falar sobre isso.
Mais tarde, quando estávamos só nós três na sala — eu, Maju e Dara — ela respirou fundo, ajeitou-se no sofá e começou a contar.
— Sabe, Maria Clara… eu sempre acreditei que ser mãe era ensinar os filhos a voar. Nunca quis segurar eles dentro de uma gaiola. Sempre deixei eles livres para fazer escolhas, para viver experiências, para aprender com os próprios erros… — Ela pausou, olhando para as mãos, como se procurasse nelas as respostas que nunca encontrou. — E foi assim que criei o Guilherme também.
O coração da Maju apertou só de ouvir o nome do irmão. Eu percebi pela forma como ela abaixou os olhos e respirou fundo, tentando disfarçar.
— Ele nunca foi um menino r**m, sabe? — Dara continuou, com a voz embargada. — Pelo contrário… nunca gostou de beber, nunca se meteu com drogas, sempre foi educado, respeitoso. Mas… — ela hesitou, e eu percebi que era difícil dizer em voz alta — ele queria ter mais. Mais dinheiro, mais reconhecimento. E aí foi se aproximando de pessoas que já estavam nesse meio.
A cada palavra, eu podia sentir a culpa se infiltrando nas entrelinhas. Ela não precisava dizer que se sentia responsável; estava claro no olhar, na forma como as lágrimas começavam a se formar.
— Ele começou a ir nos bailes da comunidade — disse Dara, ajeitando o pano no colo — e eu deixava. Sempre confiei nele. Achava que era só diversão, que não tinha problema. Até porque ele nunca chegou em casa bêbado, nunca deu trabalho. Eu via os meninos da idade dele se perdendo, mas achava que o meu filho… não. O meu filho era diferente.
Maju apertou minha mão nesse instante. O silêncio dela era um grito abafado, como se ainda fosse difícil aceitar que tudo aquilo tinha acontecido mesmo.
— Foi aí que ele se deixou levar — continuou Dara, agora com a voz falhando. — Querendo ganhar um dinheiro rápido, sem precisar trabalhar tanto, começou a fazer pequenos corres. No início, coisa simples… levar algo daqui até ali. Ele me dizia que não era nada demais, que não se envolvia com drogas, que não usava arma. E eu… eu acreditei.
O silêncio caiu como uma sentença. Eu engoli em seco, imaginando a cena: um garoto que, mesmo não sendo “da vida”, acabou puxado para dentro dela só por andar com as pessoas erradas. Não porque queria ser bandido, mas porque achou que podia controlar a situação.
— Mas ninguém controla isso — Dara disse, como se tivesse lido meus pensamentos. — Quando você entra, mesmo que seja só com um pé, já está dentro até o pescoço. Um dia, a polícia bateu, pegou ele junto com os outros. E aí… pronto. Meu filho foi levado algemado, como se fosse o pior criminoso do mundo.
Ela começou a chorar de verdade, sem conseguir mais segurar. Maju também tinha os olhos marejados, mas parecia engolir o choro para não demonstrar tanta fragilidade. Eu só conseguia segurar a mão dela, porque qualquer palavra parecia pequena diante da dor que escorria ali.
Dara limpou as lágrimas e respirou fundo antes de continuar:
— Eu me sinto culpada, Maria Clara. Culpa por ter acreditado demais, por ter deixado ele livre demais. Eu sempre pensei que estava dando o melhor: confiança, autonomia. Nunca quis ser uma mãe que prende, que sufoca. Mas olha onde isso deu.
Aquelas palavras me atravessaram como uma flecha. Eu pensei na minha própria vida, nos meus pais, no quanto muitas vezes desejei essa liberdade que Dara dava aos filhos. E agora via o outro lado: a liberdade também pode ser um fardo, quando as escolhas levam para caminhos perigosos.
— Tia… — comecei, com cuidado — você não pode carregar essa culpa sozinha. O Guilherme fez as escolhas dele. Ninguém é culpado por amar e confiar.
Ela sorriu de canto, mas era um sorriso triste, quebrado.
— Eu sei, filha. Mas é impossível não pensar que, se eu tivesse sido mais rígida, talvez… talvez ele não tivesse ido parar lá dentro.
Maju finalmente falou, a voz quase um sussurro:
— Mãe… não se culpe. O Gui sabia o que estava fazendo. Ele sempre soube.
— Mas ele era só um menino, Maju… — Dara rebateu, com lágrimas descendo pelo rosto. — Um menino querendo ser homem antes da hora.
O silêncio que se seguiu foi pesado, como se todas estivéssemos afundando naquela lembrança. Eu não conhecia Guilherme pessoalmente, mas era como se, de alguma forma, eu tivesse conhecido através delas. Um garoto sonhador, que não queria o caminho errado, mas que acreditou que podia brincar de se aproximar dele sem se queimar.
Maju se levantou e foi até o quarto. Eu percebi que aquilo a estava sufocando. Ela sempre teve dificuldade de falar sobre o irmão, e agora, com a mãe desabando, era ainda mais difícil. Fiquei na sala com Dara, que respirava fundo, tentando recompor-se.
— Eu só queria meu filho de volta… — ela murmurou, quase para si mesma. — Eu daria qualquer coisa para ver ele aqui, sentado na mesa, rindo, me pedindo comida.
Eu não soube o que responder. Então apenas segurei a mão dela. Porque às vezes, estar presente é a única resposta possível.