Sombras que cercam

911 Words
O morro começava a se acomodar em um entardecer pesado, quando a luz do sol se diluía entre as encostas e as vielas estreitas. A atmosfera carregava uma tensão que não era só da iminente violência, mas também da incerteza que corroía os corações dos que ali viviam. Cecília sentia essa angústia profundamente, como se o próprio ar estivesse impregnado de medo e desconfiança. Ela estava sentada no pequeno quarto que dividia com Lívia, olhando fixamente para a janela onde as luzes da comunidade começavam a se acender. O bilhete ameaçador que encontrara dias atrás não saía da sua cabeça. As palavras “Sua rainha será o alvo” pesavam como uma sentença, e ela não podia deixar de sentir que o perigo era mais próximo do que imaginava. Sua respiração ficou mais pesada quando ouviu o ruído baixo da porta se abrindo. Lívia entrou, os olhos arregalados, o rosto marcado pela preocupação que refletia a dela. — Cecília, acho que precisamos falar — sussurrou Lívia, fechando a porta cuidadosamente. Cecília fez um gesto para que a irmã se aproximasse, sentando-se na cama enquanto Lívia se sentava ao seu lado. — O que foi? — perguntou, a voz quase um sussurro. — Eu ouvi uns rumores — Lívia começou, a voz trêmula —, dizem que tem gente do nosso próprio lado que está querendo derrubar o Danilo. Que ele pode estar cercado por inimigos invisíveis. O coração de Cecília apertou. Ela já desconfiava, mas ouvir aquilo de quem morava ali, sentia na pele, era aterrorizante. — E quem seriam esses inimigos? — perguntou, a voz falhando. — Não sei ao certo. Só sei que tem um nome que aparece muito: Ivan. O silêncio entre as duas foi carregado e cortante. Cecília sabia que Ivan, apesar de ser braço direito de Danilo, não era infalível. A confiança, ali, era uma moeda rara. — Do lado de fora, a noite caía, e as luzes do morro iluminavam as ruas de pedra e barro como um labirinto vivo. Danilo estava em sua sala, a atmosfera carregada de tensão. Ele observava os rostos de Subir e Ivan, seus aliados mais próximos, buscando qualquer sinal de traição, qualquer dúvida, qualquer falha. — A situação está mais delicada do que imaginávamos — disse Danilo, fechando os olhos por um momento. — Se alguém aqui está nos traindo, precisamos descobrir antes que seja tarde. Subir assentiu, a mandíbula cerrada. — Temos que aumentar a segurança e desconfiar de tudo e de todos. Ivan manteve-se em silêncio, o olhar distante, mas os músculos do rosto tensos. Danilo continuou, olhando para Ivan: — Eu preciso saber onde está sua lealdade, irmão. Ivan respirou fundo. — Minha lealdade é para você e para o morro, Danilo. Sempre foi assim. Mas a dúvida já havia sido plantada, e no coração de Danilo, ela pesava como uma pedra. — Enquanto a tensão aumentava dentro do morro, Cecília decidiu que não podia mais ficar na ignorância. Precisava entender aquele mundo que parecia tão c***l e, ao mesmo tempo, tão vital para Danilo e para aqueles que amava. Ela pediu ajuda a Ivan para conhecer melhor a comunidade, suas regras, seus perigos. Ivan, que nutria um carinho especial pela irmã de Danilo, ficou dividido entre o orgulho e a preocupação. — Se for para proteger você, eu faço — disse, a voz firme, mas com um traço de afeto. Nas semanas seguintes, Cecília passou a acompanhar Ivan pelas vielas, conhecendo as histórias não contadas, as alianças frágeis, os inimigos ocultos. — Numa noite especialmente fria, Danilo decidiu visitar Cecília sem avisar. Queria sentir a presença dela como um respiro em meio à tempestade. — Você não deveria estar aqui — disse Cecília, a voz carregada de preocupação e um leve tom de desafio. — Também não deveria estar longe — retrucou Danilo, segurando suas mãos com firmeza. — Mas a vida no morro é assim: guerra constante, incertezas, e alguns momentos como este. Ela o olhou, vendo pela primeira vez não só o homem duro e implacável, mas o homem ferido, com medo, e ainda assim disposto a lutar. — Eu quero estar ao seu lado — disse, com a sinceridade crua que só Cecília sabia demonstrar —, mas não vou facilitar. Quero que lute por mim, por nós. Danilo sorriu, aquele sorriso raro, sincero, que só ela conseguia arrancar. — Eu vou lutar, Cecília. Não só pela minha vida, mas pela nossa. — Mas a guerra se intensificava. Ivan descobriu movimentações suspeitas em uma casa na parte alta do morro. Parecia uma reunião clandestina de inimigos, uma conspiração para derrubar Danilo e tomar o controle. Danilo organizou uma ação rápida, determinada a acabar com a ameaça antes que ela se tornasse um problema maior. No confronto, tiros cortaram o silêncio da noite, e o morro inteiro pareceu prender a respiração. Os homens de Danilo lutaram com ferocidade, protegendo o território e tentando manter o controle diante do perigo crescente. — Depois da batalha, Cecília estava exausta, mas algo dentro dela crescia — uma chama de coragem e resistência. Ela estava aprendendo que viver naquele mundo não era apenas sobreviver, mas resistir, lutar por um futuro que parecia incerto. Sentada na varanda, com a brisa leve acariciando seu rosto, ela pensava no que o futuro reservava para ela e para Danilo. Sabia que a guerra no morro e em seu coração estava apenas começando. Mas, pela primeira vez, sentia-se pronta para enfrentá-la. ---
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