Uma ovelha pode não seguir sempre o rebanho, ela também pode não ser uma ovelha n***a, apenas uma ovelha diferente.
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Quando tinha quatorze anos, passei quase um mês no hospital depois de quebrar minhas duas pernas e ficar com gesso até a minha virilha, se vocês acham que depilação cavada dói e porque vocês não ficarem com um gesso até a virilha. Garanto que a sensação é completamente desagradável e dolorosa, além disso, quando tirei o gesso tinha toda minha pele descascada e estranha, a falta de luz naqueles lugares possibilitaram isso, embora me fizeram ficar 3 meses parada sobre um assento, mais outros 3 para reabilitação. Foi um ano puxado, não é legal ficar com alguém lhe dando banho, não mesmo, é uma coisa horrível.
Gosto de pensar que algumas coisas da minha vida se deram a partir daí, não pelas duas pernas quebradas, mas o motivo delas é o resultado delas.
Naquela noite, eu só queria pular o muro de casa e ir até o fliperama, jogar com a turma, mas não podia sair depois das 9, era impossível, eu era uma menina, além disso, minha casa não era normal, não tinha um pai e nem uma mãe, pelo contrário, eu tinha 34 mães postiças, 1 Bispo e 1 padre como família, minha casa era um convento, onde com nem um dia de vida fui deixada em uma cesta, em uma bela noite de inverno chuvosa, não fui para o orfanato, não precisei passar por lares e mais lares adotivos, fui adotada por todos do convento, não havia orfanato em Del Rey, o mais próximo ficava a 26 horas de carro, eu estava com hipotermia, estava prestes a parar, por isso decidiram me manter na enfermaria do convento.
Dali eu fiquei.
Fui criada, fui educada, mas, mesmo em um convento, não tive vocação pra religião, a não ser minha fé em Deus e nas pessoas e em mim, isso me levou até o muro aos 14 anos, meu pé deslizou demais, eu caí feio.
Naquele mesmo ano, eu quis, pela primeira vez, cuidar de alguém, porque eu achei bonito a forma que cuidaram de mim, em um momento r**m. Eu já tinha aquele coisa de cuidar do outro, acredite, ser cuidada por tanta gente te faz ter um coração enorme e colocar cada uma daquelas pessoas nele. O cuidar pode humanizar uma pessoa e a falta dele desumanizar. E naquela altura eu dei na teia de querer ser enfermeira.
Não medicina, não outra coisa, mas ser uma enfermeira, foi a única coisa que eu mantive até os meus 22 anos, quando sai formada e com o canudo na mão, minha família foi a maior, todos foram, foi fretado um ônibus, foi estranho, todos com roupas sociais, mas a minha família não, a maioria de hábito, foi um dos melhores dias da minha vida, tenho certeza disso, não era só eu formando, era eu crescendo, mas, mesmo formada, eu ainda moro no convento, no meu quartinho, sou eu que fica na enfermaria todas as tardes, na parte da manhã vou para a cidade e faço meu plantão, quando volto cuido das coisas aqui.
Mas não posso deixar de lado que cuidar tem um custo específico além do cuidado humano, o custo dos recursos. Foi por isso que eu estava de frente para o padre Ivan, para falar sobre isso, tínhamos um estoque baixo de alguns medicamentos, um específico me deixava preocupada.
Ivan Malone II era o padre que, além de coordenar o convento junto com a madre, cuidava da paróquia de Del Rey, isso já fazia 34 anos, eu nem pensava em nascer quando esse homem sentou nessa cadeira e manteve esse lugar e a paróquia da cidade de pé.
- Madeleine - Fico parada, ele falando meu nome inteiro me dava o papo reto dele, isso me encabulava, podia passar anos, eu ainda ficaria pianinho quando ele falasse o meu nome daquele jeito, levando em conta que a maioria me chamava de Mad.
- Podemos mandar uma carta e fazer o pedido, irmã Cristina precisa desse remédio, a quimioterapia é necessária, sei que ela vai melhorar depois do tratamento, não vai nem precisar da radioterapia, sei que os recursos são poucos, ainda mais nessa época do ano, mas precisamos disso.
- Querida - Dou um balançar de cabeça.
- Não consigo arrumar mais nada no hospital com o pessoal, isso me preocupa - Ele se levanta e se move, para perto da vidraça, os cabelos brancos e o rosto enrugado, sempre calmo e gentis, dou um suspiro, agonizando por dentro e esperando que ele fale alguma coisa.
