Creio que quase sempre é preciso um golpe de loucura para se construir um destino.
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Aos nove anos de idade, eu assisti Queima de Arquivo, um ótimo filme e que me possibilitou naquela época entender sobre proteção a testemunha, Vanessa Williams fez um ótimo papel no filme e eu acho que sei como foi representar uma testemunha em perigo de morte, embora pra todos que me conheçeram eu estaria agora enterrado no cemitério, no Moravian, perto da Grant City em Staten Island, sete palmos debaixo da terra, no sexto dia de morte, naquele doce estágio de putrefação em um caixão de mogno escuro, vestindo um Armani cinza, depois de três horas em uma capela a caixão fechado com várias pessoas chorando.
Mas agora você me pergunta, você é um fantasma? Eu te respondo.
Não, sou alguém que foi tentado de morte e escapou dela ou ela escapou de mim, ainda não sem bem a sequência, em uma hora estava na principal e depois afundando em um lago por ser acertado por outro carro e rodar pela pista até cair da ponte para água, metade daquela água ficou no meu pulmão e eu agradeço a minha resistência física, mas odeie minha capacidade de seguraça para colocar a p***a de um cinto de segurança, mas não posso reclamar, estou vivo e sem nada muito grave, além de uma tosse produtiva ainda, que não importe a quantidade de xarope, ela não passa.
Vivo, porém escondido do outro lado do país, em um lugar que acho que nem no mapa aparece.
Vini Barrete, vivinho da Silva.
Lembra que eu assisti Queima de Arquivo e que eu sabia como foi representar Vanessa Williams? Então, eu também sei como e ter um Arnold Schwarzenegger me protegendo o tempo todo, o cara parado na minha frente e o meu Arnold Schwarzenegger, ele só não vai com a minha cara e é um magrelo anêmico do FBI, que tem mais cara do carinha da burocracia do FBI do que um agente.
Ele é o melhor, me disseram.
Por incrível que pareça, ele se chama Escobar, sim, como o traficante, eu ri muito e ele quase veio pra cima de mim pelas minhas piadas ruins.
Acho que é importante vocês saberem que meu senso de humor pode ser péssimo.
Não que eu seja implicante, mas é que quando se está por mais de 48 horas com a mesma pessoa a tendência é tudo ficar, como vou dizer, uma tragédia cômica sem graça nenhuma.
Ele é perigoso.
Bem, ele me segurou e me apagou na noite passada, quando eu quis sumir do lugar que estou, com apenas um movimento. Coisa de segundos que ainda me fazem analisar ele e achá-lo um maluco.
Talvez ele seja realmente o melhor.
Sabe, períodos de adaptação são difíceis, tenta colocar um peixe fora d'água pra ver se ele vai ficar parado ou jogar um cachorro dentro da água, é instinto isso, somos assim, como animais, se atacar a gente vai ter a luta e a fuga, não adianta o que você fala ou tentar fazer para evitar.
Deus viu que o mundo estava uma merda algumas vezes, o que ele fez? Ficou parado? Não. Por exemplo, mandou o holocaustos com o grande dilúvio. Viu? Nem Deus fica parado quando vê que algo não está certo, isso é fato.
Suspiro fundo e fico de pé, encarando a camisa de colarinho alto e com a fita por entre as dobras da gola, deixando um incômodo infernal no meu pescoço, a calça não é um incômodo, mas essa camisa é.
- Isso é ridículo - O homem na minha frente ri, me encarando depois de olhar as horas.
- É uma legítima camisa clerical romana meu caro, slim fit manga longa, especialmente para o seu tamanho de ogro.
Ah, esqueci de falar que meu anjo da Guarda, meu Arnold Schwarzenegger, ele tem um senso de humor melhor que o meu.
- Agentes como vocês são sempre debochados assim ou é só você, Escobar? - Olho para o cubículo que me enfiaram e que eu passaria algum tempo enquanto a investigação ocorreria longe dali.
