Eu me vejo preso em um dilema sem solução aparente. Por um lado, o desejo de escapar desta situação, de me libertar das correntes que me prendem a Marcos e a um futuro incerto. Por outro lado, o medo de enfrentar as consequências das minhas decisões, de renunciar à segurança e estabilidade que o nosso compromisso representa.
Decido sair do quarto e confrontar aquele homem, não por causa do desejo de vê-lo, mas por causa da fome, vendo que ele comeu e se ele deixou um pouco de comida, embora sabendo como é e o ódio excessivo que ele tem por mim, eu certamente envenenaria minha comida. Eu desço as escadas, sem ouvir barulho, apenas vendo a luz da cozinha acesa, eu ando até ela, mas não há ninguém, só há duas coisas e elas são as mesmas, o telefone dele e o meu, que está partido.
Sento no banco, vazio para esperar, não tenho nada para fazer, tudo o que tinha de fazer está à minha frente e já não funciona. Amanhã eu vou comprar um novo telefone, eu devo falar com o meu representante, explicar que estou feliz com meu noivo que e um i****a, e que o resto do mês, vou dedicar a fazer um casamento que odeio.
O próximo evento que eu tenho é uma semana, e eu não posso atrasar, merda! Com que diabos eu estou indo sem me trazer um problema com Marcos? É por isso que eu queria um marido como Theo, o i****a não ia entrar na minha vida, enquanto o meu atual noivo é insuportável.
Meus pensamentos são interrompidos pelo som do telefone de Marcos, sob a visão e o nome que brilha é o de sua irmã, é uma chamada de vídeo, eu não quero responder, para que ele não se ofenda e me trate m*l. Eu deixo o telefone tocar até que seja cortado, só que insiste mais uma vez, eu viro os olhos para a próxima coisa que vou fazer e acabo atendendo.
— Meu Deus, Marcos! Eu estou te ligando o dia todo ela está cozinhando e não vê quem a está atendendo.
— Como é que vai e vai mesmo se casar com a Samantha? Jura odiá-la, embora eu não soubesse. — Eu lancei uma das minhas sobrancelhas. —Esse ódio é mais uma mentira do que sua frieza.
— Olhe para cima e bato na minha cara. Ela empalidece e recua com a lâmina na mão. — Oh meu Deus! — cobre a boca com uma das mãos.
— Eu guardo o segredo, se prometer não lhe dizer que atendi o telefone, não quero vê-lo zangado. -
Um sorriso nos lábios.
— Menina, eu não sabia que era você, eu não queria...
— Isa, seremos cunhadas, capazes, não a esposa que você quer para o seu irmão, mas é o que existe. — Murmurar em um tom angustiado.
— Peço que pare de me chamar "senhorita" — Faço citações com os dedos. — É horrível, não gosto que o façam. — Murmúrio em um fio de voz.
— Ok. — Aceita e desta vez vejo mais convencida.
— A sua filha está dormindo? — curioso. Aquela menina é linda.
— Ela está com raiva de seu tio, ele terá uma esposa. — Seria como ela, acho eu. — Eu expliquei que era você e ela estava feliz. — Abro os olhos com surpresa. — Você gosta. — Assegure.
— E ela, para mim, deve ser modelo. É linda. — Bajulação. Isa sorri, diversão.
— Marcos não permitiria isso, ele está com muita inveja de nós. — Tenho notado, concordo. — Onde está? — Eu encolho os ombros.
— Não sei, acabei de sair do quarto, deve estar no banho.
Eu levanto-me. — Deixe-me notar...
— As palavras estão no ar quando vejo o Marcos na moldura da porta, a olhar para mim. — Desculpe. — Eu apresso-me a dizer. — Adeus, Isa, beije a sua filha por mim. — Ela franze a testa, enquanto entrego o telefone ao seu dono.
— Eu estarei no quarto. — Quase que fico sem cozinha.
Eu mergulho no sofá, meu olhar se perde na pintura que adorna a mesa central. Ela é uma mãe, radiante como sempre em todas as fotografias, mas nesta imagem há outra coisa. Ela está grávida de mim, prestes a me receber no mundo, mas também prestes a sair.
O caroço na minha garganta fica mais forte quando me lembro da história em torno dessa imagem. A mãe sacrificou-se por mim, por me dar a oportunidade de viver. Cada vez que volto a esta fotografia, o peso da sua ausência torna-se mais avassalador. Eu gostaria de poder mudar as circunstâncias, eu desejo com todo o meu ser que ela ainda estivesse aqui, guiando-me com seu amor e sabedoria.
Mas sei que não posso mudar o passado. Mamãe me deu a vida, um presente que eu aprecio mais do que posso expressar em palavras. Embora sua partida tenha deixado um vazio em meu coração que nunca pode ser completamente preenchido, seu amor continua a viver em mim, como uma luz que ilumina meu caminho nos momentos mais sombrios.
— Voces são idênticas. — Ouço uma voz profunda atrás de mim. n**o.
— Meu pai assegura que a minha mãe era um sol, os de madrugada, enquanto eu sou um do meio-dia, aqueles que te cozinham e te fazem sofrer. — Músculo com um nó na garganta.
— Desculpe ter atendido o seu telefone, ele continuou a tocar e vi que era a sua irmã, foi por isso que tomei a audácia. — Volto a juntar-me à minha voz.
— Ok, sem problemas. — Ouço os teus passos aproximarem de mim. — Desde que não faças da minha sobrinha um modelo de sucesso, não vou ficar zangado.
O tom dele é muito mais suave do que hoje. Eu olho para ele de lado.
— Não é e******o e sabe que a boneca tem talento. — Olha para a ela.
— Não seja a tia que consente com isso. — Virou a cabeça completamente na direção dela, piscando, confusa. — Samantha, você será uma tia, entende? Minha sobrinha verá você como tia dela. Se te incomoda que ela te chamar assim...
— Nem sequer pense em lhe dizer algo. — Eu interrompo-o. — Terei uma família? — O meu peito está cheio de alegria. — Bem, sogros, mas vou saber como é ter uma sobrinha. — Por um segundo um sorriso franziu os lábios e apagou-a.
— Você tem um, seu tio, sua esposa e seu primo — me lembra. — Só você está muito orgulhoso de chamá-los. — Eu me esquivo de seu olhar. — É o modelo mais recente, não devia tê-lo partido.
Seguro no saco branco, onde há um novo telefone lá dentro.
— Não devia ter gastado, o meu pai ou eu comprámos um amanhã. — Estou em silêncio. — Desculpe, obrigado. — Não sei o fato de ele ter gasto uma fortuna neste telefone e eu focar-me na outra mala.
— É comida, nem você nem eu comemos o dia todo, é melhor que o façamos. — Deixa-o na mesa do meio.
— Não comeu? — n**o. — Mas...
— Se não comer, não gostar, é um casamento saudável, Samantha.
Não sei se concordo tanto com ele, mas aprecio os dois gestos.
— Vamos comer. — Ordens e em completo silêncio, obedeço.
Amanhã farei de Marcos parte do dinheiro que tenho, afinal em três semanas ele será meu marido. Não seremos um casamento convencional, não acho que haja amor e até será desrespeitoso, o que se tiver certeza é que Marcos nunca me roubará.