Capítulo 16

1401 Words
GUILHERME NARRANDO Quando comecei a falar de verdade, eu senti que o clima mudou. Até então tava todo mundo rindo, zoando, me tratando como sempre — ou até mais, por causa da minha volta — mas tinha coisa aqui dentro que não dava mais pra guardar. Eu mesmo não tava entendendo direito o que eu sentia. Era um misto de alívio, cansaço e uma revolta que ainda não tinha ido embora completamente. Eu respirei fundo antes de continuar. — Mano… lá dentro, todo dia eu pensava a mesma coisa. Falei olhando mais pro chão do que pra eles. — “Quando eu vou sair daqui?” Ficou um silêncio estranho. Não era pesado, mas também não era leve. Era o tipo de silêncio que escuta. — E o pior… — eu continuei — é que todo dia parecia que era o último. Dei uma risada sem humor. — Todo dia eu achava que alguém ia me chamar. Que alguém ia falar “é hoje”. Que eu ia embora. Balancei a cabeça. — E quase nunca era. Aquilo ainda mexia comigo. Eu senti no corpo. Como se eu ainda estivesse lá, contando os dias… ou pior, contando esperanças. — Acho que a pior coisa que eu fiz comigo mesmo foi isso… — falei mais baixo — criar expectativa demais. Passei a mão no rosto. — Porque quando não acontecia… parecia que eu tinha que levantar do chão de novo. Todo dia. Eu nem sabia por que tava falando tudo aquilo. Talvez porque eu precisava. Talvez porque, pela primeira vez, eu tava num lugar onde dava pra respirar. Minha mãe tava me olhando com aquele olhar que só ela tem. Um olhar que mistura orgulho com preocupação, como se ela quisesse me proteger até de mim mesmo. — Eu não acho que você errou nisso — ela disse. Levantei o olhar. — Ué? — Você não se conformou — ela continuou. — Isso é diferente. Ela cruzou os braços, firme. — Se você tivesse se acostumado com aquilo… talvez hoje ainda estivesse lá. Aquilo bateu diferente. Eu fiquei uns segundos em silêncio, processando. Depois soltei uma risada. — Você é louca, coroa. Balancei a cabeça. — Nunca mais. E dessa vez eu falei com certeza. — Agora eu vou trabalhar. Agora eu vou deixar essa família rica… igual a Clara. Foi automático. Nem pensei muito antes de falar o nome dela. Mas quando falei… Eu olhei. E ela tava ali. Clara. Ela riu na hora, meio sem jeito. — Mano, eu não sou rica não, menino. Mas eu nem tava zoando tanto quanto parecia. Apontei pra minha mãe. — Mas agora vocês vão ter o provedor da família. Falei com um sorriso, mas com verdade também. Eu queria aquilo. Eu precisava daquilo. Meu pai não tava ali naquele momento, e minha mãe não perdeu a oportunidade: — Quero ver teu pai ouvir isso. Eu dei de ombros. — Eu que vou bancar o meu coroa. Sorri de lado. — Meu coroa vai andar só nos kit. Todo mundo riu, e eu ri junto. Mas por dentro… eu tava fazendo promessa pra mim mesmo. Não era sobre dinheiro. Era sobre nunca mais voltar praquele lugar. ⸻ Depois a gente subiu. E aí… foi barulho, música, gente, cheiro de carne, risada, copo batendo, conversa atravessada. Aquela bagunça boa que só família grande faz. Eu m*l conseguia andar direito sem alguém me puxar. — Ô, sumido! — Carai, voltou mesmo! — Vem cá me dar um abraço! Era abraço atrás de abraço. Tapinha nas costas. Gente falando alto. Gente emocionada. Gente me olhando como se eu tivesse voltado de uma guerra. E talvez tivesse mesmo. Mas no meio de tudo aquilo… Eu comecei a reparar em uma coisa. Ou melhor… Em alguém. Clara. Ela não era do tipo que chegava fazendo barulho. Não era dessas que chama atenção de primeira. Mas… não sei. Ela tinha um jeito. Ficava mais quieta no começo, observando. Mas quando começava a conversar… parecia que não parava mais. E eu fiquei olhando aquilo de longe. Ela sentada, falando com a minha tia como se conhecesse ela há