02 VK

1253 Words
02 — VK Narrando Se você me perguntasse naquela época se eu me imaginava rendido por uma patricinha de cabelo escorrido, eu teria te mandado pra aquele lugar. Na minha cabeça, eu não tinha tempo pra essas paradas de romance. Minha vida no morro sempre foi correria, visão de futuro e conquistar meu espaço. Só que a Amanda mudou essa p***a toda sem nem fazer esforço. Antes mesmo de puxar assunto com ela naquela venda, eu já sabia muito bem quem ela era. Eu via essa garota passando de longe. Branquela, cheia de marra, aquele cabelo liso e preto caindo pelas costas… Linda pra c*****o. Um absurdo de mulher. Toda vez que ela passava pela pista voltando do trabalho, o bagulho parava. Mas ela andava reta, sem olhar pro lado, fingindo que o mundo ao redor não existia. Aí eu fiz o que qualquer cara surtado faz: fui atrás. Descobri o i********: dela. E namoral? Eu passei semanas só na moita, criando conta fake só pra olhar os stories e ver o feed daquela mulher. Ficava encarando a tela do celular feito um o****o, vendo as fotos dela sorrindo, os vídeos bobos de rotina, o jeito simples que ela tinha. Quanto mais eu olhava, mais doente eu ficava. Ela era diferente de todas as mulheres que já tinham passado pela minha vida. Não tinha futilidade, não tinha interesse escancarado. No i********:, ela parecia inalcançável. Mas eu sou o tipo de cara que se cismar com uma coisa, só paro quando conquisto. No dia da venda, quando vi ela parada ali, namorando a garrafa de água com aquele ar de cansada do trabalho, eu soube que era a minha chance. Tive que mandar aquela piadinha ridícula só pra ver ela virar o rosto pra mim. E quando ela virou, deitou aqueles olhos castanhos em cima de mim e me deu uma resposta atravessada… Esquece. Ali eu fui de ralo. Ela achou que o número no celular tinha sido surpresa. m*l sabia que eu já tinha decorado até o horário que ela pegava o ônibus. A partir daquele dia, a minha vida virou um inferno bonito. Eu me apaixonei no jeito que ela tentava se fazer de dura, na marra que ela dobrava no momento em que subia na minha moto velha e segurava na minha cintura. Ela achava que eu estava só curtindo a vida, mas a verdade era uma só: eu já estava completamente louco por ela. Por ela, eu queria dar o mundo. Queria botar todo o dinheiro que existia no bolso dela só pra ver aquele sorriso de novo. A Amanda via o Victor quando ninguém mais via. E foi exatamente isso que me destruiu mais tarde… porque enquanto ela se apaixonava pelo cara da moto, eu já estava disposto a vender a minha alma pro morro pra ter certeza de que nunca, em hipótese alguma, faltaria nada pra minha mulher. Depois que a gente começou a ficar, eu já sabia que não queria mais nenhuma outra. Só que vai tentar colocar isso na cabeça da Amanda... p**a que pariu, a mulher parecia uma fortaleza. Ela não facilitava nada. Teve o dia em que decidi dar um basta nessa palhaçada de "só ficar" e pedir ela em namoro de vez. A gente estava sentado no degrau da calçada, num final de tarde, e eu soltei na lata que ela era minha namorada. Ela olhou pra minha cara, deu uma risada de deboche e cruzou os braços: — Ah, você tá doido, né, Victor? Você olha bem pra minha cara e acha que eu quero ser corna? Não sei que ideia é essa que você inventou na sua cabeça. Caralho, aquilo me atingiu em cheio. Olhei bem pra ela, puto de verdade: — Pô, Amanda, você tá me insultando agora, sabia? Isso aí é um insulto pesado, hein. Qual é a diferença entre ficar do jeito que a gente já tá ficando e namorar de verdade? ela rebateu no mesmo tom, sem piscar: — Ué! Ficar, eu sei que você pode ficar com outras mulheres e eu não tenho nada a ver com isso. Agora, namorando? Olha bem pra minha cara, acha que eu vou namorar pra ser chifruda por bandidinho de morro? Eu lá tenho cara de quem nasceu pra levar chifre? Mano, a garota era difícil pra c*****o. Nem na hora de aceitar o namoro ela facilitou. Tive que me desdobrar, jurar por tudo quanto é mais sagrado que ela era a única, até conseguir fazer aquela branquela marrenta ceder. E se você acha que namorar foi difícil, pra fazer ela dormir comigo a primeira vez então... p**a que pariu, foi um teste de paciência. Toda vez que eu chamava ela pra ir pra minha casa, era uma batalha. Ela me dava mil desculpas, falava que não era qualquer uma, que tinha o horário dela, que não ia ficar dormindo na casa dos outros assim sem mais nem menos. Eu ficava doido da vida, mas no fundo? Essa marra dela, essa postura de mulher difícil de dobrar, era exatamente o que me fazia ficar cada vez mais fissurado. A Amanda não se vendia por conversa fiada, não caía em papo de homem. Para ter aquela mulher do meu lado, eu tinha que provar todo santo dia que merecia estar ali. E essa marra toda de durona da Amanda me transformou completamente. Os moleques nem acreditavam. Teve uma época, antes do morro ser todo meu, que eu ficava de plantão na esquina com a rapaziada. Madrugada fria, fuzil pendurado no peito, rádio estalando no ombro... Quando dava a hora de render o plantão, a molecada já mandava aquela: — Aê, VK! Partiu pagode lá no final do beco? Tem copão, várias novinhas, bora esticar essa madrugada aí! Eu já tirava a bandoleira do pescoço, guardava o ferro e mandava na lata: — Tá maluco, filho? Vou pra casa é agora ficar com a minha mulher. Rapaz, os caras caíam na gargalhada na hora. — p**a que pariu, menor! Tu tá muito p*u mandado, namoral! — o Pixote zoava, apontando pra mim. — O cara tá com medo da branquela, viado! Olha lá, VK com medo de levar bronca em casa! Olhei bem pro comédia, dei um sorriso de canto e balancei a cabeça: — Medo o c*****o, mermão. Medo não, não tenho medo não. Eu tenho é medo de perder ela, mano. É diferente, é diferente pra c*****o. — Ah lá, o brabo do morro tá amaciado! — os moleques continuavam, me zoando em coro, me chamando de p*u mandado, arreganhando os dentes. Eu nem entrava na pilha. Só dava aquela risada gostosa, porque eu sabia muito bem a mulher que eu tinha em casa me esperando na cama. — Ah, f**a-se, p***a! — soltei, rindo pra c*****o junto com os caras. — Quer saber de uma coisa? Quem manda em mim é minha mulher mesmo, c*****o! É minha mulher mesmo e acabou! Aonde minha mulher tá, é ela que tá mandando. Se eu estiver aqui no plantão com vocês agora, com fuzil na mão, e ela ligar pro meu telefone mandando eu subir, meu filho, quem ainda tá mandando nessa p***a aqui é ela! A molecada rachava o bico, me zoando até dizer chega, e eu só rindo junto. Eles podiam falar o que quisessem, me chamar do que fosse. No final das contas, enquanto eles gastavam onda na pista, tudo o que eu queria era encostar a cabeça no colo da minha branquela e esquecer o resto do mundo.
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