Capítulo 17

1521 Words
CLARA NARRANDO Eu achei que a conversa ia acabar ali. Sério. Depois que ele falou do baile, eu respondi que não e pronto. Achei que ele ia rir, fazer alguma piada e subir de novo. Mas não. O Guilherme não era o tipo de pessoa que deixava as coisas morrerem fácil. Ele ficou ali. Encostado na porta. Me olhando com aquele meio sorriso, como se já soubesse que eu não estava tão decidida quanto estava tentando parecer. — Vai escondido, menina — ele falou, como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Vai pra casa, fala que vai pra alguma festa… e a gente vai pro baile. Eu arregalei o olho na hora. — Não — respondi firme. — Nem pensar. Mas por dentro… Não estava tão firme assim. Ele inclinou a cabeça de leve, me analisando. E aí veio. — Ô, Clarinha… Só de ele falar assim, daquele jeito mais baixo, mais próximo… já me desestabilizou um pouco. — Eu acabei de sair da cadeia, entendeu? Eu prendi a respiração. Não pelo que ele disse. Mas por como ele disse. Sem peso. Sem drama. Mas com uma verdade ali. — Faz por mim — ele continuou. — Não tem um espaço aí no seu coração? Meu coração deu um pulinho. E eu odiei isso. Porque eu não sabia explicar o porquê. — Eu sou o irmão da sua melhor amiga. Eu soltei uma risadinha, tentando quebrar o clima. — Ah, pronto… Mas ele não desviou. Continuou me olhando. E aí ele soltou: — Tu não tava esperando também por esse momento? Aquilo me pegou de surpresa. — Que momento? — perguntei, franzindo a testa. Eu olhei pra cara dele. De verdade. Tentando entender. Ele deu uma leve encolhida de ombros, como se fosse tirar o peso da própria fala. — Não que eu seja tão importante assim… Mas eu percebi. Percebi que tinha alguma coisa ali. — Mas a minha irmã vai amar — ele completou. Aquilo quebrou um pouco o clima. — Ver você no baile. Eu pisquei algumas vezes. — Ela vai amar me ver no baile? — Vai — ele respondeu na hora. — Vai ficar feliz. Tem mó cota que eu não saio com ela. E dessa vez… Eu acreditei. Porque não parecia argumento. Parecia… verdade mesmo. Eu cruzei os braços, tentando manter uma postura mais firme. — Tá tentando me convencer? Ele deu um sorriso de lado. Aquele sorriso que parece que já sabe a resposta. — Tá dando certo? Eu hesitei. Droga. — Mais ou menos — respondi. Ele riu baixinho. E aquele riso… Era perigoso. Não no sentido r**m. Mas no sentido de… mexer comigo mais do que deveria. — Vai — ele insistiu, mais suave dessa vez. — Pede pra dormir aqui. Eu soltei o ar devagar. Olhei pro lado. Olhei pra ele de novo. Minha cabeça dizia não. Mas alguma outra parte minha… Estava curiosa. — Tá bom — falei, antes mesmo de pensar demais. — Vou falar com a Maju e comigo lá em casa pra pedir. Vai que ele deixa. Assim que eu falei, me dei conta do que tinha acabado de aceitar. Ele abriu um sorriso. Não grande. Mas satisfeito. — Aí sim. Eu revirei os olhos. — Olha o nível da humilhação… Passei a mão no cabelo. — Com 18 anos, quase 19 nas costas… e tenho que pedir autorização pro meu pai. Ele riu. — E você acha que eu não tenho que pedir pra minha mãe? Eu arqueei a sobrancelha. — Ah, para. Você acha que eu não sei que ela manda em você? Ele fingiu indignação na hora. — Ah, cê é louca. Deu um passo pra frente, apontando pra ele mesmo. — Eu sou bicho solto, filha. Quando eu quiser sair, eu saio. Eu ri. — Aham… sei. — Tô falando sério. — Sei sim. A troca ficou leve. Divertida. Mas por dentro… Meu coração ainda estava meio acelerado. E eu sabia que não era só pela conversa. Era por ele. ⸻ Foi quando a porta abriu de repente. A Maju entrou, já com cara de sono, jogando o corpo na cama. — Amiga… não quero mais ficar lá em cima não. Ela puxou o travesseiro. — Tô com muito sono. Eu ri. — Eu te falei. O Guilherme virou pra ela na hora. Sem nem pensar duas vezes. — Ela vai pro baile com a gente amanhã. Silêncio. A Maju levantou a cabeça na mesma hora. — MENTIRAAA! Eu arregalei o olho. — NÃO, AMIGA! Sentei na cama rápido. — Eu falei que você vai comigo pedir pro meu pai! Eu não dei certeza ainda! Ela ficou me olhando, com aquele