3- DELEGACIA

1475 Words
CAPÍTULO 3 VALÉRIA NARRANDO A viatura parou em frente à delegacia com o freio cantando, e meu coração pareceu que bateu no teto da boca. Desceram me puxando como se eu fosse um bicho. Mão firme no braço, algema apertando meu pulso machucado. — Anda, vagabundä — um deles cuspiu, me arrastando pelo pátio. Eu ainda tava com a cara marcada, o sangue seco no canto da boca e a roupa toda suja. Tinha gente entrando e saindo da recepção da delegacia, mas ninguém olhou duas vezes. Mulher de bandido, quebrada, algemada? Mais uma no dia. Me jogaram num banco de ferro, ali no canto do corredor. A luz branca estourando nos olhos, o cheiro de mofo misturado com suor e desespero. Um dos PMs parou na minha frente com uma prancheta na mão e um deboche na cara. — Nome completo? Eu não respondi. — Tá se achando durona? Tá achando que é bandida de verdade agora que o namoradinho morreu? — Ela acha que é a Viúva n***a do morro — outro riu. — Pena que o Macaco só deixou inimigos e o corpo no chão. Eu continuei calada. Porque se eu abrisse a boca, ia ser pra cuspir sangue de raiva. — Mete ela na cela logo — falou o mais velho, com olhar de desprezo. — Deixa ela pensar na vida. Quem sabe depois canta alguma coisa. Me levantaram à força. Me empurraram pelo corredor com as algemas cortando meu pulso. As portas de ferro ecoavam quando batiam, e cada passo pra dentro daquele lugar me tirava mais o ar. Eu não tinha feito nada. Mas aquilo ali era o meu julgamento. Sem juiz. Sem defesa. Só condenação. Quando a cela se abriu, me jogaram lá dentro com tanta força que eu caí no chão. O concreto duro me recebeu como se fosse cama. — Avisa quando quiser falar. Mas fala direito… ou volta no caixão, igual o Macaco — o policial disse, antes de bater a grade com tudo. TUM. O som da tranca rodando foi a confirmação: eu tava sozinha. Sentei no canto da cela, com o joelho encostado no peito e o rosto colado na parede fria. O sangue que secava no meu rosto ainda era dele. Do homem que me destruiu. Do homem que agora era passado. Mas mesmo morta de medo, machucada, humilhada, e com a alma em prantos… Eu não chorei. Porque no fundo, uma parte de mim sabia: Aquilo ainda não era o fim. Era o começo da minha libertação. Ou da minha queda. Não sei quanto tempo se passou. Minuto ou hora, ali dentro tudo vira o mesmo vazio. A cela era gelada, úmida, e o silêncio só era quebrado quando alguém gritava mais forte no corredor. Os gritos vinham e iam… vozes de homem, voz de mulher, risada de deboche, porta batendo. Eu tava tentando desaparecer dentro do canto da parede, tentando respirar devagar pra dor na costela não gritar mais alto que o meu orgulho. Até que ouvi o salto batendo no chão de cimento. Toc… toc… toc… Passos decididos, firmes, diferentes dos outros que eu já tinha escutado. Era de mulher. Eu levantei o rosto devagar, e ela apareceu ali, do outro lado da grade. Uniforme alinhado, cabelo preso num coque firme, rosto sério e olhar direto. Não era novata. Dava pra ver na postura. Mas também não parecia como os outros. O olhar dela era diferente. Tinha alguma coisa ali… talvez estratégia. Ou pena. Ou só jogo mesmo. — Valéria Santos. — ela falou meu nome como quem já tinha lido dossiê inteiro. — 21 anos. Morava com o traficante conhecido como Macaco. Mulher dele. Primeira-dama do morro. Você sabe que isso te torna peça importante, né? Não respondi. Só encarei. — Olha, eu sou a delegada Amanda. — ela continuou, com um tom calmo demais pro lugar em que estávamos. — Eu não sou como esses brutamontes aí. Não tô aqui pra te bater, nem pra te humilhar. Mas tô aqui pra te tirar desse buraco. Se você colaborar, claro. Dei uma risadinha seca, com o canto da boca machucado esticando devagar. — Tirar? — minha voz saiu fraca, mas firme. — Quem pode me tira daqui não veste farda, doutora. Ela cruzou os braços e se aproximou da grade. — Você acha que vai sobreviver calada? Tu acha que o sistema vai esquecer de você? Que o