Nancy Keller
A conversa com a Dona Flor continua enquanto o aroma da torta de maçã se espalha pela casa inteira.
É um cheiro que invade tudo. A sala, o corredor, a cozinha. Um cheiro doce, quente, reconfortante. Um cheiro que me faz respirar mais fundo sem perceber, como se aquele simples detalhe fosse capaz de me acalmar por dentro.
Eu amo esse aroma. E quando ela colocar canela, então, já salivo só de imaginar.
A torta de maçã da minha mãe sempre foi a minha sobremesa preferida. Desde criança. E eu nunca consegui fazê-la ficar igual. Já tentei copiar a receita, seguir cada passo, medir tudo com cuidado. Nunca fica a mesma coisa. Sempre falta alguma coisa que eu não sei explicar. Um toque que só ela tem.
Talvez seja amor. Ou, talvez tenha algo que ela não me contou.
Enquanto Dona Flor fala sobre assuntos diversos, eu me pego pensando em como seria bom aprender esse segredo um dia. Não por vaidade. Mas porque, se um dia eu tiver minha própria casa, meus próprios filhos… eu gostaria que esse cheiro fizesse parte da minha vida também. Ainda vou insistir nisso.
Ouço passos vindos do corredor.
Geyse aparece na sala com o cabelo ainda úmido, vestindo roupas confortáveis. O banho parece ter levado embora parte do cansaço do dia, mas não todo. Nunca leva tudo.
— Finalmente... — Digo, sorrindo e indo até ela na sala. — Como foi hoje?
Ela se joga no sofá ao meu lado e suspira.
— Cansativo demais. — Responde. — Teve até confusão no restaurante.
Viro o rosto para ela imediatamente.
— Confusão como?
— Daquelas que a gente vê em filme rüim, sabe. — Ela faz um gesto exagerado com a mão. — Um cara estava almoçando com uma mulher. Tudo normal. Aí, do nada, outra mulher entra...
— E…? — Incentivo.
— Era a esposa. — Ela completa. — Ele estava lá com a amante. O homem levou a amante para almoçar num restaurante.
Abro a boca, chocada.
— Sério?
— Sério. — Geyse ri, mas é um riso nervoso. — Começou com gritos. Depois veio xingamento. Depois tapa. Depois comida voando pra todo lado... foi uma loucura. Isso não acontece sempre... puro entretenimento.
— Meu Deus… — Murmuro.
— Foi uma cena maluca. Triste também. Todo mundo olhando, ninguém sabendo o que fazer. O cara tentando separar, as duas mulheres fora de si.
Fico em silêncio, ouvindo.
Enquanto ela fala, imagens antigas passam pela minha mente. Casais para quem já trabalhei. Casas bonitas por fora, cheias de rachaduras por dentro. Pais que chegavam tarde demais. Mães que saíam cedo demais. Telefones escondidos, conversas interrompidas quando eu entrava no ambiente.
Traições silenciosas. Às vezes nem tão silenciosas assim.
Já vi casais que permaneciam juntos apenas por obrigação. Por aparência. Por filhos. E traíam um ao outro como se fosse um acordo não dito. É triste. Principalmente quando existem crianças envolvidas. Eu imagino que isso não dure pra sempre. Uma hora tudo se rompe e as crianças são as mais afetadas.
Crianças sentem tudo. Mesmo quando fingimos que não.
— Já vi muita coisa assim... — Digo, depois de um tempo. — Trabalhando como babá, então… é impossível não perceber.
Geyse concorda.
— É horrível crescer nesse tipo de ambiente.
— É.
Sei ao que ela se refere. A gente.
Mas, o meu pensamento muda de direção quase automaticamente.
Só tive um namorado na vida. Um único. E durou pouco. Nove meses, para ser exata. No começo, parecia bom. Ele era atencioso, carinhoso. Eu gostava dele. Gostava mesmo. Mas as mentiras começaram a aparecer. Pequenas no início. Depois maiores. Quando percebi, tudo tinha ido para o ralo.
Descobrir a verdade me fez sentir nojo. Não só dele. De tudo o que representava aquela relação. Não foi só decepção. Foi repulsa.
Desde então, nunca mais tentei de novo. E claro, o meu foco é outro.