- Isso é um papel, se acha que isso é difícil, pode voltar e deixar que a corja mate-o, me pouparia tempo e esforço, poderia ver a minha mulher e não sua cara de b***a pelos próximos meses - Sinceros, algumas pessoas eram sinceras demais. Eu odiava isso. - Não tente fugir, você está seguro aqui e comigo ajudando-o, pare de dar murro em ponta de faca, será melhor pra mim e para o senhor, isso aqui poderia ser muito pior, sabemos disso. Você sabe disso, senhor Barrete.
- Eu sei, eu sei, mas um padre?! p***a, isso está muito errado! - Eu ergo a mão e aponto para a parede, onde tem uma imagem de Jesus. - Olha para aquilo e para tudo isso, sabe quando fui a última vez na igreja? Nunca fui em uma igreja, quem foi o gênio em me colocar do outro lado do país em um convento, com a ideia estúpida de eu estar fazendo um ano de sabinato para escrever um livro? E a coisa mais fajuta da minha vida toda. Do que vai ser o livro mesmo? 10 formas de esconder o corpo de um federal fajuto?
- Quer falar de coisas fajutas? - Balanço a cabeça e começo a andar de um lado para o outro.
Ele estava certo, aquilo era só mais uma parte do espetáculo que minha vida era, era por tudo que eu estava ali, por Deus, no auge da minha vida descubro que quem eu mais confiava me apunhalou pelas costas, aquela história que vem de quem menos esperamos é verdade.
No meu caso veio de um bastardo junto da minha própria mulher ordinária, dupla filha da p**a, sinônimo de traição agora poderia ser Vini Barrete. Procura no Google, possivelmente minha foto estará lá.
Quando papai morreu, eles pareciam satisfeito com a tomada de posse por mim a pedido em testamento, eu era o herdeiro da exportadora, mas parece que no fundo não era isso que o bastardo achava, nada estava bem pra ele, meu doce e adorável irmãozinho. Isso me revolta, por tudo que eu fazia por ele, por tudo que eu e ele passamos.
Havia sido enganado, na verdade nem trepar comigo e estar com uma casamento marcado satisfez a minha própria mulher, eu pensava conhecer ela.
Igratos.
Tentaram me matar e quase conseguiram.
Quase.
Mas vaso r**m não quebra.
E eu estava ali, com uma morte fajuta declarada e com o FBI infiltrada até nas latas de lixo da companhia de exportação Barrete.
O que me irrita não são os negócios, e a família, são parte delas que estão tentando me calar, é tentar estragar os Barrete, o nome da própria família, o nome do meu pai e tudo que ele e o vovô fizeram durante gerações e que eu deveria ter conseguido manter, mas que no fim, eu não fiz, que eu nem notei o golpe, golpe silencioso e quase c***l, injusto e maquiavélico.
E eu quis matá-los, estrangulados e fazer atrocidades com quem estava envolvido no circo, mas eu não podia, eu não podia colocar uma investigação a perder ou em perigo outras pessoas, eu era a chave para quase tudo, eu havia disponibilizado tudo, agora era com eles, eu só precisava me manter vivo e longe de problemas, até ter que me apresentar para o juiz.
No fim acho que me afastar foi uma proteção pra eles, não pra mim, ninguém em sã consciência tentaria ir pra cima de mim, não assim, não dessa forma. Eu era um Barrete acima de tudo, havíamos negócios do Bronx a Ilha de Staten, nada poderia nos parar, claro, a não ser os próprios membros da família, fazendo tudo errado, mudando negócios e fazendo ilegalidades nacionais e internacionais que poderiam ser consideradas como crime federais, eu não perderia tudo.
Eu não podia deixar.
Aceitar minha condição parecia o certo.
Mas como eu disse, nada acontece sem uma bagunça. Nada. Principalmente pra mim, que sempre foi um bagunçado de merda.
