O despertar de Lyra foi uma sinfonia de dor e frio. Ela não sentiu o chão de imediato, mas sim a umidade penetrante de uma areia n***a e grossa que se agarrava às suas vestes de veludo agora em frangalhos. O som que preenchia seus ouvidos não era mais o das explosões ou das vozes do Conselho, mas o rugido rítmico e indiferente do mar batendo contra as rochas afiadas da costa norte de Oakhaven.
Suas pálpebras pesavam como se tivessem sido seladas com chumbo. Quando finalmente conseguiu abri-las, o mundo estava mergulhado em um tom de azul crepuscular. Ela estava viva.
Lyra tentou se sentar, mas um grito mudo morreu em sua garganta quando uma pontada aguda atravessou seu ombro. Ela olhou para baixo e viu o estrago: o salto do penhasco não fora limpo. As pedras haviam cobrado seu preço. Sua túnica esmeralda estava rasgada, revelando cortes superficiais, mas o que mais a preocupava era o formigamento de exaustão em suas mãos. O Fogo Solar não era uma fonte inesgotável; era uma parte de sua força vital, e ela a havia drenado quase por completo na capela.
— Alaric... — ela tossiu, o sal do mar queimando sua garganta.
Ele estava a poucos metros de distância, parcialmente submerso na água rasa. Alaric parecia um guerreiro caído de uma lenda esquecida. Sua armadura estava estilhaçada em vários pontos e as sombras que antes pulsavam com arrogância agora eram apenas fios tênues de fumaça cinzenta que se dissipavam no ar gelado.
Como alguém treinada para analisar crises, Lyra ignorou a própria dor. Ela rastejou sobre a areia gelada, os joelhos sangrando, até alcançar o corpo dele. Alaric estava pálido — uma palidez que Lyra, com seu conhecimento médico e psicológico, sabia ser o sinal de um choque hipovolêmico ou mágico. O Vazio, sem a luz dela para contê-lo, começara a devorar o próprio hospedeiro para se manter ativo durante a queda.
— Alaric, olhe para mim! — ela ordenou, segurando o rosto dele com as mãos trêmulas.
Ele abriu os olhos lentamente. O azul glacial estava turvo, as pupilas dilatadas pela dor.
— Você... deveria ter... me deixado cair — ele sussurrou, cada palavra parecendo um esforço hercúleo. — As sombras... elas estão com fome, Lyra. Se você ficar perto... eu vou drenar o que resta de você.
— Calado — ela disse, com uma autoridade que o silenciou. — Você é o meu único passaporte para fora deste inferno. E, se eu sobrevivi a um casamento forçado e a uma explosão mágica, não vou deixar você morrer em uma praia imunda.
Lyra olhou ao redor. Eles estavam em uma enseada isolada, cercada por paredões de rocha que pareciam intransponíveis. A neve começava a cair, flocos pesados que prometiam cobrir seus rastros, mas também congelar seus corpos em poucas horas. Ela avistou uma pequena f***a na rocha, uma caverna rasa que ofereceria proteção contra o vento cortante.
O que se seguiu foi um teste de resistência física que Lyra nunca imaginou enfrentar. Ela teve que arrastar Alaric, centímetro por centímetro, para fora da água e para dentro da caverna. Cada movimento era uma agonia; ela sentia o frio dele tentando roubar o pouco calor que ainda restava em suas veias.
Dentro da caverna, a escuridão era absoluta. Lyra colocou Alaric deitado sobre uma camada de musgo seco e começou a desabotoar o que restara da armadura dele. Seus dedos estavam entorpecidos, mas ela precisava avaliar os danos. O peito dele estava marcado por veias negras que pulsavam sob a pele, um sinal de que o Vazio estava tentando se expandir sem controle.
— Eu preciso... de fogo — ela murmurou para si mesma.
Ela não tinha fósforos ou madeira seca. Tudo o que ela tinha era o que restava dentro de si. Lyra fechou os olhos e buscou a pequena centelha solar em seu núcleo. Ela pensou na biblioteca de Veridian, no sol da tarde aquecendo sua pele enquanto estudava. Ela canalizou essa memória para as palmas das mãos.
Uma luz âmbar fraca e trêmula surgiu, iluminando o rosto atormentado de Alaric. Ela não usou o poder para atacar; ela o usou como um cobertor. Lyra deitou-se ao lado dele, envolvendo o corpo gelado do príncipe com o seu.
O contraste foi violento. O frio dele era como agulhas de gelo penetrando em sua pele, enquanto o calor dela era a única coisa que impedia o coração dele de parar. No início, Alaric tentou se afastar, um resquício de sua vontade de protegê-la de sua maldição, mas Lyra o segurou com força.
— Não lute contra mim desta vez — ela sussurrou contra o pescoço dele. — Deixe-me ser o seu equilíbrio.
Lentamente, a respiração de Alaric começou a se estabilizar. O calor de Lyra agia como um sedativo para as sombras. Pela primeira vez em toda a viagem, não havia espiões, não havia um Conselho e não havia títulos. Havia apenas dois seres humanos lutando contra a natureza e contra os monstros que carregavam dentro de si.
— Por que me salvou de verdade, Lyra? — Alaric perguntou após um longo silêncio, sua voz agora um pouco mais firme, embora ainda carregada de fadiga. — Malakor disse que você é um recurso. Mas você age como se... como se se importasse com o homem que destruiu sua vida.
Lyra olhou para o teto da caverna, a luz de suas mãos projetando sombras suaves.
— Como psicóloga, Alaric, eu aprendi que as pessoas não são apenas o que fazem, mas o que são forçadas a ser. Você é um monstro porque lhe deram uma jaula de sombras. Eu quero ver quem você é quando a porta da jaula é aberta. Além disso... — ela deu um sorriso triste — ...odeio deixar uma história sem final.
Alaric não respondeu, mas sua mão subiu e encontrou a dela sobre o seu peito. Ele não drenou a energia dela. Ele apenas segurou sua mão, um gesto humano e simples que valia mais do que qualquer juramento real.
Eles sabiam que Malakor não desistiria. O amanhecer traria cães de caça e sombras assassinas. Mas naquela caverna gelada, o Sol e o Vazio haviam encontrado um ponto de repouso. E Lyra percebeu, com um medo renovado, que o perigo não era mais apenas Malakor. O verdadeiro perigo era o que aconteceria se ela realmente começasse a amar o homem sob a escuridão.