O Refúgio dos Esquecidos

964 Words
O sol nasceu como uma ferida aberta no horizonte, pintando a neve de um tom escarlate perturbador. Lyra acordou com o corpo dorido, mas o calor que emanava de Alaric — agora um calor mais estável, embora ainda carregado de uma frieza latente — indicava que ambos tinham sobrevivido à primeira noite. A caverna, que parecia um túmulo horas antes, agora era apenas um abrigo apertado e húmido. — Temos de nos mover — Alaric disse. Ele já estava sentado, limpando a fuligem da pele com um pedaço de neve. Seus movimentos eram lentos, mas a clareza tinha voltado aos seus olhos. — Malakor conhece estas costas. Se ele não encontrar corpos nos destroços da capela, ele enviará os Rastreadores. — Para onde vamos? — Lyra perguntou, tentando ignorar a trepidação nas suas mãos enquanto prendia o cabelo. — Não podemos voltar para Veridian, e o teu castelo é agora o covil do inimigo. Alaric olhou para o norte, onde a floresta de pinheiros negros se encontrava com a montanha. — Existe um lugar. Uma vila de exilados. Aqueles que o Conselho das Sombras considerou "impuros" ou "quebrados" demais para servir ao exército. Eles vivem nas margens da sociedade, escondidos pela neblina permanente do Vale das Cinzas. Se alguém pode esconder um Príncipe caído e uma Chama de Veridian, são eles. A caminhada até ao vale foi uma provação. O terreno era traiçoeiro, composto por rochas vulcânicas escorregadias e neve profunda. Como psicóloga, Lyra observava Alaric. Ele estava num estado de choque emocional que tentava mascarar com rigidez militar. O homem que governava com punho de ferro estava agora a fugir do seu próprio povo. A desorientação dele era visível na forma como hesitava ao escolher os caminhos. — Estás a analisar-me outra vez, Lyra? — ele perguntou, sem se virar, mas com um tom que não era agressivo, apenas cansado. — É difícil desligar o hábito — ela admitiu, ofegante pelo esforço. — Estás a passar por um processo de luto, Alaric. Luto pela lealdade que achavas que tinhas, pela segurança do teu trono. Perder o controlo é a maior fobia de um perfil como o teu. — Eu nunca tive o controlo — ele confessou, parando para ajudá-la a subir um desnível de rocha. A mão dele, embora ainda fria, não dreno a sua energia; parecia estar a aprender a conviver com o calor dela. — Malakor sempre foi a sombra atrás do trono. Eu era apenas a arma que ele polia. Ao meio-dia, o cenário mudou. O ar tornou-se mais denso e o cheiro de fumaça de turfa indicava civilização. Entre as árvores retorcidas, surgiram cabanas feitas de turfa e ossos de baleia, camufladas contra a encosta da montanha. Não havia guardas, mas Lyra sentiu dezenas de olhos sobre eles. Eram pessoas de pele pálida, vestidas com peles remendadas, cujas runas nos braços estavam apagadas ou deformadas — sinais de que tinham sido privados da sua conexão mágica com o Vazio. Um homem idoso, com uma cicatriz que lhe atravessava todo o rosto, saiu da cabana maior. Ele olhou para Alaric e, por um momento, o silêncio foi absoluto. Lyra preparou-se para invocar o Fogo Solar, esperando hostilidade. No entanto, o homem apenas se inclinou levemente. — O Príncipe que não devia ser, e a Luz que não devia estar aqui — disse o velho, com uma voz que soava como cascalho. — Malakor já enviou corvos. Ele diz que tu a mataste e que enlouqueceste. — Malakor mente como respira, Soren — Alaric respondeu, a sua voz recuperando um pouco da gravidade real. — Precisamos de abrigo. E ela precisa de comida. Soren olhou para Lyra com uma curiosidade profunda. — Uma psicóloga de Veridian nas nossas terras de cinza. Fascinante. Entrem. Mas saibam disto: aqui, as sombras não obedecem a coroas. Aqui, sobrevivemos porque somos invisíveis. Se trouxerem o brilho de Malakor para o nosso vale, eu mesmo vos entregarei ao mar. Dentro da cabana principal, o ambiente era surpreendentemente acolhedor, apesar da pobreza. Havia um caldeirão com sopa de raízes e o calor de uma lareira comum. Lyra sentou-se, sentindo os seus músculos finalmente relaxarem. Alaric, por outro lado, permanecia de pé, como um cão de guarda. — Come, Alaric — Lyra ordenou suavemente. — Precisas de recuperar a tua força se queres lutar contra o que vem a seguir. — O que vem a seguir é pior do que imaginas — Soren interrompeu, colocando duas taças de madeira à frente deles. — Malakor não quer apenas o trono. Ele está a tentar invocar o "Vazio Primordial", algo que os teus antepassados selaram há mil anos. Ele acredita que o sangue de vocês dois, unido pelo ritual que ele corrompeu, é a chave para abrir o portão permanentemente. Ele não vai apenas caçar-vos. Ele vai drenar o mundo inteiro para vos encontrar. Lyra olhou para Alaric. A revelação de Soren mudava tudo. Não era mais apenas sobre sobrevivência pessoal ou sobre o trono de Oakhaven. Era sobre impedir que o fim do mundo começasse ali, entre a neve e o sangue. — Então temos de aprender a usar o que temos — Lyra disse, a sua mente já a traçar um plano. — Alaric, tu ensinaste-me a lutar com a luz. Agora, estes exilados vão ensinar-nos como lutar sem as regras do teu Conselho. Naquela noite, na vila dos exilados, a relação entre Lyra e Alaric mudou novamente. Eles não eram mais apenas dois fugitivos. Eles tornaram-se o núcleo de uma resistência que o mundo tinha esquecido que existia. E enquanto a neve caía lá fora, escondendo o Vale das Cinzas do resto do mundo, Lyra percebeu que a sua maior arma não era o seu poder, mas a humanidade que ela estava a forçar Alaric a recuperar.
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