O morro começava a se acomodar em um entardecer pesado, quando a luz do sol se diluía entre as encostas e as vielas estreitas. A atmosfera carregava uma tensão que não era só da iminente violência, mas também da incerteza que corroía os corações dos que ali viviam. Cecília sentia essa angústia profundamente, como se o próprio ar estivesse impregnado de medo e desconfiança.
Ela estava sentada no pequeno quarto que dividia com Lívia, olhando fixamente para a janela onde as luzes da comunidade começavam a se acender. O bilhete ameaçador que encontrara dias atrás não saía da sua cabeça. As palavras “Sua rainha será o alvo” pesavam como uma sentença, e ela não podia deixar de sentir que o perigo era mais próximo do que imaginava.
Sua respiração ficou mais pesada quando ouviu o ruído baixo da porta se abrindo. Lívia entrou, os olhos arregalados, o rosto marcado pela preocupação que refletia a dela.
— Cecília, acho que precisamos falar — sussurrou Lívia, fechando a porta cuidadosamente.
Cecília fez um gesto para que a irmã se aproximasse, sentando-se na cama enquanto Lívia se sentava ao seu lado.
— O que foi? — perguntou, a voz quase um sussurro.
— Eu ouvi uns rumores — Lívia começou, a voz trêmula —, dizem que tem gente do nosso próprio lado que está querendo derrubar o Danilo. Que ele pode estar cercado por inimigos invisíveis.
O coração de Cecília apertou. Ela já desconfiava, mas ouvir aquilo de quem morava ali, sentia na pele, era aterrorizante.
— E quem seriam esses inimigos? — perguntou, a voz falhando.
— Não sei ao certo. Só sei que tem um nome que aparece muito: Ivan.
O silêncio entre as duas foi carregado e cortante. Cecília sabia que Ivan, apesar de ser braço direito de Danilo, não era infalível. A confiança, ali, era uma moeda rara.
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Do lado de fora, a noite caía, e as luzes do morro iluminavam as ruas de pedra e barro como um labirinto vivo. Danilo estava em sua sala, a atmosfera carregada de tensão. Ele observava os rostos de Subir e Ivan, seus aliados mais próximos, buscando qualquer sinal de traição, qualquer dúvida, qualquer falha.
— A situação está mais delicada do que imaginávamos — disse Danilo, fechando os olhos por um momento. — Se alguém aqui está nos traindo, precisamos descobrir antes que seja tarde.
Subir assentiu, a mandíbula cerrada.
— Temos que aumentar a segurança e desconfiar de tudo e de todos.
Ivan manteve-se em silêncio, o olhar distante, mas os músculos do rosto tensos.
Danilo continuou, olhando para Ivan:
— Eu preciso saber onde está sua lealdade, irmão.
Ivan respirou fundo.
— Minha lealdade é para você e para o morro, Danilo. Sempre foi assim.
Mas a dúvida já havia sido plantada, e no coração de Danilo, ela pesava como uma pedra.
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Enquanto a tensão aumentava dentro do morro, Cecília decidiu que não podia mais ficar na ignorância. Precisava entender aquele mundo que parecia tão c***l e, ao mesmo tempo, tão vital para Danilo e para aqueles que amava.
Ela pediu ajuda a Ivan para conhecer melhor a comunidade, suas regras, seus perigos.
Ivan, que nutria um carinho especial pela irmã de Danilo, ficou dividido entre o orgulho e a preocupação.
— Se for para proteger você, eu faço — disse, a voz firme, mas com um traço de afeto.
Nas semanas seguintes, Cecília passou a acompanhar Ivan pelas vielas, conhecendo as histórias não contadas, as alianças frágeis, os inimigos ocultos.
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Numa noite especialmente fria, Danilo decidiu visitar Cecília sem avisar. Queria sentir a presença dela como um respiro em meio à tempestade.
— Você não deveria estar aqui — disse Cecília, a voz carregada de preocupação e um leve tom de desafio.
— Também não deveria estar longe — retrucou Danilo, segurando suas mãos com firmeza. — Mas a vida no morro é assim: guerra constante, incertezas, e alguns momentos como este.
Ela o olhou, vendo pela primeira vez não só o homem duro e implacável, mas o homem ferido, com medo, e ainda assim disposto a lutar.
— Eu quero estar ao seu lado — disse, com a sinceridade crua que só Cecília sabia demonstrar —, mas não vou facilitar. Quero que lute por mim, por nós.
Danilo sorriu, aquele sorriso raro, sincero, que só ela conseguia arrancar.
— Eu vou lutar, Cecília. Não só pela minha vida, mas pela nossa.
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Mas a guerra se intensificava. Ivan descobriu movimentações suspeitas em uma casa na parte alta do morro. Parecia uma reunião clandestina de inimigos, uma conspiração para derrubar Danilo e tomar o controle.
Danilo organizou uma ação rápida, determinada a acabar com a ameaça antes que ela se tornasse um problema maior.
No confronto, tiros cortaram o silêncio da noite, e o morro inteiro pareceu prender a respiração. Os homens de Danilo lutaram com ferocidade, protegendo o território e tentando manter o controle diante do perigo crescente.
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Depois da batalha, Cecília estava exausta, mas algo dentro dela crescia — uma chama de coragem e resistência. Ela estava aprendendo que viver naquele mundo não era apenas sobreviver, mas resistir, lutar por um futuro que parecia incerto.
Sentada na varanda, com a brisa leve acariciando seu rosto, ela pensava no que o futuro reservava para ela e para Danilo. Sabia que a guerra no morro e em seu coração estava apenas começando.
Mas, pela primeira vez, sentia-se pronta para enfrentá-la.
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