Cristina era uma das meninas, eu chamava todas de meninas, minhas meninas, mesmo que elas fosse 2 ou até 4 vezes mais velhas que eu, eram e sempre seriam. Cristina cuidava da cozinha, sempre fazia as obras na parte baixa de Del Rey, sempre fazendo o melhor refogado de legumes que eu comi, junto com o sorriso, um que ela tentava manter depois de descobrir um nódulo no seio esquerdo.
- Eu preciso que você cuide das coisas, temos o que da para o fim do mês, não temos? - Ele me encara, balanço a cabeça. - Ótimo, vamos conseguir o do próximo mês, farei o possível.
- Eu tentarei algum, são só mais dois meses - Olho para o relógio sobre a mesa. - Sei que estamos passando por alguns momentos ruins aqui...
- Madeleine - Ele me corta. - Sempre superamos as dificuldade, vamos superar dessa vez.
- Estou aqui pra ajudar.
- Não precisa fazer o que fez mês passado, você tem que ter algo seu, não acha?
- Aprendi desde cedo o que é ajudar, então acho justo eu ajudar com as coisas aqui, isso é a minha casa, como acha que iria tomar um banho quente a noite sem energia? Não.
- Você é teimosa demais menina - Ele da uma risadinha.
- A temporada este chegando, para arrecadar fundo estava pensando em algo, estou conversando com todas, estão otimistas, espero que façamos uma coisa mais que maravilhosa, além disso - As batidas na porta me impedem de continuar, padre Ivan olha para o relógio agora, depois olha para mim, o ranger da porta soa entre nós dois.
- Senhor Ivan - Ele ergue o olhar, a voz sai alta, me fazendo me mover e me virar, quando eu me viro eu dou um sorriso para um homem magrelo alto, só paro de sorrir olhando para alguém atrás desse homem, fico parada, estática, meus olhos ficam mais que atenta no homem alto, que mais parece uma parede.
- Que bom que estão de pé - Desvio o olhar, encarando o padre Ivan.
- Desculpe nosso atraso senhor, estamos cuidado de alguns detalhes. O Sr. Barrete está mais que pronto agora, não é?
Quem é o senhor Barrete? Quem são esses dois?
- Sim, sim - Fico sobrando, o homem continua me encarando, os olhos de um castanho mais claro e o rosto firme e de expressão forte, engulo o nó na minha garganta, desço o olhos e aí noto a camiseta clerical. Abro e fecho a boca, com o ponto de interrogação na minha cabeça, isso aumenta quando o homem se move mais a frente, ele fica maior, os braços são grandes e o tronco maior ainda, o cabelo de um castanho também escuro, alto e grande demais, tanto que me pergunto se já vi alguém tão grande, de um rosto tão forte.
- Você é padre? - Minha voz sai involuntária.
- Madeleine?! - Fico atônita, totalmente. - Você pode voltar mais tarde para conversamos? Preciso resolver as coisas - Olho pare ele e depois para os dois homens, o magrelo está sério, mas o outro me encara, parece perceber.
Quem é ele?!
- Claro, claro, eu já vou indo - Eu me mexo, puxando minha pasta. - Desculpa pela minha indelicadeza.
- Esse é o nosso novo companheiro temporário, ele vai ficar aqui, é um padre de Nova York, veio para concluir um trabalho no seu período sabático - Olho para o homem.
- Muito prazer - Eu me aproximo, ergo a mão na direção do homem mais magrelo de cabelos escuros e para o mais alto, que abaixa o olhar, olha para mim e para minha mão estendida, demora segundos, mas ele pega minha mão, o aperto se faz presente, os dedos dele são longos, a mão quente, me pego sentindo demais, o que me faz retirar minha mão frágil daquele aperto. - Bem, eu vou indo - olhei para o padre Ivan, suspirando. - Estarei lá embaixo - Me mexo. - Com licença.
- Toda - A voz do homem sai grave, eu me pego o olhando, o colarinho da camisa está bem colocado, o pescoço tem veias altas, tensas.
Meus dois estados de espíritos se manifestam, um é racional.
Ele é um padre, Madeleine!
Já o outro se mostra abusado.
Que bênção de Deus, hein!
Pensando isso, eu dou meus pulo, saindo da sala o mais rápido que posso, para não atrapalhar nada, dando uma risadinha.