Capítulo 10

1811 Words
CLARA NARRANDO A subida começou tranquila, mas logo o som da rua foi crescendo. Primeiro, um tamborzão distante. Depois, o grave da música vibrando no ar. O sol já tava se pondo, aquele céu alaranjado bonito, e a cada curva o movimento aumentava. Gente nas calçadas, crianças brincando, fumaça de churrasco subindo e gargalhadas ecoando de todos os lados. Quando a gente dobrou na última ladeira, o motorista diminuiu a velocidade. — Ih, acho que não dá pra ir até o fim, não. Barricaram ali, ó. Olhei pra frente e vi um grupo de meninos encostados em blocos de cimento e tambores, rindo e falando alto. A rua tava lotada, cheia de gente dançando e copos na mão. — Tudo bem, pode me deixar aqui mesmo — falei, tentando disfarçar o friozinho na barriga. Desci, agradeci e fiquei parada ali por um instante. A música era tão alta que eu sentia o chão vibrar. O cheiro de churrasco misturado com cerveja, o barulho de risadas, e o coração disparado. “Meu Deus, será que isso é um baile?” pensei. Nunca tinha ido em um. E, sendo sincera, eu não fazia ideia de como me comportar. Fiquei ali, parada, com o celular na mão, tentando ligar pra Maju — mas ela não atendia. Óbvio que não, com aquele som ensurdecedor. Dei dois passos pra trás, já pensando em voltar, quando meu celular vibrou. Tia Dara: “Tô te vendo daqui de cima da laje!” Levantei o rosto na hora, e lá estava ela — a Maju — de pé na laje, acenando igual uma louca, o cabelo balançando, o sorriso largo, como se estivesse me chamando pro palco de um show. — Claraaaa! Sobe logo! — ela gritou, com a voz quase sumindo no meio da música. Na hora, o medo deu lugar à coragem. Respirei fundo, ajeitei a bolsa no ombro e comecei a andar. A cada passo, o som parecia mais alto, a rua mais viva. Tinha grupo dançando, gente conversando alto, criança correndo, cheiro de carne assando, cerveja gelada e um monte de risadas. E, apesar da confusão, tinha uma energia boa no ar, uma alegria que contagiava. Maju continuava acenando lá de cima, rindo. — Anda logo, mulher! — ela gritava, animada. Quando cheguei em frente à casa dela, entendi o motivo do barulho. Era mesmo um churrasco — só que do tamanho de um evento. Gente em todos os andares, música saindo de uma caixa enorme, bandeirolas coloridas penduradas, e a fumaça da churrasqueira subindo. Subi as escadas com cuidado. A casa da Maju era alta, três andares, cada um mais cheio que o outro. No primeiro, um grupo conversava e dançava; no segundo, uma tia com um avental cuidava da carne; e lá no terceiro, na laje, vinha o som mais forte e a risada mais alta — a da minha melhor amiga. Assim que botei o pé na laje, Maju veio correndo, quase me atropelando. — CLARAAAAA! — gritou, me abraçando com força. — Meu irmão saiu! Demorei uns segundos pra entender. Fiquei olhando pra ela, piscando. — Como assim… saiu? Ela segurou meus ombros, os olhos brilhando. — Meu irmão saiu, amiga! Ele tá livre! Voltou pra casa hoje! Um arrepio correu pelo meu corpo. — Aí meu Deus, não acredito! — falei, rindo e abraçando ela de novo. — Maju, que coisa boa! Ela pulava, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Tu não tem ideia, Clara. Dois anos esperando por esse momento. Dois! — ela disse, enxugando as lágrimas com as costas da mão. — Quando ele entrou por aquele portão hoje, parecia que o mundo voltou pro lugar. Olhei pro lado e vi ele lá embaixo, no segundo andar, cercado de gente. Um rapaz alto, magro, de boné branco e camiseta simples, rindo, abraçando todo mundo. A alegria dele era quase palpável. — É por isso que a rua tá assim! — falei, rindo. — Claro! — ela respondeu, animada. — Minha mãe fez o churrasco, meu tio trouxe o som, os vizinhos chegaram com comida… virou festa! A gente tava sentada no murinho, comendo, quando me veio a curiosidade: — Cadê o seu irmão? Me mostra — falei, virando pra ela. Maju olhou pra mim, rindo como se fosse óbvio. — Meu irmão tá na rua, menina! Cê não viu não? Arqueei as sobrancelhas. — Oxi, doida, como é que você quer que eu reconheça seu irmão? Eu nunca nem vi ele! Ela deu uma gargalhada. — Verdade, né? — disse, olhando pra baixo. — Ele tá ali, ó, com os amigos dele. Vai lá! — Vai lá você, ué! — retruquei, rindo. Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, tia Dara apareceu atrás da gente, segurando um copo de refrigerante e com o sorriso estampado no rosto. — Ó, Gui! Sobe! Sobe aqui pra eu te mostrar a Clara! — ela gritou, sem nem pensar duas vezes. Na hora, eu congelei. — Meu Deus, tia, não! — falei baixinho, cobrindo o rosto de vergonha. Mas já era tarde. A voz dela tinha atravessado o som alto do pagode e ecoado pela rua inteira. — QUEM, MÃE?! — ouvi ele responder lá de baixo, no meio da conversa com os amigos. — A CLARA! MELHOR AMIGA DA MAJU! — tia Dara gritou de volta, rindo e batendo palmas, como se estivesse anunciando uma atração especial. Maju gargalhava tanto que quase derrubou o copo. — Pronto, amiga, agora não tem mais volta — disse, se abanando. — Ele vai subir! Eu queria rir, mas a vergonha tava me consumindo. Cruzei os braços e fiquei parada, tentando parecer o mais natural possível, o que era impossível com o coração disparado daquele jeito. Olhei pro lado e vi o movimento lá embaixo: o grupo de amigos dele rindo, batendo no ombro dele, apontando pra cima. E então ele começou a subir. Passo por passo. Sem camiseta, o corpo bronzeado pelo sol, o boné virado pra trás e um óculos escuro que refletia as luzes coloridas da laje. O tipo de presença que enchia o espaço sem precisar dizer nada. Senti as pernas tremerem — não de jeito bobo, mas de nervosismo mesmo. Era o irmão da minha melhor amiga, a pessoa que ela tanto esperou ver de volta. Eu não sabia como agir. Quando ele chegou no último degrau, o som pareceu diminuir. Talvez fosse só impressão minha, mas por um instante o barulho da festa ficou distante. Ele parou na minha frente, olhando curioso, e perguntou com a voz firme, mas tranquila: — Você é a Clara? — ele perguntou. Assenti, sentindo o coração acelerar. — Sou sim. E, sem nem pensar, abracei ele. Foi automático, de verdade. Um impulso. Abracei ele com tanta força que parecia que eu tava abraçando alguém da minha própria família. Era como se eu sentisse o peso de tudo aquilo — o tempo que ele ficou longe, o quanto a Maju falava dele, a alegria de ver ela feliz. Na hora que o meu braço apertou o corpo dele, o boné caiu da cabeça dele e foi rolando até o canto da laje. Eu congelei por um segundo, morrendo de vergonha, mas fingi que nada tinha acontecido e continuei o abraço, porque largar ali ia ser mais estranho ainda. Ele riu baixinho, um riso surpreso, e retribuiu o abraço — forte também, de um jeito sincero, que parecia agradecimento. — Mano, eu tô muito feliz por todo mundo aqui — falei, ainda segurando ele. — Pelas suas irmãs, seu pai, sua mãe… aqui eles são a minha segunda família. Ele se afastou só o suficiente pra me olhar e respondeu, com aquele jeito leve, meio debochado: — Cê é louca, tio. Eu sei quem é você! — disse, rindo. — Você é a Clara! Minha irmã fala de você pra c*****o nas cartas. Meu olho arregalou. — Ela o quê? — Fala mesmo — ele continuou, se divertindo. — Conta os bagulho de vocês tudo. Disse que você é paty, que fica toda impressionada quando vem aqui. Aí sim que a vergonha bateu de verdade. — Eu não sou paty nada! — falei rápido, cruzando os braços. Ele riu, apontando pra mim. — É paty sim! Ela disse que você é toda enjoada, cheia de mimimi. Olhei pra Maju na hora. — Mulher, você tá falando m*l de mim? Maju levantou as mãos, rindo. — Não, amiga! Eu só contei sobre você, mas não foi falando m*l, juro! — disse, tentando se explicar. Eu ri também, sem jeito. — Tá bom, tá bom… eu entendi. Gui deu um passo pro lado, coçando a nuca. — Mas tu tá aqui pra comer o churrasco e comemorar que a minha liberdade cantou. Eu pisquei umas três vezes, sem entender. — A sua o quê? — Ele foi solto, amiga — Maju traduziu baixinho, me cutucando com o cotovelo. — Ah! — falei, meio atrasada. — Isso aí, meu truta! A liberdade cantou! Assim que percebi o que tinha dito, bateu o arrependimento. “Meu truta”? “Liberdade cantou”? Meu Deus, o mico. Ele gargalhou alto, a risada meio rouca enchendo a laje. — É isso aí, parceiro! — respondeu, me olhando de cima a baixo. — Tá andando muito aqui na quebrada, hein? Eu ri, sem saber se era zoeira ou elogio. Ele me analisou de novo e balançou a cabeça, rindo. — c*****o, tu é baixinha. Consegue ser mais baixa que a Maju. — Mentira! — protestei, rindo. — Ela que é minúscula! — Nada disso — ele disse, puxando a irmã pelo ombro e abraçando. — Essa aqui é o amor da minha vida. Falou com tanto sentimento que o barulho do som pareceu diminuir por um instante. — Eu faço de tudo por essa menina — ele continuou. — Ela não me deixou em nenhum momento. Foi me visitar, se virou, vendeu brigadeiro na rua pra ajudar no jumbo… essa aqui é fechamento. Olhei pros dois e senti o coração apertar bonito. O jeito que ele falava, o orgulho, o carinho — era puro, de verdade. — Vocês são incríveis — murmurei, emocionada. Ele olhou pra mim de novo, agora mais relaxado. — Tu bebe? — perguntou. Balancei a cabeça. — Não. — Tu fuma? — Também não. Ele riu, apontando pro churrasco. — Então vamo comer, né? Só não tem picanha. — Já tô feliz só com farofa e vinagrete — respondi, brincando. Ele riu de novo e desceu pra pegar os pratos, enquanto Maju e tia Dara continuavam rindo da minha cara por causa do “meu truta”. E eu fiquei ali, observando os dois juntos, pensando em como aquele abraço — que começou desajeitado, com um boné caído e um coração acelerado — tinha virado uma lembrança que eu ia guardar pra sempre.
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