Linhas de Fogo

1061 Words
O som dos passos de Danilo ecoava pelos corredores estreitos da casa principal, cada batida refletindo o tumulto que fervia dentro dele. O papel com a assinatura de Ivan queimava em seu bolso como uma cicatriz. A confiança que carregava desde a infância se partia em fragmentos a cada novo pensamento. Cecília, sentada no sofá, observava-o em silêncio. Sabia que aquela inquietação não era apenas sobre o passado — era sobre o presente, e sobre tudo que ainda estava por vir. — Eu não posso agir por impulso — murmurou ele, parando diante dela. — Se eu encostar no Ivan agora, perco metade da estrutura do morro. Gente vai desconfiar. Ele mesmo pode sumir... ou fazer pior. — Então o que você vai fazer? — Vou testar ele. Jogar uma isca. Se ele morder, eu pego com prova. E não vai ter escapatória. Cecília assentiu, mas seu coração pesava. Sabia que aquele caminho traria consequências. A cada passo em direção à verdade, Danilo se afastava do menino que um dia fora — e se tornava ainda mais o homem que o morro exigia. --- Na manhã seguinte, Danilo reuniu parte de seus homens em um antigo galpão, num dos pontos mais altos do morro. Chamou Ivan, mas de forma indireta — sem revelar o conteúdo da reunião com antecedência. — Temos informação de que Ramon quer atacar o depósito de armamento que usamos na Baixa do Cemitério — disse Danilo, encarando cada um dos rostos ali presentes. — Vou mandar só dois pra proteger o local. Quero ver quem aparece por lá... quem tenta sabotar... e quem avisa o inimigo. Ivan franziu o cenho, parecendo surpreso. — E se for emboscada mesmo? — Então eu quero saber quem armou. E quero vivo. Ivan assentiu, mas seus olhos vacilaram por um segundo. Pequeno demais pra ser notado por muitos. Mas Danilo viu. E soube que a armadilha estava lançada. --- Enquanto Danilo movimentava suas peças, Cecília decidia tomar outro caminho: aproximar-se de Lívia. Não por conveniência, mas por sobrevivência. Se quisesse realmente ajudar Danilo, precisava conquistar a confiança de quem conhecia os corredores mais escuros daquela vida. Encontrou a garota perto da quadra, conversando com outras meninas. Ao vê-la, Lívia revirou os olhos. — Veio decorar a paisagem? — Não. Vim aprender com quem conhece o morro de verdade. As outras meninas riram, achando graça do atrevimento. Lívia cruzou os braços. — E por que eu ajudaria? — Porque você se importa com o Danilo. E eu também. Só que ele tá cada vez mais afundado nessa busca por respostas. E isso vai deixá-lo vulnerável. Se ele cair... a gente cai junto. Lívia a observou por um instante longo demais. — Tá bom. Vamos ver se você aguenta. --- Horas depois, Cecília estava no meio de um beco estreito, entre barracos e fios cruzando os céus como teias. Lívia a levava por caminhos que turistas jamais imaginariam existir. — Aqui foi onde mataram o Gilmar — disse Lívia, apontando para uma parede com pichações apagadas. — E ali, onde queimaram o estoque do Rivaldo. — Por que me mostrar isso? — Porque aqui não tem glamour, bonequinha. Aqui tem sangue. Dor. Escolha errada mata. Lealdade salva. Às vezes. Antes que Cecília pudesse responder, ouviram gritos à distância. Tiros. Muitos. As duas se olharam por instinto. Lívia puxou Cecília pela mão. — Corre! O som das balas ecoava pelos becos enquanto moradores se jogavam ao chão ou se trancavam em casa. Era um ataque coordenado — e inesperado. Danilo não tinha mencionado nada sobre isso. Elas se abrigaram atrás de uma mureta. Lívia sacou o celular e ligou para o irmão. — Tão atacando a parte de baixo! Parece que invadiram pelo lado da favela vizinha! Cadê teus homens? Do outro lado da linha, Danilo praguejou alto. — Era distração. Maldição! Protege a Cecília e fica aí. Tô indo! --- No galpão, Danilo ainda discutia com dois de seus aliados quando um dos sentinelas apareceu, ofegante. — Patrão! Atacaram o barraco do Tico! Vieram por baixo, pelo canal! Danilo fechou os olhos por um instante. Ramon era inteligente. Usara o próprio plano contra ele. O ataque ao depósito era só fachada. — Cadê o Ivan? — Sumiu, patrão. Disse que ia no banheiro, mas não voltou. Danilo socou a parede. Sabia o que aquilo significava. --- Lívia e Cecília tentavam alcançar um local mais seguro quando um grupo de três homens mascarados surgiu à frente. Um deles carregava um fuzil e apontou para as duas. — A patricinha do Dono tá aqui mesmo, hein? Cecília congelou. Lívia se colocou na frente. — Encosta nela, e tu morre! O homem riu. — Brava, hein, princesinha do morro? Antes que pudesse reagir, um tiro ecoou do alto. O homem caiu, atingido na cabeça. Os outros dois correram. No alto da laje, Danilo e mais dois homens avançavam, abrindo fogo. — Cecília! — gritou ele. Ela correu até ele, o coração disparado, as pernas tremendo. Quando chegou, ele a puxou para um abraço sufocado de alívio. — Eu devia ter te tirado daqui antes. — Eu não quero sair. Eu quero lutar do seu lado. Ele a encarou, as mãos sujas de sangue de outro homem. E ainda assim, Cecília não recuou. — Você tá louca — sussurrou ele. — Louca por você. Louca por essa guerra que agora também é minha. --- Horas depois, com o ataque contido e as vítimas sendo socorridas, Danilo recebeu nova informação: Ivan havia sido visto fugindo por uma viela, carregando uma mochila preta — a mesma que, segundo informantes, continha o dinheiro de uma negociação com os homens de Ramon. — Ele me vendeu — disse Danilo, encarando o horizonte. — O homem que cresceu comigo... me traiu pelo mesmo jogo que destruiu meu pai. Cecília se aproximou devagar, passando os braços por sua cintura. — Você ainda tem a mim. Tem a Lívia. E tem gente fiel ao seu lado. — Mas a confiança... isso não se reconstrói fácil. Ela o fitou. — Então reconstrói com base no amor. Porque o medo pode te manter no poder. Mas só o amor vai te manter humano. Danilo a beijou. Com dor, com raiva, com desejo. Porque mesmo no caos, ela era sua âncora. E ele sabia que a guerra estava só começando. Mas agora... ele não lutaria mais sozinho.
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