— Mas mudando de assunto... — Geyse diz de repente, mudando o tom. — Vou receber uma bonificação esse mês.
Viro para ela surpresa.
— Sério?
— Funcionária de destaque do mês. — Ela fala, com um sorriso orgulhoso. — E ainda ganhei um cupom de jantar. Dá pra levar dois acompanhantes.
— Geyse! — Exclamo. — Parabéns!
Ela ri, satisfeita.
— Nem acredito ainda. É um bom bônus e o jantar é pra nós... vão gostar! A comida de lá é uma delícia!
Fico feliz por ela. De verdade. E, ao mesmo tempo, isso só reforça o quanto eu preciso trabalhar. Preciso sentir essa sensação também. De conquista. De utilidade. Eu trabalhei sempre, desde cedo. Comecei aos quinze anos sendo babá, mas era vigiada. Ganhava uns trocados e fui pegando o jeito. Hoje, com meus vinte e cinco anos, eu posso dizer que amo crianças.
Nesse momento, minha mãe aparece na porta da cozinha.
— Vem comer antes que esfrie.
Nos acomodamos à mesa. Dona Flor continua falando, contando histórias antigas, comentando sobre conhecidos. A torta é colocada no centro, ainda quente. O cheiro é ainda mais intenso agora. E claro, tem aquela camada generosa de canela por cima.
Estou babando.
Dou a primeira mordida e fecho os olhos por um segundo.
Perfeita!
Doce na medida certa. A massa macia. A maçã no ponto exato. Dá vontade de comer a travessa inteira.
Enquanto mastigo, Dona Flor se inclina um pouco para frente.
— Ah, Nancy… — Ela diz. — Mandei mensagem pra Odete.
Meu coração dispara.
— E…? — Pergunto, tentando parecer calma.
— Ela disse que ainda não contratou ninguém. — Dona Flor continua. — Pediu referências suas. E seu contato também.
Sinto uma explosão de animação dentro de mim.
— Sério? — Pergunto, quase sem acreditar.
— Sério. — Ela sorri. — Falei muito bem de você e já falei que você ama crianças.
— Muito obrigada, Dona Flor. — Digo, emocionada. — De verdade.
Geyse franze a testa.
— Quem é Odete? — Pergunta.
— Uma amiga minha. — Dona Flor responde naturalmente.
Voltamos a conversar. Conto sobre as minhas experiências, sobre os bebês que cuidei, sobre as crianças maiores, sobre como sempre gostei desse trabalho. Enquanto falo, sinto algo diferente no ar.
Dessa vez pode dar certo.
O jeito que a dona Flor me ouve, mostra que, além de ela querer saber, ela irá contar isso tudo a Odete.
— Ela deve te ligar amanhã... fica de olho nesse celular. — Dona Flor diz, por fim.
Assinto, com o coração acelerado.
Depois de um tempo, Dona Flor vai embora. Assim que a porta se fecha, deixo o meu celular em cima da mesa, com o volume no máximo. Não vou ter erro de não ouvir esse aparelho amanhã.
— Você quer mesmo essa vaga? — Geyse pergunta, me observando.
— Quero pelo menos conhecer. — Respondo. — Ver como é. Se as condições forem boas… eu quero, sim.
— Trabalhar pra gente rica deve ser melhor... — Ela comenta.
— E é uma bebê. — Acrescento. — Bebê é garantia de trabalho por anos. Não é?
Ela concorda.
Fico imaginando a tal mansão. Um lugar grande, bonito, silencioso. Uma bebê pequena, frágil. O sorriso fácil. O jeito curioso. O modo como tentam falar, como engatinham, como seguram os nossos dedos com força. Eu adoro essa leveza que bebês tem e as que cuidei, me apeguei muito e tive como se fossem minhas.
Eu amo bebês.
Torço para que esse trabalho seja bom. Que pague bem. Que seja a chance que eu preciso.
Tenho contas para pagar. Coisas que não podem acumular. Não quero virar uma bola de neve. E me sinto responsável pela minha mãe e pela Geyse. Afinal, foi ideia minha vir pra cá. Foi minha decisão.
Agora, eu preciso sustentar essa escolha.
E, pela primeira vez em semanas, vou dormir com esperança.