Cecília já estava há uma semana no morro. O tempo parecia ter um ritmo diferente ali. O que deveria ser prisão começou a se transformar em curiosidade, e, sem perceber, ela havia deixado de procurar uma rota de fuga. Agora, buscava entender. Danilo, por sua vez, continuava sendo um enigma — protetor e perigoso, silencioso e impulsivo.
Naquela manhã, acordou com o som dos fogos. Alguém importante havia subido o morro. Quando saiu na varanda da casa de apoio, avistou carros pretos e homens armados descendo deles. Danilo estava de pé, firme, no topo da escadaria de concreto que levava à laje principal. Seu olhar era duro, sua expressão impenetrável.
— Quem são? — perguntou ela, aproximando-se de Ivan, que estava com os braços cruzados ao lado.
— Parceiros de fora. Gente que Danilo precisa manter por perto.
Ivan não a olhou diretamente. Desde o segundo dia, seu comportamento oscilava entre proteção e irritação. E agora, seu tom era seco, impessoal.
— E você? Tá gostando daqui?
— Não estou em um hotel cinco estrelas, mas já estive em lugares piores com gente de alma podre — respondeu Cecília, firme.
Ivan finalmente virou o rosto para ela.
— Só cuidado. Esse lugar engole quem não sabe a hora de ir embora.
Antes que ela pudesse responder, Lívia apareceu, sorridente, trazendo duas sacolas de compras.
— Vem me ajudar aqui, Ceci! Trouxe umas roupas suas que mandei buscar com o motorista do Danilo. Ele tem os contatos dele.
Cecília arregalou os olhos.
— Como ele teve acesso às minhas coisas?
— Danilo é Danilo — disse Lívia, rindo. — E... ele te observou mais do que você imagina.
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Naquela tarde, Danilo estava na quadra novamente. Sem camisa, como de costume, treinava com Ivan, que parecia descontar toda a raiva nos socos. Cecília, encostada na grade, observava. Não conseguia evitar. Por mais que sua mente gritasse para manter a distância, seu corpo traía essa intenção. O jeito como ele se movia, a firmeza, a intensidade… era hipnótico.
— Quer tentar? — perguntou Danilo, ao notar seu olhar.
— Tentar o quê? Quebrar meu nariz?
Ele sorriu.
— Te ensino a se defender. Vai que um dia precisa se virar sozinha de novo.
Ela hesitou, mas o desafiou com um olhar firme.
— Então me mostra.
Ele se aproximou, entregou-lhe as luvas e ajustou com cuidado em suas mãos. O toque dele era preciso, forte, mas ao mesmo tempo cuidadoso. Quando seus dedos roçaram a pele do pulso dela, um arrepio percorreu sua espinha.
— Primeira coisa: postura. Abre os pés. Isso. Mãos aqui — disse, colocando as dela na altura do rosto.
Ela tentou repetir os movimentos que ele demonstrava, mas errava o tempo. Danilo se posicionou atrás dela, corrigindo com o corpo.
— Muito perto, Danilo — sussurrou, sem se mover.
— Você que não devia me provocar — murmurou ele, o rosto tão perto que ela podia sentir sua respiração.
O silêncio entre os dois foi rompido por Ivan, que arremessou as luvas no chão.
— Chega por hoje.
Danilo olhou de relance para o amigo, entendendo o recado. Ivan saiu da quadra sem olhar para trás. Cecília tirou as luvas em silêncio.
— Ivan não gosta de mim, né?
— Ivan não gosta de não estar no controle — respondeu Danilo. — E ele sabe que você me tira do eixo.
Ela encarou Danilo com os olhos firmes.
— E isso te incomoda?
— Me excita.
Cecília sentiu o corpo responder antes que pudesse controlar. Aquele homem era um perigo real. Mas mais perigoso ainda era o que ele despertava dentro dela: desejo, raiva, dúvida, impulso. E um tipo de conexão que ela nunca teve com ninguém.
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Naquela noite, o morro estava mais agitado que o normal. Um carro da polícia tinha sido visto circulando pelas redondezas. A tensão pairava no ar. Danilo desapareceu por horas, dando ordens, checando câmeras, conversando com olheiros. Cecília ficou na laje com Lívia, ajudando a organizar os mantimentos recém-chegados.
— Você mudou — comentou a irmã dele, em tom suave.
— Mudei?
— Quando chegou aqui, parecia uma princesa perdida. Agora já sabe lidar com o caos. Até com o meu irmão.
Cecília sorriu, sem graça.
— Não sei se estou lidando com ele ou se estou sendo engolida por esse lugar.
Lívia a encarou com seriedade.
— Danilo já teve outras mulheres. Algumas até bonitas, ousadas… mas nenhuma fez ele baixar a guarda. Você é a primeira que ele ouve calado. Isso diz muito.
Antes que Cecília pudesse responder, a porta da laje se abriu com força. Danilo entrou, o rosto tenso, os olhos acesos.
— Preciso falar com você. Agora.
Ela o seguiu até um dos cômodos isolados. Ele trancou a porta atrás de si.
— O que houve?
— Tem gente de fora querendo informação sobre você. Alguém da Zona Sul. Meus contatos dizem que teu tio tá se mexendo. Ele quer te achar, mas não pela polícia.
— Ele quer me comprar de volta?
Danilo assentiu.
— Tá oferecendo dinheiro, favores… qualquer coisa. Ele acha que pode te negociar como se você fosse mercadoria.
Ela sentou na cadeira, atordoada. O desprezo que já sentia pelos tios virou nojo.
— E você? Vai aceitar?
Danilo caminhou até ela, agachando-se à sua frente. Pegou sua mão entre as dele.
— Não. Você não é moeda. Você é… você.
Cecília o olhou, sentindo os olhos arderem.
— Você fala como se eu fosse importante. Mas eu sou só uma garota que caiu no seu mundo.
— Não, Cecília. Você é a primeira coisa real que apareceu no meu mundo em muito tempo.
Por um segundo, o tempo parou. E antes que ela pensasse, antes que pesasse prós e contras, ela se inclinou e o beijou.
Não foi suave. Foi intenso, cheio de medo e desejo, como se ambos soubessem que estavam quebrando uma regra invisível. Danilo a puxou para mais perto, as mãos firmes em sua cintura, o corpo colado ao dela. Por alguns instantes, não existiam tiros, morro, dívidas ou crimes. Só dois corações machucados encontrando um no outro a única brecha de paz.
Quando se afastaram, ofegantes, Cecília o olhou, assustada com o que sentia.
— Eu devia te odiar.
— Eu devia te manter longe.
Mas ali estavam eles. Em silêncio. Já amarrados por algo mais forte do que queriam admitir.