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A Última Aposta

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Blurb

Victor, o temido VK, tem tudo que um homem poderia querer: dinheiro, poder, ouro e respeito. Mas existe algo que ele nunca conseguiu controlar: o vício em jogos.Amanda está ao lado dele há quase dez anos. Ela o conheceu antes do dinheiro e do poder, amou o homem por trás do apelido e sonhou construir com ele uma família longe do morro.No começo, as apostas eram apenas diversão. Até Victor começar a colocar cada vez mais em jogo e transformar o próprio futuro em uma tentativa desesperada de recuperar o que perdeu.Quando ele aposta justamente aquilo que Amanda passou anos juntando para realizar o maior sonho da vida dela, algo se quebra entre os dois.Porque Amanda ainda ama Victor, mas amar o homem que está destruindo tudo ao redor deles pode significar perder a si mesma.Ele sempre acreditou que poderia recuperar qualquer coisa. Só não imaginava que a próxima aposta poderia custar a mulher que esteve ao seu lado desde o começo.

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01 Amanda
01 — Amanda Narrando Se alguém me perguntasse, naquela época, se eu conseguia imaginar a minha vida ao lado de Victor, eu provavelmente teria rido. Não porque eu não o amasse, muito pelo contrário. Eu o amava tanto que, às vezes, chegava a ser assustador. Mas eu nunca imaginei que aquele garoto de menor expressão no morro, que eu conheci anos atrás, se tornaria o homem que hoje todos chamavam de VK. O dono do morro. O homem que fazia centenas de pessoas abaixarem a cabeça quando passava e que tinha dinheiro suficiente para comprar praticamente tudo o que quisesse. Para mim, antes de qualquer apelido, do ouro, dos carros e dos fuzis que o acompanhavam… Ele era só o Victor, meu Victor. Naquela época, ele já estava no crime, mas não apitava nada. Era só mais um garoto na correria do morro, cumprindo ordens, ganhando pouco e arriscando a vida por quase nada. E talvez tenha sido justamente por isso que eu demorei tanto para perceber que estava perdendo o homem que um dia conheci. Mas isso veio depois. Muito depois. Porque, no começo, tudo era bonito. Tudo era simples. E, se eu pudesse voltar no tempo, talvez escolhesse viver tudo novamente. Mesmo sabendo como terminaria. Eu tinha pouco mais de vinte anos quando conheci Victor. Não foi nada cinematográfico, não teve música de fundo nem chuva caindo. Foi uma tarde quente de matar, dessas em que o Rio parece decidido a derreter qualquer um. Eu estava voltando do trabalho quando parei em uma venda na subida do morro para comprar uma água. — Vai pagar ou vai ficar namorando a água? — ouvi uma voz debochada atrás de mim. Olhei para trás e vi Victor encostado no balcão. Ele vestia uma camisa preta simples, bermuda, chinelo e um cordão fino no pescoço. Não tinha ouro grosso, relógio caro, carro importado e nem os soldados andavam atrás dele. Ele era só um menino da ponta da cadeia do movimento, com um rádio simples na cintura, um sorriso folgado no rosto e olhos que pareciam sempre procurar alguma coisa para aprontar. — Você é sempre inconveniente assim? — perguntei, encarando-o. — Só quando acho a pessoa bonita — respondeu, sem piscar. — Então você deve ser inconveniente o dia inteiro — revirei os olhos. Ele riu, e eu odiei o fato de ter achado a risada dele bonita. — Victor — ele se apresentou. — Amanda — respondi. — Eu sei. Você acabou de entregar seu cartão de trabalho pra moça do balcão. Gostei de descobrir seu nome, Amanda. Saí dali aborrecida, mas com o número dele salvo no meu celular. Eu sabia o perigo que era se envolver com quem estava na vida errada, mesmo ele sendo uma patente pequena na hierarquia do morro, mas o charme dele me pegou de jeito. A primeira mensagem veio minutos depois: “Chegou bem, bonita?” Respondi secamente: “Cheguei.” Em dois segundos ele mandou: “Só isso?” “O que você queria?” “Um encontro.” Eu deveria ter recusado, mas aceitei. Nosso primeiro encontro foi simples. Victor apareceu com uma moto caindo aos pedaços, capacete na mão e o mesmo sorriso enorme. — Vai subir? — perguntou. — Essa moto funciona? — Você vai descobrir. Confia em mim. Foi a primeira vez que ele me disse aquilo. Eu subi. E foi ali que comecei a confiar nele. Nos primeiros meses, nós éramos inseparáveis. Mesmo com a rotina pesada e arriscada dele no morro, ele me buscava no trabalho, me levava para comer pastel na feira e ficava horas sentado comigo na calçada. Nós brigávamos por ciúmes, fazíamos as pazes e ríamos de tudo. Com o tempo, Victor começou a subir de cargo. Ele não era mais o garoto da ponta da rua; começou a assumir responsabilidades, a tomar decisões e a se envolver no topo dos negócios da comunidade. Aos poucos, o menino da moto velha foi desaparecendo, e no lugar dele surgiu o homem que todos passaram a respeitar e temer: VK. O dinheiro começou a transbordar. Vieram os carros importados, os relógios de luxo, as correntes grossas de ouro e a casa gigante. Mas comigo? Ele continuava sendo o mesmo Victor. Eu olhava para o chefe do morro cercado de armas e dinheiro, e ainda enxergava o garoto que dividia um pastel comigo na calçada. E foi por isso que eu fiquei. No meu aniversário, ele me deu uma bolsa cara que eu tinha comentado de passagem meses antes. — Victor, isso custou uma fortuna! — reclamei. Ele segurou meu rosto, olhou fundo nos meus olhos e beijou minha testa: — Eu posso comprar o mundo inteiro, Amanda. Mas se você não estiver nele, não serve pra nada. Eu me apaixonei ainda mais naquele dia. Foi também nessa época de ascensão ao poder que vieram as apostas. No começo, eram partidas de cartas com os aliados, apostas pequenas que ele ganhava e trazia o dinheiro rindo para pagar nosso jantar. Mas os valores foram crescendo. As mesas de jogo viraram um vício, e as somas apostadas tornaram-se perigosas. Eu não me preocupava no início porque achava que nada destruiria o que tínhamos. Criamos o sonho de sair daquela vida, comprar uma casa longe dali e ter filhos. Guardávamos dinheiro juntos. Eu acreditei em cada promessa, em cada "está tudo sob controle" que ele dizia ao voltar das mesas de jogo. Eu não sabia que, anos depois, descobriria que aquele sonho tinha se tornado apenas meu. É fácil abandonar alguém quando você deixa de amar. Difícil é olhar para o homem da sua vida e perceber que ele está apostando e destruindo tudo o que vocês construíram e que nem todo o poder do mundo é capaz de salvar quem se entrega ao próprio vício.

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