CLARA NARRANDO
Depois que ele saiu do quarto, eu tentei dormir.
Juro que tentei.
Virei de um lado, virei do outro, fechei os olhos, respirei fundo… mas minha cabeça simplesmente não desligava.
Parecia que, quanto mais eu tentava esquecer, mais tudo voltava.
Começou a passar um filme inteiro na minha cabeça.
Cada detalhe.
Cada momento.
Cada olhar.
Eu lembrei de todas as vezes, durante a noite, em que eu estava distraída… conversando, rindo, vivendo o momento… e, quando eu olhava, ele já estava me olhando.
Não era sempre.
Mas acontecia.
E agora, lembrando… parecia mais frequente do que eu tinha percebido na hora.
Lembrei também das coisas que ele falou pra mim.
Do jeito que ele falava.
Das brincadeiras.
Das indiretas.
Do convite pro baile.
Do jeito que ele insistiu.
Do “Clarinha”.
Do “comigo tu não passa aperto”.
Do beijo na testa.
Do “anjinha”.
Eu apertei os olhos com força.
— Ai, meu Deus…
Passei a mão no rosto, virando de lado na cama.
Aquilo tava me consumindo mais do que deveria.
Porque, no fundo…
Eu não sabia se era real.
Ou se era coisa da minha cabeça.
E isso me deixava inquieta.
Eu cheguei na casa deles era cinco horas da tarde.
Cinco.
E fui deitar já eram três e pouca da manhã.
Quase dez horas naquele ambiente.
Com ele ali.
E agora…
Tudo parecia fazer mais sentido.
Ou talvez menos.
Eu não sabia.
Olhei de lado.
A Maju já estava completamente apagada.
Dormindo profundamente, como se o mundo não existisse.
Eu dei uma risadinha baixa.
— Queria ser assim…
Mas eu não era.
Infelizmente, eu sentia tudo demais.
Pensava demais.
Criava demais.
E ali estava eu.
Deitada.
No escuro.
Revendo cada segundo do dia.
E tentando entender o que, de fato, tinha sido aquilo tudo.
Se era só coisa da minha cabeça.
Ou se… tinha alguma coisa ali.
Alguma coisa começando.
Alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.
⸻
Eu não sei exatamente em que momento o sono venceu.
Só sei que, quando veio…
Veio com tudo.
Eu apaguei.
Igual um bebê.
Sem nem perceber.
⸻
No outro dia, eu nem senti o tempo passar.
Em algum momento, meu celular tocou.
Mas parecia distante.
Como se estivesse acontecendo em outro mundo.
Depois eu soube que era meu pai.
Eram nove horas da manhã.
Mas eu não atendi.
Porque eu simplesmente… não acordei.
Meu corpo estava exausto.
Minha mente mais ainda.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Eu dormi profundamente.
Sem interrupção.
Sem pensamento.
Sem nada.
⸻
Quando eu finalmente acordei, já eram onze horas.
Abri os olhos devagar.
Me espreguicei.
Ainda meio perdida.
A Maju não estava na cama.
O quarto já estava claro.
E eu levei alguns segundos pra lembrar onde eu estava.
Até tudo voltar.
A casa.
A festa.
Ele.
Meu coração deu aquele pulinho leve de novo.
— Para, Clara…
Sentei na cama.
Peguei o celular.
Vi a ligação perdida do meu pai.
Suspirei.
— Depois eu retorno…
Levantei devagar.
Ainda meio sonolenta.
Abri a porta do quarto.
E ouvi vozes vindo da cozinha.
Gente conversando.
Rindo.
O clima ainda era leve.
Eu vi a Maju passando pelo corredor, indo pro banheiro.
— Bom dia — ela murmurou, com voz de sono.
— Bom dia…
Eu ri.
Ela entrou no banheiro.
E eu fiquei parada por um segundo.
Respirei fundo.
Arrumei o cabelo com a mão.
E fui até o banheiro também.
Escovei os dentes.
Lavei o rosto.
Tentando acordar de verdade.
Mas, no fundo…
Eu já estava desperta.
Por dentro.
Desde a noite anterior.
⸻
Quando saí do banheiro, caminhei até a cozinha.
E, assim que entrei…
Eu senti.
Aquele ambiente acolhedor de novo.
Mesa posta.
Cheiro de café.
Pão.
Conversa leve.
E todo mundo ali.
Eu sorri automaticamente.
— Bom dia — falei, meio tímida.
— Bom dia! — responderam quase juntos.
E foi então que eu vi.
Ele.
Guilherme.
Na cozinha.
Tranquilo.
Como se fosse só mais um dia comum.
Mas não era.
Pelo menos… não pra mim.
E antes que eu pudesse pensar muito…
Ele veio na minha direção.
Com algo na mão.
Eu franzi a testa de leve.
Curiosa.
Ele parou na minha frente.
E estendeu a mão.
Era uma flor.
Simples.
Pequena.
Mas bonita.
Delicada.
Eu fiquei alguns segundos sem reação.
— É… pra mim? — perguntei, meio sem acreditar.
Ele deu um sorrisinho.
— É.
Simples assim.
Como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Mas não era.
Não pra mim.
Eu peguei a flor com cuidado.
Sentindo algo estranho no peito.
Algo bom.
Mas confuso.
— Obrigada…
Falei mais baixo do que o normal.
E foi aí que aconteceu.
Ele segurou minha mão.
De leve.
Mas firme o suficiente pra eu sentir.
Meu coração disparou.
Na hora.
Sem aviso.
Sem controle.
E antes que eu pudesse reagir…
Ele levou minha mão até os lábios.
E beijou.
Devagar.
Natural.
Como se aquilo também fosse simples.
Mas não era.
Não pra mim.
Não daquele jeito.
Não vindo dele.
Eu congelei.
Sério.
Meu corpo inteiro travou por um segundo.
E tudo o que eu consegui fazer foi olhar pra ele.
Sem entender.
Sem saber o que dizer.
Sem saber o que sentir.
E ele…
Só sorriu.
— Eu e meu pai fizemos café da manhã pra vocês.
A voz dele saiu tranquila.
Como se nada tivesse acontecido.
Como se ele não tivesse acabado de bagunçar completamente o meu mundo.
— Vai lá.
Eu pisquei algumas vezes.
Ainda tentando voltar pra realidade.
— Tá…
Minha voz saiu baixa.
Quase falha.
Eu soltei minha mão devagar.
Ainda sentindo o toque dele.
Ainda sentindo o beijo.
Ainda tentando entender…
Se aquilo era só o jeito dele.
Ou se…
Era algo mais.
E, naquele momento…
Eu tive certeza de uma coisa.
Eu não estava mais tão no controle quanto achei que estava.