O som dos passos de Danilo ecoava pelos corredores estreitos da casa principal, cada batida refletindo o tumulto que fervia dentro dele. O papel com a assinatura de Ivan queimava em seu bolso como uma cicatriz. A confiança que carregava desde a infância se partia em fragmentos a cada novo pensamento.
Cecília, sentada no sofá, observava-o em silêncio. Sabia que aquela inquietação não era apenas sobre o passado — era sobre o presente, e sobre tudo que ainda estava por vir.
— Eu não posso agir por impulso — murmurou ele, parando diante dela. — Se eu encostar no Ivan agora, perco metade da estrutura do morro. Gente vai desconfiar. Ele mesmo pode sumir... ou fazer pior.
— Então o que você vai fazer?
— Vou testar ele. Jogar uma isca. Se ele morder, eu pego com prova. E não vai ter escapatória.
Cecília assentiu, mas seu coração pesava. Sabia que aquele caminho traria consequências. A cada passo em direção à verdade, Danilo se afastava do menino que um dia fora — e se tornava ainda mais o homem que o morro exigia.
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Na manhã seguinte, Danilo reuniu parte de seus homens em um antigo galpão, num dos pontos mais altos do morro. Chamou Ivan, mas de forma indireta — sem revelar o conteúdo da reunião com antecedência.
— Temos informação de que Ramon quer atacar o depósito de armamento que usamos na Baixa do Cemitério — disse Danilo, encarando cada um dos rostos ali presentes. — Vou mandar só dois pra proteger o local. Quero ver quem aparece por lá... quem tenta sabotar... e quem avisa o inimigo.
Ivan franziu o cenho, parecendo surpreso.
— E se for emboscada mesmo?
— Então eu quero saber quem armou. E quero vivo.
Ivan assentiu, mas seus olhos vacilaram por um segundo. Pequeno demais pra ser notado por muitos. Mas Danilo viu. E soube que a armadilha estava lançada.
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Enquanto Danilo movimentava suas peças, Cecília decidia tomar outro caminho: aproximar-se de Lívia.
Não por conveniência, mas por sobrevivência. Se quisesse realmente ajudar Danilo, precisava conquistar a confiança de quem conhecia os corredores mais escuros daquela vida.
Encontrou a garota perto da quadra, conversando com outras meninas. Ao vê-la, Lívia revirou os olhos.
— Veio decorar a paisagem?
— Não. Vim aprender com quem conhece o morro de verdade.
As outras meninas riram, achando graça do atrevimento. Lívia cruzou os braços.
— E por que eu ajudaria?
— Porque você se importa com o Danilo. E eu também. Só que ele tá cada vez mais afundado nessa busca por respostas. E isso vai deixá-lo vulnerável. Se ele cair... a gente cai junto.
Lívia a observou por um instante longo demais.
— Tá bom. Vamos ver se você aguenta.
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Horas depois, Cecília estava no meio de um beco estreito, entre barracos e fios cruzando os céus como teias. Lívia a levava por caminhos que turistas jamais imaginariam existir.
— Aqui foi onde mataram o Gilmar — disse Lívia, apontando para uma parede com pichações apagadas. — E ali, onde queimaram o estoque do Rivaldo.
— Por que me mostrar isso?
— Porque aqui não tem glamour, bonequinha. Aqui tem sangue. Dor. Escolha errada mata. Lealdade salva. Às vezes.
Antes que Cecília pudesse responder, ouviram gritos à distância. Tiros. Muitos.
As duas se olharam por instinto. Lívia puxou Cecília pela mão.
— Corre!
O som das balas ecoava pelos becos enquanto moradores se jogavam ao chão ou se trancavam em casa. Era um ataque coordenado — e inesperado. Danilo não tinha mencionado nada sobre isso.
Elas se abrigaram atrás de uma mureta. Lívia sacou o celular e ligou para o irmão.
— Tão atacando a parte de baixo! Parece que invadiram pelo lado da favela vizinha! Cadê teus homens?
Do outro lado da linha, Danilo praguejou alto.
— Era distração. Maldição! Protege a Cecília e fica aí. Tô indo!
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No galpão, Danilo ainda discutia com dois de seus aliados quando um dos sentinelas apareceu, ofegante.
— Patrão! Atacaram o barraco do Tico! Vieram por baixo, pelo canal!
Danilo fechou os olhos por um instante. Ramon era inteligente. Usara o próprio plano contra ele. O ataque ao depósito era só fachada.
— Cadê o Ivan?
— Sumiu, patrão. Disse que ia no banheiro, mas não voltou.
Danilo socou a parede. Sabia o que aquilo significava.
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Lívia e Cecília tentavam alcançar um local mais seguro quando um grupo de três homens mascarados surgiu à frente. Um deles carregava um fuzil e apontou para as duas.
— A patricinha do Dono tá aqui mesmo, hein?
Cecília congelou. Lívia se colocou na frente.
— Encosta nela, e tu morre!
O homem riu.
— Brava, hein, princesinha do morro?
Antes que pudesse reagir, um tiro ecoou do alto. O homem caiu, atingido na cabeça. Os outros dois correram. No alto da laje, Danilo e mais dois homens avançavam, abrindo fogo.
— Cecília! — gritou ele.
Ela correu até ele, o coração disparado, as pernas tremendo. Quando chegou, ele a puxou para um abraço sufocado de alívio.
— Eu devia ter te tirado daqui antes.
— Eu não quero sair. Eu quero lutar do seu lado.
Ele a encarou, as mãos sujas de sangue de outro homem. E ainda assim, Cecília não recuou.
— Você tá louca — sussurrou ele.
— Louca por você. Louca por essa guerra que agora também é minha.
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Horas depois, com o ataque contido e as vítimas sendo socorridas, Danilo recebeu nova informação: Ivan havia sido visto fugindo por uma viela, carregando uma mochila preta — a mesma que, segundo informantes, continha o dinheiro de uma negociação com os homens de Ramon.
— Ele me vendeu — disse Danilo, encarando o horizonte. — O homem que cresceu comigo... me traiu pelo mesmo jogo que destruiu meu pai.
Cecília se aproximou devagar, passando os braços por sua cintura.
— Você ainda tem a mim. Tem a Lívia. E tem gente fiel ao seu lado.
— Mas a confiança... isso não se reconstrói fácil.
Ela o fitou.
— Então reconstrói com base no amor. Porque o medo pode te manter no poder. Mas só o amor vai te manter humano.
Danilo a beijou. Com dor, com raiva, com desejo. Porque mesmo no caos, ela era sua âncora. E ele sabia que a guerra estava só começando.
Mas agora... ele não lutaria mais sozinho.