CECÍLIA GRASSO
As empregadas me guiam para fora do banheiro, ainda com o corpo quente da água, a primeira água quente decente que senti em meses. Visto o moletom horroroso que Eleonora escolheu, um pano áspero, cinza, largo, como se eu fosse um saco de lixo. Claro que foi escolhido por ela.
A empregada mais velha, dona Rosa, ajeita o capuz e tenta sorrir para mim.
— Você está bonita, menina. — diz com aquela voz suave que tenta me dar ânimo.
— Não precisa mentir.— murmuro, puxando as mangas para esconder os roxos. — Apenas… obrigada por me tratar como um ser humano.
Ela suspira, como se carregasse culpa.
— Você devia ser tratada como filha… não assim.
Desvio o olhar. Se eu pensar nisso, eu desabo de novo.
Seguimos por um corredor estreito, que parecia mais longo do que realmente era. Eu não vinha para o andar de cima há tantos anos que o piso polido chega a me cegar. Tudo aqui era dourado, luxuoso, caro. Tudo que nunca foi para mim.
Quando viramos à direita, reconheço uma porta que sempre vi só de relance. O ateliê clandestino de Eleonora. Lugar onde ela guardava vestidos feitos sob medida para ela, onde costureiras passavam horas suturando tecidos caríssimos.
Meu coração aperta.
— É aqui? — pergunto, quase engolindo a voz.
— Foi ordem da sua irmã. — responde uma das empregadas. — Disse que você precisava escolher seu vestido.
Escolher. Que palavra bonita para uma mentira tão grande.
A porta se abre e lá está Eleonora.
Impecável como sempre. Perfeita como sempre. Uma boneca cara com o olhar de um demônio.
— Finalmente — diz ela, cruzando os braços. — Pensei que ia se demorar naquela pocilga fedorenta.
Fico imóvel, o moletom cobre meus braços, mas ela sabe exatamente o que está por baixo.
— Vem. Anda logo. Não tenho o dia todo para perder com você.
Entro devagar. O ateliê é enorme, com espelhos do chão ao teto, manequins com vestidos de seda, de renda, de brilho. Vestidos dignos de rainhas.
Mas nenhum é para mim.
Eleonora aponta para um canto. Lá está o “meu” vestido.
Eu prendo o ar sem querer.
— Isso é… sério? — pergunto, a voz falhando.
O vestido parece ter sido feito com cortinas velhas. Tecido bege, amarelado, sem forma, sem corte. Um vestido que ninguém teria coragem de doar nem para um brechó.
— Claro que é sério. — Eleonora sorri, satisfeita com minha reação. — Esse é perfeito para você. Combina com a sua… natureza.
— Minha natureza? — encaro.
— Suja. — Ela sussurra. — Bastarda.
As costureiras, que estavam ajustando um vestido para ela, fingem não ouvir.
Dona Rosa se aproxima para pegar o vestido e eu recuo instintivamente.
— Não precisa ter medo, menina. — ela tenta dizer, mas sua voz está trêmula.
Eleonora revira os olhos.
— Coloquem o vestido nela. Agora.
Duas empregadas vêm na minha direção. Eu fecho os olhos, sentindo a garganta queimar. Não é pelo vestido. É pelo simbolismo. É como se ela quisesse me lembrar, até no meu próprio casamento, quem eu sou para essa família: nada.
— Tirem aquele pano ridículo que ela está usando — Eleonora ordena.
Abro os olhos e seguro o moletom com força.
— Não. Eu consigo trocar sozinha.
— Acha que tem escolha? — Ela estala a língua. — Tirem.
Duas mãos puxam meu moletom, revelando os roxos dos meus braços. Um deles está verde, outro roxo escuro, outro quase preto.
O silêncio na sala é pesado.
Eleonora observa os hematomas como quem admira uma obra de arte.
— Ai, irmãzinha… que dó. — Ela finge uma expressão triste. — Se o Trentino ver isso, vai te devolver no mesmo dia. Ou matar você antes.
— Sabe de uma coisa? — digo, tentando manter firmeza. — Melhor assim.
Ela sorri, aproximando o rosto ao meu.
— Eu rezo para isso acontecer.
As empregadas passam o vestido pela minha cabeça. O tecido áspero raspa minha pele sensível. Ele cai m*l, fica frouxo nos ombros, curto demais nos pés. Ridículo. Humilhante.
Eleonora bate palmas.
— Perfeita! — diz com sarcasmo. — Você vai casar parecendo exatamente o que sempre foi, lixo.
O peito dói. Eu respiro fundo.
— Ok. Já acabou? — pergunto.
Ela ergue a sobrancelha.
— Acabou? Ainda nem começamos.