olhar de quem já entendeu tudo. Devagarinho… Um sorriso começou a surgir no rosto dela. — Hummm… Eu já conhecia aquele olhar. — Para — falei, apontando pra ela. O Guilherme, claro, não perdeu a chance. — Ela vai sim — falou com toda certeza do mundo. — Ela quer conhecer o perigo. Eu virei pra ele na hora. — Nada a ver! Mas minha voz não saiu tão firme quanto eu queria. A Maju começou a rir. — Amiga… você no baile? — Nem eu tô acreditando — respondi, passando a mão no rosto. Ela sentou na cama, mais animada agora. — Você vai mesmo? Eu hesitei. Olhei pra ela. Depois… Sem querer… Olhei pra ele. E ele tava me olhando. De novo. Aquele olhar. Calmo. Mas cheio de intenção. Como se dissesse: “Vai.” Eu desviei na hora. — Eu… não sei ainda. — Sabe sim — ele falou, tranquilo. Eu revirei os olhos. — Para de decidir por mim. Ele deu de ombros. — Tô só adiantando. A Maju bateu palma de leve. — Eu quero ver isso. — Você não ajuda — falei pra ela. — Eu ajudo sim. A gente vai pedir pro seu pai. Eu ri, desacreditada. — “A gente”… claro. — Ué, eu vou com você. Eu balancei a cabeça. Mas no fundo… Aquilo me deixou mais tranquila. Porque sozinha, eu provavelmente nem tentaria. Ficou um silêncio leve no quarto. Mas não era vazio. Era cheio de expectativa. De algo que ainda nem tinha acontecido… Mas que já estava mexendo comigo. ⸻ Depois do fundunço que a Maju fez, ela simplesmente virou pro lado e falou que ia dormir, como se nada tivesse acontecido. Eu até ri, porque ela é exatamente assim: faz o maior barulho do mundo e, cinco minutos depois, apaga como se tivesse sido desligada. O Guilherme se aproximou dela primeiro. Com um cuidado que eu não tinha visto ainda naquela noite, ele se inclinou, deu um beijo na testa dela e falou baixinho: — Te amo. Aquilo me chamou atenção. Não foi só o gesto. Foi o jeito. Natural. Leve. Verdadeiro. Sem plateia, sem graça, sem querer aparecer. Só… carinho. Eu desviei o olhar na hora, meio sem querer invadir aquele momento, e voltei a mexer no celular, tentando agir como se nem tivesse reparado. Mas reparei. E muito. Foi então que, do nada, eu senti uma presença mais perto. Quando levantei o olhar… Ele tava vindo na minha direção. Meu coração deu aquele pulinho inesperado. Pequeno. Mas suficiente pra me deixar alerta. Ele parou perto da cama, bem na minha frente. E antes que eu pudesse pensar em qualquer coisa… Ele se inclinou. Deu um beijo na minha testa também. E falou, com a voz baixa: — Dorme com Deus, anjinha. Anjinha. Eu congelei por um segundo. Sério. Não soube nem como reagir. Nem o que falar. Nem o que sentir. Só fiquei ali… parada. Sentindo. Quando ele se afastou e saiu do quarto, fechando a porta devagar, eu continuei imóvel por alguns segundos, olhando pro nada. Meu coração tava estranho. Não acelerado demais. Mas diferente. Como se tivesse sido tocado de um jeito que eu não tava esperando. Eu levei a mão até a testa, quase sem perceber. Como se ainda desse pra sentir. Soltei uma risadinha baixa. — Ai, Clara… Balancei a cabeça. Porque, pra ser bem sincera… Eu não entendi nada. Nada mesmo. Eu não sabia se ele era assim com todo mundo. Carinhoso. Atencioso. Ou se… aquilo tinha sido diferente. Se comigo tinha sido diferente. E esse era exatamente o problema. Porque eu me conheço. Eu sou muito iludida. Muito. Qualquer detalhe, qualquer gesto mínimo, qualquer palavra um pouco mais doce… Pronto. Minha cabeça já começa a criar coisa onde talvez nem exista. E eu odeio isso. De verdade. Porque às vezes não é nada. E eu transformo em tudo. Virei de lado na cama, tentando ignorar. — Foi só um beijo na testa, Clara. Falei baixinho pra mim mesma. — Ele fez a mesma coisa com a irmã. Simples. Normal. Nada demais. Mas mesmo repetindo isso… Não parecia tão simples assim. Porque o jeito que ele falou… O “anjinha”… A proximidade… Ficaram. Grudados em mim. E, por mais que eu tentasse me convencer do contrário… Uma parte de mim não queria acreditar que tinha sido só isso. E talvez fosse aí que o perigo começava.
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