Capítulo 6

1535 Words
O dia amanheceu silencioso, como se até o tempo tivesse esquecido de acordar. O céu era de um cinza pálido, e a luz que entrava pela janela trazia consigo um ar de despedida. Clara fechou a porta do apartamento com as mãos trêmulas, sentindo o eco do clique da fechadura ressoar como uma sentença. Do lado de fora, a vida continuava — carros passando, vozes de desconhecidos, o som abafado de um cachorro latindo em algum quintal. Mas ali dentro, só existia o vazio. Os pais haviam partido naquela manhã, depois de um fim de semana de caixas abertas, móveis montados e tentativas disfarçadas de não chorar. A mãe despediu-se com um sorriso que doía de ver — aquele sorriso frágil de quem quer parecer forte. O pai prometeu ligar todos os dias, e ela prometeu que estaria bem. Mas agora, sozinha, com o silêncio se espalhando pelas paredes brancas, Clara percebeu o quanto mentiras podem ser ditas com ternura. Sentou-se no chão frio da sala, abraçou os joelhos e deixou o tempo passar sem pressa. O apartamento cheirava a tinta e saudade. O som distante da cidade entrava pela janela, e o coração dela batia rápido demais para quem estava parada. Queria chorar, mas não sabia bem por quê — se era medo, solidão ou apenas o peso de estar sozinha pela primeira vez. Havia algo de c***l naquele começo: o futuro a esperava, mas o passado ainda a segurava pelo pulso. À noite, o celular vibrou. Era a mãe. Clara atendeu, tentou sorrir pela voz, e disse que estava tudo bem — mas o som que saiu era rouco, distante, quase oco. Depois do telefonema, preparou um chá que esfriou antes de ser bebido, comeu um pedaço de pão sem sentir o gosto e foi deitar-se. O colchão novo ainda era duro, o travesseiro cheirava a loja, e o teto parecia alto demais. Demorou a dormir, e quando o sono finalmente chegou, trouxe com ele o rosto de Heitor. O olhar calmo, o sorriso contido, o som imaginário de um motor distante. Sonhou que ele a chamava de “pirralha” com aquele tom entre o carinho e a provocação. Quando acordou, a ausência dele pesava mais do que o corpo. O amanhecer chegou tímido, com o som dos ônibus e o burburinho da cidade. Era o primeiro dia de aula. Clara vestiu-se devagar, tentando encontrar coragem dentro das roupas. Calça jeans simples, camisa branca, o cabelo preso de qualquer jeito. No espelho, m*l se reconheceu. Parecia mais adulta do que se sentia. Saiu cedo, o coração batendo rápido — o frio da manhã cortando o rosto, os olhos atentos ao desconhecido. A nova cidade tinha cheiros diferentes: café fresco vindo das padarias, o jornal sendo vendido nas esquinas, o perfume de flores murchas nas calçadas. Cada detalhe parecia um lembrete de que ela não estava mais em casa. E ainda assim, havia algo bonito nessa sensação crua de estar viva, ainda que assustada. Quando chegou à faculdade, o prédio imponente a fez prender a respiração. Grupos de jovens riam e se abraçavam, tiravam fotos, faziam planos. Ela observava à distância, sentindo-se uma peça fora do lugar. Por um instante, quis voltar no tempo — para a rua onde o via chegando em seu carro, o olhar distraído, as mãos manchadas de graxa. Mas o tempo não volta. E a vida, impiedosa, não espera. Respirou fundo, ajeitou a bolsa no ombro e atravessou o portão. O barulho das conversas a envolveu, mas nada parecia realmente atingi-la. Era como se andasse em outra frequência, um pouco fora de sintonia com o mundo. Para Heitor, os dias voltaram a ser longos. O som metálico das ferramentas, o cheiro de graxa, o zumbido constante dos motores — tudo aquilo que antes era rotina agora soava como um ruído de fundo, um disfarce para o vazio que o consumia. Chegava cedo à oficina, antes mesmo do sol nascer. O chão ainda úmido refletia as luzes dos postes, e o vento frio da madrugada trazia consigo o cansaço de quem não dorme bem há dias. Ele abria o portão de ferro sozinho, respirava o cheiro de óleo e metal, e mergulhava no trabalho como quem busca redenção. Consertar carros era o que sabia fazer — e, de algum modo, era também sua forma de tentar consertar o que se quebrou dentro dele. Mas o problema era que tudo lembrava ela. O banco de couro da caminhonete tinha o mesmo tom do banco da padaria onde a vira pela primeira vez. O reflexo dourado de um cabelo de cliente o fazia parar