anos. Rindo. Comendo. Gesticulando. E todo mundo gostando dela. Minha vó então… nem se fala. Depois já tava com uma criança no colo. Depois abraçando minha mãe. E minha mãe… minha mãe não é de qualquer uma não. Mas tava lá: — Eu te amo, menina. E ela respondendo. Natural. Como se já fosse da família. Aquilo mexeu comigo de um jeito estranho. Porque… eu tava voltando agora. E parecia que ela já fazia parte de tudo. Fiquei observando mais um pouco. E teve uma hora que ela riu… E eu não sei explicar. Mas foi ali que eu pensei: “Essa menina é diferente.” Não era só bonita — porque ela era, e muito. Mas não era só isso. Era o jeito. O jeito leve. O jeito de se encaixar. O jeito de fazer as pessoas se sentirem bem. E eu, que sempre fui mais direto, mais sem paciência… Fiquei ali. Parado. Olhando. E pensando coisa que eu nem devia estar pensando ainda. Balancei a cabeça, como se desse pra espantar aquilo. — Para com isso, mano — murmurei pra mim mesmo. Eu tinha acabado de sair de um lugar onde pensar no futuro já era luxo. Não era hora de ficar viajando em mulher. Mas mesmo assim… Volta e meia meu olhar ia nela. Sem eu perceber. ⸻ O tempo passou rápido. Quando eu vi, já era de madrugada. Mas festa boa é assim. Ninguém vê o tempo passar. Eu continuei lá em cima, no meio da galera, mas em algum momento eu percebi que a Maju tinha sumido. Minha mãe veio até mim: — Guilherme, você viu a Maju? — Não. — Procura ela pra mim. Revirei os olhos, rindo. — Sumiu foi? — Vai lá. Desci as escadas. A casa já tava mais silenciosa lá embaixo. Bem diferente do caos lá de cima. Fui direto no quarto. Bati na porta. — Quem é? — ouvi a voz dela. Mas não era a Maju. Era Clara. Na hora eu estranhei. — Guilherme — respondi. Ela abriu só um pouquinho a porta. E foi ali que eu reparei de verdade nela… de perto. Sem barulho. Sem gente. Sem distração. Cabelo meio bagunçado de sono. Rosto limpo. Olhar tranquilo. E ainda assim… Bonita pra caramba. — Oi… a Maju tá aí? — perguntei, tentando parecer normal. — A Maju tá lá em cima. — Minha mãe mandou chamar ela. Você sabe se ela tá no banheiro? — Deve tá. Eu assenti e fui até o banheiro. Bati na porta. — Ô, Maju. — Oi. — Minha mãe tá te procurando. Tu sumiu. — Tô cagando. Eu parei. Olhei pra porta. Depois comecei a rir. — Ave Maria… — falei. — Todo mundo te procurando, achando que tu veio dormir… Balancei a cabeça. — A gente colocou música lá pra tu dançar que tu gosta… e tu tá cagando? Soltei uma risada. — É, sua p***a. — Me deixa cagar em paz, pelo amor de Deus — ela respondeu. Eu ri mais ainda. E aí… Sem querer… Olhei pro lado. E a Clara tava lá. Na porta do quarto. Rindo baixinho. Tentando se controlar. E naquele momento… Não sei por quê… Mas eu gostei daquilo. Do jeito simples dela. Do jeito que ela ria sem fazer cena. Do jeito que ela só… era. Saí dali ainda rindo. Passei pela porta do quarto dela. E parei. Olhei pra dentro. Ela ainda tava ali. E antes de pensar muito… Eu falei: — Semana que vem ela vai pro baile. Dei uma pausa. — Quer ir pro baile amanhã? Acendi a luz sem nem perceber. Ela arregalou o olho na hora. — Não. Respondeu rápido. — Eu tenho muito medo disso. Eu ri. Aquele riso leve. Sem pressão. Sem maldade. — Dorme aqui amanhã então… Encostei na porta. — Que amanhã tu vai conhecer o que é bom. Falei meio brincando. Mas no fundo… Eu queria ver ela de novo. Queria ver ela fora daquele contexto. Queria entender melhor o que eu tinha sentido mais cedo. Porque não era só curiosidade. E eu sabia disso. Só não queria admitir ainda. E enquanto ela tava ali, parada, me olhando… Eu tive uma certeza estranha. De que… De alguma forma… Aquilo ali ainda ia dar história.
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