GUI NARRANDO
Sair da cadeia é um bagulho que ninguém te prepara.
Tu passa tanto tempo sonhando com o portão abrindo, com o vento batendo na cara, que quando acontece de verdade, parece até mentira.
O portão rangeu, devagar, e eu fiquei parado olhando pro lado de fora.
Por um segundo, eu não sabia se dava um passo ou se chorava.
A rua parecia maior, o céu mais azul, e o ar… o ar tinha cheiro de vida, tá ligado? Aquele cheiro de fumaça misturado com gasolina e liberdade.
Dei o primeiro passo e senti o chão quente, o sol queimando o rosto.
Peguei o celular que a assistente me devolveu junto com as minhas coisas e ele nem ligava mais, mas pouco importava. Eu só queria ver minha mãe, minha irmã, sentir o som da favela de novo.
Quando o carro dobrou na esquina da quebrada, parecia que o mundo inteiro me esperava.
As crianças correndo, o funk tocando alto, o cheiro de carne assando, cerveja gelando, risada ecoando das lajes.
Eu fiquei parado uns segundos, só olhando. Era o mesmo lugar, mas eu era outro cara.
A Maju foi a primeira a me ver.
Saiu gritando, pulando, abraçando, chorando e rindo ao mesmo tempo.
Eu abracei ela forte, forte de verdade, como se quisesse recuperar cada dia que a gente perdeu.
— Mano, você tá aqui, você tá aqui! — ela repetia, batendo no meu ombro, chorando e rindo.
E eu só conseguia dizer:
— Tô, Maju… tô em casa.
Minha mãe veio logo atrás, já gritando com aquele vozeirão que ecoava a rua inteira:
— Meu Deus, o menino tá aqui! A liberdade cantou!
O povo começou a bater palma, gritar, o som aumentou, alguém estourou uma latinha e pronto: o churrasco começou.
Tava todo mundo feliz, e eu também.
Eu olhava pros lados e parecia que o tempo tinha parado.
A laje tava lotada, o céu alaranjado, e a fumaça da churrasqueira subindo devagar, se misturando com o cheiro do carvão e da carne.
Maju não parava quieta. Corria de um lado pro outro, rindo, apresentando gente, me enchendo de perguntas.
— Quer refri? Quer carne? Quer pão de alho?
— Quero paz, Maju. — falei, rindo.
Ela riu junto, se jogou no sofá de plástico e gritou lá pra baixo:
— Mãe! Bota mais farofa que o Gui tá comendo igual um trator!
E eu tava mesmo.
Anos comendo comida de cadeia te faz dar valor até pra arroz grudado na panela.
Fiquei um tempo ali, trocando ideia com uns parceiros antigos, rindo, ouvindo história.
Mas toda hora eu olhava pra escada.
Não sei explicar o porquê, parecia que algo tava pra acontecer.
Aí minha mãe olhou pra rua e disse:
— Ó, a Clara chegou!
— Quem? — perguntei.
— A Clara, ué! Melhor amiga da tua irmã.
Fiz que não sabia, e realmente não sabia.
Nunca vi, só ouvi falar. Maju vivia escrevendo sobre ela nas cartas.
Mas, tipo, falar mesmo — “ah, ela é assim, faz aquilo” — eu nunca prestei tanta atenção.
Até agora.
Desci o olhar pra rua, e lá tava ela.
Roupinha simples, mochila nas costas, cabelo solto e uma cara de quem não sabia se entrava ou saía.
Acho que ela se assustou com o movimento, o som alto, o tanto de gente.
— Ué, ela tá parada por quê? — perguntei.
— Deve tá com vergonha — Maju respondeu, rindo. — Eu vou acenar pra ela.
As duas começaram a acenar, lá de cima da laje, igual doidas.
A Clara olhou pra cima, viu e deu um sorrisinho tímido.
Aí começou a andar devagar, meio sem jeito, passando no meio do povo.
— Parece até que tá pisando em campo minado — falei, rindo.
Quando ela chegou em frente à casa, Maju já tava gritando:
— Sobe, mulher! Tô aqui em cima!