- O que tenho que fazer de agora para frente?
- Bem, você deve entrar nisso, ninguém aqui sabe sobre você além de mim e o ordenado daqui, então deve se conter, acho que isso não é difícil.
- Estamos em um convento, por favor, vai ser eu abrir a p***a da minha boca e essas freiras vão saber que eu não sou um padre que está em uma espécie de retiro, entende, outra, olha para mim, eu não tenho cara nenhuma de padre.
- É, devo concordar, você tem cara daqueles tarados que comeu proteína demais - Balanço a cabeça.
- Você devia entrar para a comédia, de verdade Escobar, faria mais sucesso.
- Vamos, vou te apresentar para o Sr. Ivan.
- O padre de verdade?
Ele se move, me fazendo sair pela porta, encarando os corredores iluminados por janelas que vão do chão ao teto que me permitem ver um grande campo verde lá fora, que me faz entender que eu estava impossibilitado de escolha ou medidas de inclusão temporariamente.
Meu pai deve estar no inferno rindo e comendo pipoca, com aquelas malditas pantufas que ele usava, com uma caixa de charutos italianos.
Eu desço as escadas e me coloco ao lado dele, que parece saber por onde andar e como andar, isso me deixa apreensivo, me deixa nervoso e irritado com ele, esse cara era casado, dava pra ver isso pelo pneu de trator no anelar esquerdo. Ele sabia o que era família, assim como eu, com a diferença que ninguém tentou contra a vida dele. Ninguém da própria família dele.
- Eu não vou conseguir fazer o papel de um padre - Confesso.
- Vai sim, você é um Barrete, não é essa política que fizeram durante a vida de vocês? Enfrentando tudo? - Quando atravessamos outra porta entramos em um salão, nele eu vejo os quadros na parede, quadros antigos, alguns ilustrativos e outros focados em uma arte religiosa, que me faz querer procurar uma saída, nem que seja de emergência para incêndio. - Fingir isso não é difícil senhor, apenas pense que isso é o papel da sua vida, que ela depende disso, pense que se você não for o melhor seus negócios vão afundar, você tem desvantagem? Tem, mas a vantagem é grande também, imunidade e garantias, para você, para sua mãe que precisa de você é seus negócios, certo? Sabe, soube que sua mãe ficou horrível durante o seu enterro, acha que merece outro baque ou apenas a possibilidade de você mudar as coisas, o errado tem que ser consertado, começa com você seguindo as ordens.
Ele fala tudo, nada delicado, implicando, aprendendo rápido como eu funciono. Filho da p**a maquiavélico.
- Vocês só podem estar brincando - Então o momento da minha vida se forma quando paramos em frente uma porta, a respiração fica tensa em mim. - É isso? Não posso escolher outro papel? Quem sabe um ator?
- Temos de vendedor de peixe, no sul do país, isso não é como escolher onde vai sentar e ficar, isso envolve pessoas, não podemos por você em perigo e as outras pessoas, isso é calculado, cada passo para que nada saia da linha, você entendeu ou vou ter que puxar toda burocracia para que você possa ler? Hum?
- Sabe, você pode ser duro demais Escobar, muito duro - Faço uma pausa. - Vamos - Ele se mexe e abre a porta, entrando na sala e mantendo a porta aberta, quando eu entro, eu paro, vendo que não estávamos sozinhos, havia um senhor de idade de cabelos brancos com cara enrugada, beca bacana de pé perto de uma vidraça, junto com outra pessoa de uma silhueta feminina, de costas pra gente e de frente para o homem, de cabelos escuros presos.
- Senhor Ivan - Ele ergue o olhar, se movendo e abrindo um sorriso, a figura feminina move-se e se vira, então eu tenho uma grande e adorável surpresa, que me faz esconder um sorrisinho prepotente e de surpresa.
Deus é meu pastor.
Nada me faltará.