comando lá fora vai te proteger? Eles vão sumir contigo, Valéria. Você é mulher. Pra eles, você é só uma lembrança inconveniente. Daqui a pouco tu vai tá no jornal como mais uma morta misteriosa na prisão. Fiquei em silêncio. Ela suspirou fundo e mudou o tom. — Eu posso te dar proteção. Um nome novo. Vida nova. Mas pra isso você precisa me dar o que eu quero. — E o que cê quer? — perguntei, encarando ela de frente. — Que eu venda todo mundo que já me virou as costas? Que eu fale os nome dos cria que só tão tentando sobreviver? Ou cê quer saber onde tá o dinheiro do Daniel? Ela sorriu de leve. Ali tava. O verdadeiro motivo. — Eu quero verdade, Valéria. Quero justiça. Quero limpar aquela favela da podridão que ele deixou. Você pode ajudar nisso. E sair com dignidade. Me aproximei da grade, tão perto que quase dava pra sentir o perfume dela. — A senhora quer justiça? Então começa investigando quem mandou matar minha mãe. Quem passou fogo na minha casa. Quem me bateu a vida toda e quem me deixou anos presa num inferno sem porta de saída. Porque se é de verdade que cê quer… a primeira é essa. Eu não vivia com ele porque eu queria. Eu era o brigada. A senhora nunca vai saber o que é isso! Ela me encarou por uns segundos, sem expressão. — Você tá jogando seu futuro fora, Valéria. Eu sou sua única chance. — E eu sou o erro que ninguém esperava. — falei, voltando a encostar na parede da cela. Ela ficou parada por um tempo. Depois deu dois passos pra trás. — Quando mudar de ideia, me chama. Pode ser sua última chance. E virou as costas. Fiquei vendo o coque dela sumir no corredor escuro da delegacia, e respirei fundo. Eu podia até não ter saída naquele momento… Mas eu ainda tinha minha voz. E a minha voz, eu só ia usar na hora certa. Pra quem realmente me enxergasse como ser humano. E não como ferramenta. Porque por mais que eu tivesse sido traída por todos… Meu silêncio ainda era minha arma. E minha vingança… meu combustível. A noite parecia não passar. O concreto da cela era frio, mas o que gelava mesmo era a ideia que martelava minha cabeça sem parar: E se me mandarem pro presídio? Eu nunca pisei num. Nunca nem fui visitar ninguém. Só ouvia as histórias. Histórias de mulher sendo quebrada na porrada só por olhar errado. De quem entra inteira e sai sem alma, ou nem sai. E eu? Eu era a viúva do Macaco. Nome pesado demais pra quem vai cair no sistema. Se me jogassem numa cela com alguma mina da facção rival… já era. Eu tava fudidä. Não importa se eu nunca peguei numa arma. Se eu nunca vendi nada, nunca participei de nada. O meu sobrenome era guerra. E ali dentro, nome vira sentença. Tentei me distrair, fechar os olhos, pensar em qualquer outra coisa. Mas o som da grade da delegacia abrindo, lá longe, me fez arrepiar. Passos. Vozes abafadas. Alguém sendo levado. Alguém chegando. E se fossem me buscar pra transferir? E se a tal da proteção prometida pela delegada fosse só papo furado e ela me largasse no pátio da cadeia com o uniforme de presidiária e a plaquinha no peito escrito “primeira-dama do morro”? Fechei os olhos e imaginei. O camburão. A entrada no portão principal. As detentas de olho. As rivais sussurrando meu nome. Viúva do inimigo. E aí? Quem ia me proteger? Eu não tinha ninguém. Ninguém de sangue. Nenhuma aliada. Nenhum advogado. Só o meu silêncio. E o meu medo. Por mais forte que eu tentasse ser, por mais que eu jurasse que ia sair viva dali e me vingar de tudo… A verdade é que, naquele momento, o pavor me consumia. E se meu fim for dentro de uma cela que nem essa, mas com mais gente me odiando? Eu tava tremendo. Mas não deixei a lágrima cair. Não ia dar esse gosto pra ninguém. Se era pra cair… Eu ia cair de pé. Mesmo que fosse pra cair sozinha. Só que uma coisa dentro de mim gritava, lá no fundo. Forte. Quente. Incontrolável: – Ainda não é o fim, Valéria. Alguém vai te tirar daí. E era isso que me fazia respirar. Continua ......
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