Capítulo 19

1178 Words
Heitor ainda tentava entender como tudo aquilo estava acontecendo. Horas antes, estava coberto de graxa, pensando em prazos e peças atrasadas; agora, Clara estava sentada no banco do passageiro do seu carro, com os cabelos soltos sorrindo como se o mundo inteiro tivesse parado pra eles. O motor ronronava leve pela estrada de terra que levava até o alto da colina, o lugar onde ele às vezes ia pensar. O céu de novembro estava limpo, o sol descia devagar, tingindo o horizonte de dourado e laranja. — Você devia ter me avisado — ele disse, sem conseguir esconder o sorriso. — E estragar a surpresa? Nem pensar. — Quase me matou do coração. — Pelo menos agora tá sorrindo. Quando cheguei, parecia que o mundo tava pesando nos seus ombros. — Tava. — Ele suspirou. — Esses meses sem te ver me fez lembrar dos meses em achei que tinha te perdido para sempre. — Mas dessa vez tínhamos as mensagem e telefonemas p — Ela olhou pra com os olhos cheios de amor . — Eu nunca mais quero ficar tanto tempo assim longe de você. - Não vai ficar eu prometo. O vento entrava pelas janelas abertas, bagunçando o cabelo dela, e ele sentiu um arrepio familiar. Por alguns segundos, ficaram em silêncio, apenas o som do carro e o canto dos pássaros ao longe. Quando chegaram ao topo da colina, Clara desceu antes que ele desligasse o motor. Tirou da bolsa uma sacola de papel, toda amassada. — Não é nada demais — ela disse, meio envergonhada. — Mas eu queria que você tivesse algo pra lembrar desse dia. Ele se aproximou, curioso. Dentro, havia uma camisa simples, azul-marinho, e um pequeno chaveiro de metal com o formato de um fusca. Heitor olhou o presente, depois pra ela. — Azul, igual o seu. — Pra você nunca esquecer de onde veio a primeira reforma que a gente dividiu. Ele sorriu, emocionado. — É o melhor presente que já ganhei. — É o único que eu podia te dar. — E é o suficiente. — Ele segurou o rosto dela e a beijou com ternura. O beijo foi lento, doce, o tipo que não precisa provar nada. Ali, no alto da colina, com o vento soprando e o sol se despedindo, o tempo pareceu suspenso. Depois, sentaram-se sobre o capô do carro, observando o pôr do sol. Ela abriu uma pequena marmita que havia trazido — sanduíches, frutas e uma garrafa de suco. — Você trouxe um piquenique? — Claro. O aniversariante merece jantar com vista. Ele riu. — Você pensou em tudo. — Eu pensei em você. Comeram devagar, rindo de lembranças bobas — a primeira vez que ele tentou ensinar Clara a trocar o óleo do Fusca, o quase atropelamento, o encontro na cafeteira. Entre risadas e olhares, a tarde virou noite. Quando o céu se encheu de estrelas, Clara encostou a cabeça no ombro dele. — Você sabe que é meio doido, né? — ela disse. — Essa coisa de a gente se encontrar assim, de tempos em tempos. — Doido ou inevitável? — ele provocou. — Pode ser um pouco dos dois. Heitor ficou em silêncio por um momento, olhando o horizonte escuro. — Às vezes eu fico pensando se vou aguentar essa distância por muito tempo. — Eu também penso. — Ela olhou pra ele. — Mas toda vez que te vejo, parece que o tempo entre uma visita e outra some. — É, some mesmo. — Ele sorriu de lado.— Até o motor mais teimoso dá partida de novo quando te vejo. Ela riu, e o som da risada dela o fez sentir que valia a pena esperar quantos dias fossem necessários. Na manhã seguinte, Clara acordou com o barulho de chuva fina batendo na janela. Estavam no apartamento dele em cima da dodixjna. Heitor já estava de pé, preparando café na cozinha — o cheiro se espalhava pelo ar, misturado ao som do rádio baixo. Ela o observou por um instante, em silêncio. O jeito como ele mexia o café, o olhar tranquilo, a barba por fazer. Era o tipo de cena simples que dava vontade de guardar num canto do coração pra revisitar nos dias de saudade. — Tá chovendo. — Ela disse, levantando-se.- Meu ônibus sae em uma hora. Eu ainda nem fui eja estou querendo voltar. - Nós não vamos a lugar nenhum até essa chuva passar. - Nós? - Ela levantou os olhos, surpresa. — Heitor, é muita estrada. Você vai chegar morto de cansaço. — E daí? — Ele deu de ombros. — Eu descanso no fim de semana antes de voltar. Clara sorriu, meio vencida pela teimosia doce que só ele tinha. — Você vai ficar pro fim se semana? — Só se você quiser — Ele respondeu, aproximando-se. — Vai arrumando aí que eu guardo as coisas no carro. Ele sorriu passando os braços pela cintura dela por trás. — Obrigada por me fazer companhia ontem. Você é o melhor presente que eu podia ter ganhado. Ficaram assim por alguns minutos, apenas ouvindo o som da chuva. Quando eles partiram a chuva havia parado, a estrada estava úmida, refletindo as luzes do entardecer. O esportivo preto cortava o asfalto com suavidade, e o som baixo do motor preenchia o silêncio entre os dois. Clara observava a paisagem passar pela janela — os campos, as pequenas cidades, o céu ficando violeta à medida que o sol se escondia. — Não acredito que você realmente vai me levar para casa — disse, quebrando o silêncio. — Eu não conseguiria ver você partir tão rápido assim depois de tantos dias de espera. — ele respondeu, sem tirar os olhos da estrada. Ela riu, cruzando as pernas sobre o banco. — Promete então que vai voltar pra mim logo. — Essa é a promessa mais fácil do mundo. Por alguns minutos, ficaram em silêncio outra vez. Não era um silêncio desconfortável, era aquele tipo que só existe entre duas pessoas que se entendem mesmo sem palavras. Heitor colocou uma música no rádio, uma canção antiga, suave, daquelas que falam de amor e estrada. Clara recostou-se, olhando pra ele. O rosto iluminado pelas luzes do painel, o jeito concentrado com que segurava o volante, o olhar firme, mas sereno. As estrelas pontilhavam o firmamento, e o farol do carro recortava a noite em faixas de luz. Clara encostou a cabeça no banco, os olhos semicerrados. — Você tá com sono? — ele perguntou. — Um pouco. — Dorme. Eu te acordo quando chegarmos. Ela sorriu, pegando a mão dele de novo. — Só se prometer não dirigir rápido demais. — Prometo. — Ele apertou os dedos dela, mantendo a outra mão no volante. O ronco constante do motor embalava a noite. Clara adormeceu, e Heitor ficou em silêncio, observando a estrada e o rosto tranquilo dela iluminado pela luz do painel. Aquele era o tipo de momento que ele queria congelar — só os dois, o som da respiração dela, o vento do lado de fora.
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