E minha mãe emendou:
— Ó, Gui! Sobe pra eu te mostrar a Clara!
Eu ri.
— Quem, mãe?
— A Clara! Melhor amiga da Maju! — ela gritou de volta.
Subi a escada ainda rindo, achando graça da empolgação delas.
Quando cheguei na laje, ela tava lá.
Primeira coisa que reparei: o jeito.
Ela tinha aquele olhar curioso, meio assustado, como quem tá tentando entender o ambiente, mas sem perder a educação.
E tinha um brilho nos olhos, sabe? Daqueles que você só vê em gente de coração limpo.
— Você é a Clara? — perguntei, parando na frente dela.
— Sou sim. — respondeu, sorrindo.
E antes que eu dissesse qualquer coisa, ela me abraçou.
Mas não foi um abraço qualquer.
Foi um abraço de verdade.
Daqueles que você sente a alma da pessoa.
Por um segundo, fiquei sem reação.
Ela me apertou tão forte que parecia que era alguém da minha própria família me recebendo de volta.
O corpo dela era pequeno, mas o abraço era gigante, cheio de sentimento.
E quando percebi, o boné que tava na minha cabeça caiu, rolou até o canto da laje.
Ela viu, deu pra perceber, mas fingiu que nada tinha acontecido e continuou o abraço.
Eu dei um riso contido, surpreso.
— Cê é intensa, hein? — pensei, mas não falei.
Retribuí o abraço, encostando o queixo no topo da cabeça dela.
Fazia tanto tempo que eu não recebia um gesto simples assim… sem medo, sem desconfiança, sem interesse.
Ali, naquele momento, pareceu que o mundo inteiro parou.
Quando ela se afastou, ainda sorrindo, falou:
— Mano, eu tô muito feliz por todo mundo aqui. Pelas suas irmãs, seu pai, sua mãe… aqui eles são minha segunda família.
Olhei pra ela e dei um meio sorriso.
— Cê é louca, tio. Eu sei quem é você.
Ela me olhou confusa.
— Como assim?
— Eu sei quem é você, Clara. Minha irmã fala de você pra c*****o nas cartas. — soltei, rindo. — Conta os bagulho de vocês tudo. Disse que tu é paty, que fica toda impressionada quando vem aqui.
A reação dela foi impagável.
Abriu os olhos, fez uma cara indignada.
— Eu não sou paty nada! — falou rápido, cruzando os braços.
Aí não teve jeito, eu comecei a rir.
— É paty sim. Minha irmã falou que tu é toda enjoada, cheia de mimimi.
Ela virou pra Maju na hora, meio sem acreditar.
— Mulher! Você tá falando m*l de mim?
Maju levantou as mãos, rindo.
— Não, amiga! Juro! Eu só contei sobre você, mas não foi falando m*l não!
A Clara respirou fundo e deu um sorrisinho.
— Tá bom, eu entendi.
Eu gostei da atitude dela.
Não se ofendeu de verdade, mas também não ficou quieta.
Tinha personalidade, mesmo sendo toda certinha.
Fiquei olhando pra ela, e falei:
— Mas tu tá aqui pra comer o churrasco e comemorar que a minha liberdade cantou.
Ela franziu o cenho.
— A sua o quê?
— Ele foi solto — Maju traduziu, rindo.
— Ahhh — Clara fez um gesto com a mão, tipo quem entendeu só depois. — Isso aí, meu truta! A liberdade cantou!
E aí, mano…
Eu juro, eu quase engasguei de tanto rir.
Ela falou com tanta empolgação, tentando se enturmar, que ficou ainda mais engraçado.
O sotaque dela, o jeito certinho misturado com as gírias… parecia que a quebrada toda parou pra olhar.
Maju caiu na risada, minha mãe se abanava com o pano da cozinha e eu só conseguia dizer:
— É isso aí, parceiro! Tá andando muito aqui na quebrada, hein?
Ela riu, meio sem graça, e eu fiquei olhando pra ela, de cima a baixo.
Pequenininha, delicada, com um brilho nos olhos que não combinava com o caos da laje — mas ao mesmo tempo, combinava comigo ali, naquele momento.