por um instante, acreditando que era Clara. A risada de uma moça que esperava o carro sair lembrava tanto a dela que o coração errava o compasso. — Heitor, tá tudo certo com o câmbio do Gol? — perguntou um dos mecânicos, puxando-o de volta. Ele assentiu, enxugando o suor da testa com o antebraço, tentando disfarçar o olhar distante. Trabalhar até o corpo doer era o único jeito de não pensar. Porque, quando parava, tudo voltava — a lembrança do sorriso dela, o brilho dos olhos, o som leve da voz. E o que era doce agora doía. Às vezes, pegava o celular e ficava olhando a tela em branco. Não havia nada ali — nenhum número, nenhuma mensagem, nenhum rastro. Nunca teve coragem de pedir o contato dela. Nunca soube o endereço, nem o sobrenome. Era como se ela tivesse sido um sonho que a vida lhe deixou ter por alguns dias — e depois arrancou sem aviso. À noite, quando todos iam embora, ele ficava. O barulho da cidade diminuía, e a oficina se tornava um templo de ecos. O estalar do metal que ainda esfriava, o som distante de um carro passando, e o bater compassado do próprio coração. Sentava-se no banco de madeira, olhava o calendário na parede e contava os dias. Mas o tempo, em vez de aliviar, parecia esticar a saudade até doer. O rádio velho tocava músicas antigas — vozes arrastadas, letras sobre amores que o vento levou. Heitor deixava tocar. Às vezes fechava os olhos e via Clara ali: o sorriso breve, o cabelo bagunçado, o olhar curioso e rebelde. E então, como quem desperta de um sonho bom, voltava ao som da chave inglesa batendo, ao cheiro de gasolina. Era assim que vivia: entre o que foi e o que não seria mais. Nos fins de semana, dirigia sem destino. Pegava a estrada que saía da cidade e seguia por longos quilômetros, como se a distância pudesse curar o que o tempo não curava. O rádio tocava baixo, o vento entrava pelas janelas, e o pôr do sol tingia tudo de dourado. Em certos momentos, achava que ia vê-la surgir à beira da estrada — como uma miragem, sorrindo, chamando-o de volta. Mas era só o vento, sempre o vento, levando e trazendo lembranças. Clara, por sua vez, tentava se adaptar. As aulas começaram de verdade. Os professores falavam sobre teorias, projetos, prazos — e ela anotava tudo, como quem tenta se distrair com o som das canetas e o virar das páginas. Nos intervalos, os colegas riam alto, trocavam piadas, combinavam festas. Ela sorria, respondia, mas sua mente vagava. Às vezes, pegava o celular e abria a câmera, sem saber por quê. Quase tirava uma foto, quase mandava uma mensagem — mas para quem? À noite, o apartamento a esperava silencioso. O relógio na parede marcava as horas devagar, e o som dos vizinhos lá fora era o lembrete de que ela não fazia parte de nada ainda. Fazia jantares simples, comia em pé, olhava pela janela. O vento trazia os cheiros da cidade — chuva, fumaça, vida — e, em meio a tudo, o vazio persistia. Às vezes, voltava da faculdade e passava por uma oficina no caminho. O som das ferramentas e o cheiro de óleo faziam o peito apertar. Mesmo sabendo que não era ele, por um instante imaginava que poderia ser. E, por um segundo, sentia-se viva de novo. No fim de cada dia, deitava-se tarde, com os olhos abertos, olhando o teto. Pensava nele. No que poderia ter sido. No que talvez ainda fosse, se o destino tivesse sido um pouco mais gentil. O sono vinha com dificuldade, e quando vinha, trazia o mesmo sonho: Ela caminhando pela rua, o carro dele parando ao lado, o sorriso dele abrindo devagar. E antes que pudesse alcançá-lo, acordava. Heitor também sonhava. Sonhava com a risada dela, com o vento do verão, com o cheiro doce que ficava quando ela passava. Nos sonhos, tudo era fácil. Mas a vida real amanhecia dura, fria, cinza. E assim, dois mundos seguiam — paralelos, silenciosos, distantes. Ela tentava construir um novo começo. Ele tentava sobreviver ao fim. E entre eles, a saudade crescia, paciente, invisível, como uma raiz que se espalha por dentro da alma. O sol nascia e morria todos os dias, indiferente à distância entre os dois. Mas, em algum lugar entre o barulho do motor e o eco das ruas novas, havia um mesmo pensamento, uma mesma ausência pulsando em ritmos iguais. E talvez, só talvez, fosse isso o que ainda os mantinha vivos.
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