Capítulo 3

1523 Words
O último dia de novembro amanheceu envolto em um calor abafado, o tipo de calor que gruda na pele e parece sussurrar promessas de tempestade. O ar tinha cheiro de grama recém-cortada misturado ao asfalto quente, e até o vento parecia cansado de se mover. Clara saiu do colégio acompanhada de duas amigas, rindo alto, o som leve da juventude contrastando com o barulho dos carros e o burburinho da saída das aulas. A mochila pendia de um ombro, o uniforme colado ao corpo pelo calor, e os cabelos, soltos e rebeldes, refletiam a luz intensa do meio-dia. Havia algo de despreocupado nela — uma liberdade inconsciente, típica de quem ainda não aprendeu o peso das escolhas. Do outro lado da rua, Heitor observava. O carro estacionado à sombra de uma árvore, o motor desligado, os óculos escuros escondendo o olhar que insistia em segui-la. Não deveria estar ali. Sabia disso. Mas, de alguma forma, o acaso — ou o que ele chamava de destino m*l-intencionado — o havia levado até aquele ponto novamente. Cada gesto dela o atraía como se o mundo se resumisse àquele instante: o modo como jogava os cabelos para trás, como gesticulava ao falar, como ria de algo simples. Havia vida demais em Clara. E aquilo o desarmava. Então, um garoto se aproximou. Tinha a mesma idade dela, talvez um pouco mais novo, uniforme igual, sorriso fácil. Cumprimentou Clara com naturalidade e os dois começaram a conversar, rindo de algo que Heitor não podia ouvir, mas podia sentir. Havia uma leveza entre eles — uma leveza que ele sabia que não podia oferecer. A risada dela ecoou na cabeça de Heitor como uma lembrança recente demais para ser esquecida. O toque breve do garoto em seu braço, o modo como ela o empurrou de brincadeira, rindo, fez algo apertar dentro dele. Não era apenas ciúme. Era algo mais profundo — o peso do que é proibido, a dor de quem sabe que o desejo que sente não tem lugar no mundo. Ele desviou o olhar, tentando se convencer de que não havia nada ali além de uma fantasia tola. Mas, no fundo, sabia que estava mentindo para si mesmo. Clara não era mais uma adolescente qualquer. Ela era o ponto de luz que acendia um lugar dentro dele que ele pensava já ter esquecido. E por mais errado que fosse, aquele sentimento ganhava força a cada vez que a via. O sol queimava forte quando ela e o garoto começaram a caminhar pela calçada, lado a lado, conversando com naturalidade. Heitor acompanhou com os olhos, imóvel. Queria se convencer de que aquilo era o certo — que ela deveria sorrir para alguém da idade dela, alguém leve, simples, sem passado. Mas o coração o traía, pulsando num ritmo que o deixava envergonhado. Ela se afastava, o som dos passos se misturando ao burburinho da rua. E quando virou a esquina, rindo mais uma vez, Heitor fechou os olhos e deixou escapar um suspiro baixo — o tipo de suspiro que carrega uma despedida silenciosa. Dentro do carro, o silêncio era quase sufocante. O volante entre as mãos, o corpo imóvel, os pensamentos em desordem. Ele sabia que precisava se afastar, que o que sentia por ela era uma linha tênue entre o certo e o que poderia destruí-los. Mas o coração não compreendia a linguagem da razão. A tarde se arrastou preguiçosa. O calor úmido tornava o ar denso, e Clara sentia que o dia não acabava nunca. Havia passado horas tentando estudar na casa de um amigo — fórmulas, datas, revisões intermináveis — mas nada fixava na mente. As palavras dançavam no papel, e o nervosismo crescia a cada página. O vestibular de fisioterapia, o colégio, o futuro… tudo parecia um peso enorme sobre seus ombros. Precisava de ar. Precisava de silêncio. Saiu para caminhar pelo parque que ficava a algumas quadras dali. O parque era um refúgio de sombras e cheiros. O vento carregava o aroma de folhas secas, o som distante das cigarras e o farfalhar das árvores. Caminhou devagar, os pensamentos se misturando ao barulho das folhas sob seus pés. Não sabia exatamente o que procurava — talvez apenas um pouco de calma, talvez uma resposta que nem ela saberia formular. Quase tropeçou em uma raiz exposta e, instintivamente, alguém deu um passo para o lado, desviando dela. — Desculpa! — disse Clara, recuperando o equilíbrio. Levantou os olhos e congelou. Heitor estava ali. A poucos metros de distância. O macacão azul de serviço marcava os ombros largos, os cabelos desalinhados pela