A madrugada já avançava quando Cecília finalmente conseguiu pregar os olhos, mas o sono lhe fugia como uma miragem. O quarto simples que dividia com Lívia no morro parecia menor, sufocante, como se as paredes se fechassem para aprisionar todas as dúvidas e medos que se acumulavam dentro dela.
Ela girava o travesseiro entre as mãos, buscando alguma razão para a inquietação que a tomava. O morro, que até então parecia ser só o território de Danilo, se revelava um mundo mais complexo, onde alianças podiam ruir num piscar de olhos e onde cada gesto era carregado de intenções ocultas.
Naquela noite, as palavras de Lívia ainda ecoavam em sua mente, o sussurro da desconfiança: “Tem alguém do nosso lado que quer derrubar Danilo.” Cecília não podia permitir que aquela sombra crescesse e consumisse tudo. Precisava agir, mas como? O que poderia fazer, uma jovem que fora criada no conforto do Leblon, naquele universo marcado por violência e traição?
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Do outro lado do morro, na sala que servia como quartel-general, Danilo estava sentado à mesa, o rosto iluminado pela luz trêmula de uma vela. Os papéis espalhados indicavam planos, estratégias e informações que chegavam de todas as partes. Ele tinha a cabeça pesada, o corpo tenso, e uma dúvida profunda que corroía suas certezas.
Ivan estava ao seu lado, os olhos cansados, a expressão carregada.
— Temos que identificar o traidor — disse Danilo, com voz grave —. Não posso deixar que alguém de dentro destrua tudo o que construí.
Subir, que entrara silenciosamente, acenou.
— Posso montar um esquema de vigilância. Vamos acompanhar os passos de todos que têm acesso aos nossos planos.
Danilo assentiu.
— Faça isso. A traição não pode prosperar.
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Enquanto isso, Cecília tomou uma decisão que surpreendeu a todos: ela procuraria a ajuda de Subir para entender melhor os conflitos internos do morro. Não apenas para ajudar Danilo, mas para se fortalecer, para deixar de ser uma peça passiva no jogo.
Quando chegou à casa de Subir, encontrou o homem mais velho e experiente observando o movimento das ruas pela janela.
— Preciso da sua ajuda — disse ela, com firmeza —. Quero entender tudo o que acontece aqui. Quero estar preparada.
Subir virou-se para ela, analisando cada traço de sua expressão.
— Você está decidida, garota. Isso não é um lugar para amadores.
— Sei disso — respondeu Cecília, sem hesitar —. Mas não vou fugir.
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A partir dali, começou uma nova fase para Cecília. Ela passou a acompanhar reuniões, a ouvir histórias do passado do morro, as feridas abertas e as alianças frágeis que sustentavam a estrutura que Danilo mantinha. O que mais a surpreendeu foi descobrir que, mesmo em meio à violência, havia um código, uma lealdade silenciosa entre aqueles que se consideravam família.
Entretanto, as suspeitas também cresciam. Ivan, que sempre fora um amigo e aliado fiel, começava a se afastar, suas atitudes menos transparentes, os olhos que evitavam os dela. Cecília sentia que algo estava errado, mas não sabia como enfrentar aquilo sem se colocar em perigo.
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Em uma noite tensa, Danilo chamou Cecília para uma conversa séria no alto do morro, com a cidade do Rio de Janeiro brilhando lá embaixo, como um mar de luzes distantes e indiferentes.
— Cecília — começou ele, com a voz grave —, o que está acontecendo aqui é maior do que você imagina. As coisas estão se movendo rápido, e eu preciso que você confie em mim.
Ela o encarou, com a força que sempre a caracterizava.
— Confiança não se exige, Danilo. Se quer que eu confie em você, tem que merecer.
Ele sorriu, aquele sorriso raro que mostrava um lado humano que poucos conheciam.
— Eu vou fazer de tudo para merecer.
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Mas o tempo não estava ao lado deles. Na mesma noite, uma emboscada foi armada contra o morro, aproveitando as rachaduras internas. Os homens de Ramon atacaram sem aviso, e o barulho dos tiros cortou a escuridão.
Danilo comandou a defesa com ferocidade, mas o golpe foi duro. Durante o confronto, Ivan desapareceu. Ninguém sabia para onde ele foi, e isso só aumentou a desconfiança.
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Cecília ficou em casa, ouvindo os disparos e o caos que se instalava, o coração apertado pela impotência. Ela sabia que a guerra estava longe de terminar, e que aquela noite seria um divisor de águas.
Quando finalmente o silêncio voltou, Danilo retornou, sujo e cansado, mas vivo.
— Ivan sumiu — falou, sem rodeios.
Cecília sentiu um choque, o medo crescendo como uma chama avassaladora.
— Você acha que ele traiu vocês? — perguntou, a voz embargada.
Danilo não respondeu imediatamente. Seus olhos refletiam uma mistura de dor, raiva e tristeza.
— Não posso ter certeza. Mas não vou permitir que uma traição destrua o que construímos.
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Nos dias seguintes, Cecília e Danilo se encontraram para traçar planos, fechar feridas e fortalecer alianças. O morro precisava deles, e eles precisavam um do outro.
No entanto, as dúvidas ainda pairavam no ar, e a sombra de Ivan se tornava cada vez mais densa.
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Enquanto isso, no silêncio das noites, Cecília começou a compreender que, para sobreviver naquele mundo, precisaria ser mais do que a jovem que conhecia. Precisaria ser a mulher que Danilo podia confiar, a companheira que podia enfrentar as sombras ao seu lado.
E assim, entre guerras, traições e promessas, eles começaram a construir um futuro incerto — mas seu — juntos.