O silêncio da madrugada foi quebrado por uma brisa cortante que atravessava os becos do morro. Danilo permanecia de pé na laje de sua casa, os olhos perdidos nas luzes fracas que ainda piscavam ao longe. A carta de Ramon ainda queimava em sua mão. “A verdade.” Aquela palavra ecoava em sua mente como um tiro disparado no escuro — certeiro, mas sem revelar de onde veio.
— Você tá diferente — disse uma voz baixa atrás dele.
Era Cecília. Usava apenas uma blusa de moletom que Danilo havia deixado sobre a cadeira. Os cabelos bagunçados e os pés descalços contrastavam com a firmeza de seu olhar.
— Tô tentando entender o que significa tudo isso.
— E já começou a buscar?
Danilo assentiu, jogando o papel amassado no chão.
— Ramon falou do meu pai... como se ele tivesse merecido morrer.
— E você acredita nisso?
— Parte de mim... sim. Parte de mim sempre achou que meu pai guardava segredos.
Cecília se aproximou devagar, até ficar ao lado dele. Olhou para o céu, sem estrelas.
— E se os segredos forem mais feios do que você imagina?
— Então eu vou lidar com eles. Mas não vou viver na mentira.
Ele virou-se para ela, seus olhos sérios e cansados.
— Você ainda quer estar do meu lado quando isso tudo explodir?
Ela respirou fundo. Depois assentiu.
— Desde que você me permita ser parte disso... não como refém. Mas como alguém que escolheu ficar.
Danilo tocou o rosto dela com delicadeza, como se ainda tivesse medo de se permitir. Mas Cecília era o único ponto de equilíbrio em meio ao caos.
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No dia seguinte, Danilo convocou Ivan para uma conversa a portas fechadas. A sala estava escura, apenas a luz do sol filtrando pelas frestas da janela.
— Preciso saber o que você lembra da noite em que meu pai morreu — começou ele, direto.
Ivan ergueu uma sobrancelha.
— Isso foi há anos, Danilo...
— Mas você tava lá. Você ouviu o que ele falou antes de sair. Quero cada detalhe.
Ivan coçou o queixo, desviando o olhar.
— Ele recebeu uma ligação. Disse que ia sair pra resolver um acordo. Que voltava logo. Mas nunca mais voltou.
— E você não desconfiou de nada?
— A gente vivia desconfiando de tudo. Mas ele era o Dono. A gente respeitava.
Danilo caminhou em círculos, inquieto.
— Ramon diz que meu pai morreu por escolhas dele mesmo. Que a emboscada... foi o fim de algo que ele começou.
Ivan estreitou os olhos.
— E você vai acreditar no que o traidor diz?
— Eu preciso saber a verdade, Ivan. Seja ela qual for.
Ivan respirou fundo, como se algo lhe pesasse no peito. Mas então assentiu.
— Eu vou investigar por conta própria também. Se tiver algo enterrado... a gente vai desenterrar.
Mas quando saiu da sala, a expressão de Ivan era outra. Mais fechada. Mais tensa. Porque ele sabia. Sabia de coisas que Danilo ainda não sonhava. E que poderiam destruir tudo o que construíram juntos.
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Enquanto isso, Cecília caminhava com Lívia por uma viela próxima à casa de apoio. A irmã de Danilo ainda desconfiava dela — e fazia questão de deixar isso claro em cada passo.
— Você devia ter ido embora na primeira chance — disse Lívia.
— Mas eu escolhi ficar.
— Escolheu por ele ou por si mesma?
Cecília parou, encarando-a.
— Pelos dois. Eu não vim salvar Danilo, Lívia. Mas também não vou deixá-lo se afundar sozinho.
Lívia riu sem humor.
— Você fala como se soubesse o que é viver aqui. Mas você ainda dorme em colchão limpo. Ainda acha que o morro pode ser bonito.
— E você acha que ele não pode?
Lívia abaixou os olhos. Havia dor em seu rosto. Uma dor que ela não deixava ninguém ver.
— Quando você perder alguém aqui... talvez entenda.
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Mais tarde, Danilo recebeu uma ligação de um dos homens que havia trabalhado com seu pai no passado: Carlos "Velho" — aposentado das ruas, mas com memória afiada. Aceitou encontrar Danilo no fim da noite, na parte mais baixa do morro.
O lugar era uma barbearia abandonada. Quando Danilo entrou, viu Carlos sentado na cadeira giratória, uma garrafa de cachaça na mão.
— Você quer respostas, garoto? — disse o homem, sem virar o rosto.
— Quero a verdade sobre meu pai. Sobre a emboscada. Sobre o que aconteceu antes de morrer.
Carlos suspirou.
— Seu pai... era um homem respeitado. Mas ele se envolveu com gente perigosa. Gente de fora do Rio. Começou a negociar armas com um grupo que não respeitava fronteiras. Quando quis sair... era tarde demais.
Danilo se aproximou.
— Quem armou a emboscada?
Carlos o encarou, os olhos vermelhos.
— Alguém de dentro. Alguém próximo. Que sabia de cada passo dele. E que tinha muito a ganhar com sua morte.
Danilo fechou os punhos.
— Ramon?
Carlos riu, amargo.
— Ramon foi só o executor. Mas quem entregou seu pai... tá mais perto do que você pensa.
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Enquanto isso, Cecília vasculhava a sala de arquivos da casa de apoio. Encontrou, entre papéis antigos, uma pasta marcada com a letra “R”. Dentro, um contrato antigo de fornecimento de armas com uma empresa de fachada — e uma nota fiscal em nome de Ivan dos Santos.
Seu coração acelerou. As peças começavam a se encaixar. Ela pegou o documento e guardou no bolso.
No corredor, Lívia a observava escondida, sem dizer nada.
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Quando Danilo voltou da barbearia, encontrou Cecília o esperando. Ela segurava o papel nas mãos, o rosto sério.
— A gente precisa conversar.
Ele pegou o papel, leu, e a expressão dele mudou.
— Isso é assinatura do Ivan...
— E é da época em que seu pai negociava com a tal empresa. Você sabe o que isso significa?
Danilo engoliu em seco. Sua cabeça girava.
— Significa que... talvez ele soubesse de tudo. Ou pior... tenha sido parte disso.
Cecília se aproximou.
— Você vai confrontar ele?
— Ainda não. Primeiro, preciso saber até onde vai a traição.
Ele tocou o rosto dela.
— E você... por que tá fazendo isso?
— Porque eu te amo. Mesmo quando não devia.
Danilo a beijou com força. Era um beijo de urgência, de alívio, de promessas que ainda não podiam ser feitas. E no fundo, ambos sabiam que a guerra que se aproximava não seria apenas por território.
Seria por verdades enterradas, por lealdades falsas, e por um passado que insistia em não morrer.