Voltamos para o andar de baixo. As empregadas me guiam até a sala principal, onde costureiras e mordomos circulam com caixas e bandejas. A casa está em festa, mas não por mim. Nunca por mim.
Quando entro, a mesma voz doce de dona Rosa me chama.
— Menina… trouxeram isso pra você.
Ela segura um buquê.
E é lindo.
Lindo de um jeito que dói.
Rosas vermelhas abertas como veludo, lírios brancos, pequenas flores azuis raras, laço de seda. É o tipo de bouquet que eu via apenas nas revistas escondidas que alguém deixava na lavanderia.
Meus olhos enchem na hora.
— Para… mim? — minha voz falha.
— Para você, Cecília. — Dona Rosa sorri, emocionada. — Foi entregue agora. O rapaz disse que era do seu noivo.
Meu coração tropeça.
Meu noivo.
Fillipo Trentino.
O Animal.
O Assassino.
Eu deveria sentir medo. E sinto. Mas também sinto outra coisa… esperança? Não deveria, mas é inevitável.
Nunca ganhei nada na vida. Nem um bilhete. Nem uma flor roubada. Nada.
Pego o buquê devagar, como se fosse vidro prestes a quebrar.
O cheiro me invade. As flores são tão frescas que parecem ainda vivas, como um presente de outro mundo, um mundo que nunca foi o meu.
— São lindas… — sussurro, tocando uma pétala como se fosse proibido.
Eleonora entra na sala exatamente nesse momento.
Claro.
— O que é isso? — ela pergunta com nojo.
— U-um buquê — respondo sem olhar para ela. — O meu noivo mandou.
Ela pisca, incrédula.
Depois, ri.
— Ah, pelo amor de Deus! O Trentino mandou flores pra você? Pra você?
Não digo nada.
Porque eu sei, Eleonora não pode suportar a ideia de que eu recebi algo bonito.
Ela avança e arranca o bilhete do meio das flores. Lê em voz alta com deboche:
— “Para minha noiva.” — ela ri mais alto. — Acha mesmo que esse homem quer você? Ele só quer cumprir um acordo! Você é um fardo, não uma noiva!
— Me dá isso, Eleonora — digo, puxando o buquê para perto do peito.
— Você é tão patética, Cecília. — Ela se aproxima de mim e sussurra. — Tão patética que dói.
É aí que acontece.
Sinto algo se mexendo no buquê, pequeno, rápido.
Um movimento frio contra meu pulso.
Meu corpo congela.
— O q-que…?
E então eu vejo.
Uma cabeça triangular emerge entre as rosas.
Uma cobra.
Branca, fina, mas com olhos negros de puro veneno.
Eu grito. O buquê cai das minhas mãos no chão. As flores se espalham, e a cobra desliza rapidamente, se enrolando entre elas.
As empregadas se afastam gritando.
Eu tropeço para trás, em pânico, as lágrimas caindo sem permissão.
— Meu Deus… — sussurro. — Meu Deus…
Eleonora está imóvel por meio segundo.
Depois ela gargalha.
Gargalha alto, exageradamente, como se aquilo fosse a cena mais divertida do mundo.
— Eu sabia! Eu SABIA que o Trentino não ia deixar barato! — Ela aplaude. — Ele mandou um aviso! Ele não quer paz, Cecília. Ele quer você MORTA antes mesmo do casamento!
Eu estou ofegante, a mão no peito.
— Eleonora… eu… eu pensei que…
Ela seca uma lágrima de tanto rir.
— Você REALMENTE achou que alguém mandou flores porque gosta de você? — ela pergunta. — Você é mais i****a do que eu pensava!
A cobra desliza em direção à porta, e os guardas tratam de capturá-la. Eu tremo. Me apoio na parede para não cair.
Eleonora se aproxima de mim, c***l como sempre.
— Caso você ainda não tenha entendido… — ela segura meu queixo com força. — quando você casar com o Trentino, vai morrer rápido. E você sabe disso. Todo mundo sabe disso.
Uma lágrima quente cai no meu rosto. Não pela cobra.
Mas pela crueldade.
Pela solidão.
Pelo aviso.
Eleonora sorri satisfeita com meu medo.
— Aproveite seus últimos dois dias viva, irmãzinha.
Ela sai da sala como se tivesse assistido a um espetáculo encantador.
Fico ali parada, tremendo, dona Rosa segurando meus ombros.
E, pela primeira vez em anos, sinto algo diferente do medo.
Sinto raiva.
Raiva de ser tratada assim.
Raiva de ser jogada entre feras.
Raiva de ter apenas o destino de morrer.
Eu limpo as lágrimas.
E penso.
Se eu realmente vou morrer… então eu vou lutar antes.
Nem que seja só uma vez.
Nem que seja só por mim.