03 VK

775 Words
03 — VK Narrando Cheguei em casa na surdina, tentando não fazer barulho, mas o cheiro de comida quente entregou logo que ela tava me esperando. A Amanda tinha preparado a janta pra gente. A gente jantou junto, trocando ideia sobre o dia. Como já era de madrugada, a gente nunca conseguia dormir cedo mesmo. A adrenalina do morro demorava a baixar e a mente ficava acelerada. Terminei de comer, encostei na cadeira e vi o maço de baralho em cima da mesa. — Bora jogar? — mandei, dando aquela provocada. Ela me olhou, desconfiada, mas já puxando a cadeira pra sentar de frente pra mim: — Bora. Mas hoje você não me ganha não, Victor. A gente começou a jogar ali na mesa da cozinha. No começo, não era nada de dinheiro, nem de morro, nem nada disso. A gente apostava as paradas de casa mesmo, coisa simples. — Se eu ganhar, você lava essa louça todinha da janta e ainda limpa o banheiro amanhã — ela mandava, brava, distribuindo as cartas. — E se eu ganhar, branquela, tu faz aquela massagem nas minhas costas e fica quietinha no meu dengo — eu rebatia, rindo da cara dela. O problema é que eu jogava bem pra c*****o. Carta comigo era facilidade. Primeira rodada, ganhei. Segunda rodada, ganhei de novo. A Amanda foi ficando com aquele bico gigante, a testa franzida, estressada pra c*****o, batendo as cartas na mesa com força. Na terceira rodada, eu vi que o bagulho já tava ficando perigoso. Ela olhou pra mim com um ódio que, se olhar matasse, eu já tava a sete palmos. Aí eu pensei: "Mano, se eu ganhar de novo, essa mulher me joga no sofá e nem o b*******a eu vou ter hoje." Fiz a minha melhor cara de desentendido, olhei pras cartas, fingi que tinha feito um movimento errado e entreguei o jogo na cara dura. — c*****o, dei mole! p**a que pariu, perdi — mandei, fingindo indignação. Ela olhou pras cartas na mesa, olhou pra mim, e aquele sorriso vitorioso e debochado surgiu no rosto dela na hora. — Eu não falei?! Eu disse que ia ganhar, você que é muito afobado! Pode ir tirando o tiragosto da mesa e separando a bucha pra lavar a louça! Eu olhei praquela branquela rindo, toda orgulhosa de ter me "vencido", e só consegui dar r**o de raia mentalmente. Deixava ela ganhar mesmo, fingia que era r**m no jogo só pra ver ela feliz. Afinal, perder na carta pra Amanda era o único jeito de garantir que eu não ia dormir na seca de madrugada. Quando ela finalmente se deu por satisfeita de me ver lavando a louça, veio pro quarto. A branquela deitou do meu lado, encostou a cabeça no meu peito e não demorou cinco minutos pra pegar num sono pesado, abraçada na minha cintura. O quarto tava no breu, só com o barulho do ventilador de teto e a respiração fundinha dela no meu pescoço. Puxei o lençol, cobri a gente e fiquei ali, sentindo o peso bom dela em cima de mim. Uma mão minha ficou fazendo carinho naqueles cabelos lisos, e com a outra eu puxei o celular do criado-mudo. Naquela época, o bagulho era tudo muito simples. Nada dessas loucuras de hoje em dia. Abri o aplicativo de aposta no telefone, com a tela no brilho mínimo pra não clarear o quarto e não acordar minha mulher. Tinha rolado uns jogos da Champions e do Brasileirão mais cedo, e eu tinha deixado umas moedinhas pingadas lá. Uns palpites bobos, coisa de bilhete pronto, múltipla de futebol. Ralei o dedo pra atualizar a página e dei de cara com o saldo verde. Tinha batido tudo. Duas apostas simples que fiz à tarde tinham virado mais de três mil reais. Olhei pro visor, dei aquele sorriso de canto, bem quieto, sem dar um pio. Era uma sensação boa pra c*****o. Parecia dinheiro fácil, um lucro limpo que vinha só no estalar de dedos, sem precisar fazer força, sem precisar de fuzil, sem estresse. Dei um beijo no topo da cabeça da Amanda, sentindo o cheiro do shampoo dela. Pensei comigo: "Pronto. Amanhã já tiro esse valor pra comprar aquela correntinha que ela ficou namorando na internet." Pra mim, naqueles tempos, aposta era só isso. Um jogo bobo de aplicativo no celular, um dinheiro extra caindo na conta de madrugada enquanto a minha mulher dormia no meu peito. Eu achava que tinha o controle de tudo na palma da mão. Não fazia ideia de que aquele saldo verde no celular era só o começo do buraco onde eu ia me enfiar mais tarde.
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