pressa, as mãos ainda sujas de graxa. Mas o que realmente a paralisou foi o olhar dele — aquele olhar firme, que parecia atravessá-la. O coração dela acelerou de imediato. — Você… — começou, hesitante. — Eu também não esperava — respondeu ele, num tom contido, quase rouco. — Coincidência. Coincidência. A palavra pareceu flutuar no ar, carregada de um significado que os dois evitavam nomear. Ele ajeitou o boné, tentando disfarçar o nervosismo que sentia ao vê-la ali. Tinha acabado de atender um chamado nas proximidades, mas, ao cruzar com ela, o resto do mundo perdeu o sentido. — Mora por aqui? — perguntou ele, tentando soar casual. — Não… estava estudando na casa de um amigo — respondeu ela, desviando o olhar. — Mas minha cabeça não tá ajudando muito. Saí pra caminhar, tentar pensar. O silêncio entre eles foi longo o bastante para se tornar desconfortável. O som distante das crianças brincando no parquinho, o farfalhar das folhas, o zumbido de um inseto próximo. Tudo parecia mais alto, como se o mundo inteiro esperasse a próxima frase. Heitor se arriscou: — Esse amigo… é um código pra namorado? Clara soltou uma risada curta, mas o olhar traiu o riso. — Se eu me interessasse por alguém como ele, tudo seria mais… simples — murmurou. — Mas não é o caso. A frase pairou no ar, densa, carregada de tudo que não podia ser dito. Heitor desviou o olhar, tentando conter o impulso de sorrir. Mas o coração dele já estava acelerado demais. Queria responder, queria dizer que entendia perfeitamente, mas qualquer palavra errada poderia cruzar a fronteira entre o que era certo e o que o mundo condenaria. — Então… você tem alguém? — perguntou, quase num sussurro. Ela hesitou. Os olhos marejados pela confusão interna. — Não. — A resposta saiu rápida, mas doeu. — Parece que tudo o que eu quero tá fora do alcance. O vestibular, as provas, a vida… — ela parou, respirou fundo e completou, com a voz baixa — você. Heitor sentiu o chão desaparecer por um instante. Aquelas palavras o atingiram em cheio, como se alguém tivesse arrancado o ar de seus pulmões. Queria dizer algo, qualquer coisa, mas a mente e o corpo entraram em guerra. — Clara… — murmurou, e a voz dele falhou um pouco. — Eu não posso te prometer nada. Nem futuro, nem certeza. Só posso sentir. E sentir… às vezes é o que mais machuca. Ela olhou pra ele, e o olhar dizia tudo que a boca não ousava: eu sei. — Mas sentir sozinha também machuca — disse, com um fio de voz. — E eu… eu não consigo evitar pensar em você. O tempo pareceu parar. O vento cessou. Até o som dos pássaros desapareceu por um instante. Heitor respirou fundo, lutando contra a vontade de se aproximar. — Impossível de acontecer — disse ele, com um meio sorriso triste. — Mas também impossível de esquecer. Caminharam lado a lado por alguns minutos, em silêncio. As sombras das árvores dançavam sobre o chão rachado, e o som das folhas os acompanhava. Cada passo carregava uma tensão invisível, como se o universo inteiro conspirasse para aproximá-los — e, ao mesmo tempo, lembrá-los de que não podiam. Quando chegaram à esquina onde os caminhos se separavam, ela parou. Ele também. Por um instante, ficaram apenas se olhando, como se aquele olhar fosse o único meio de tocar o que não podiam tocar. — Posso te acompanhar até aqui — disse ele, com um tom de cuidado. — E parar antes que o destino resolva brincar com a gente de novo. Ela sorriu, nervosa, tentando disfarçar o tremor na voz. — Talvez o destino goste de repetir coincidências. Heitor segurou o olhar dela, e o sorriso se transformou em algo mais doce, mais resignado. — Então espero que ele insista mais uma vez. Ela deu alguns passos para trás, o coração batendo descompassado, antes de virar a esquina. Heitor permaneceu ali, imóvel, observando-a se afastar até que desaparecesse entre as árvores. O vento soprou de leve, levantando o ** da calçada e trazendo consigo o perfume suave do cabelo dela. Ele fechou os olhos por um instante e deixou escapar um murmúrio que só o vento ouviu: — Coincidência, nada… isso é castigo. Entrou no carro, ligou o motor e ficou ali, parado, com as mãos firmes no volante, sem coragem de ir embora. Porque, no fundo, sabia que o destino não repete coincidências — ele cria armadilhas. E Heitor, mesmo sem querer, já havia caído completamente.
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