Nancy Keller
Eu acordo lentamente.
Meu quarto ainda está levemente escuro, mergulhado naquele silêncio pesado que só existe antes do amanhecer. Bocejo, estico os braços acima da cabeça e me espreguiço devagar, tentando entender que horas são. Por alguns segundos, não faço ideia. Só sinto o corpo pesado, quente debaixo do cobertor.
Procuro o celular na mesa de cabeceira e o puxo para perto. A tela acende e me informa que o sol ainda nem nasceu. O céu continua preto lá fora.
E, nesse instante, eu perco completamente o sono.
Viro de lado, puxo o cobertor, fecho os olhos. Tento respirar fundo, desacelerar os pensamentos. Não adianta. A minha mente está ligada demais. Cheia demais. Ansiosa demais.
Viro para o outro lado.
Nada.
Fico olhando para o teto, contando mentalmente os segundos, depois os minutos. O silêncio começa a incomodar. Cada pequeno som da casa parece alto demais. Então vejo uma luz acesa no corredor. Respiro fundo e desisto de tentar dormir.
Me levanto devagar, para não fazer barulho, e vou até o banheiro. Escovo os dentes ainda meio sonolenta, prendo o cabelo num coque frouxo e me observo rapidamente no espelho. As pontas estão ressecadas, sem vida.
Preciso cortar esse cabelo urgentemente.
Ele pede socorro.
Saio do quarto e encontro Geyse no corredor, já quase arrumada para sair. Ela ajeita a bolsa no ombro e me encara com uma sobrancelha erguida.
— Bom dia… — Ela diz. — O que você está fazendo acordada essa hora?
— Perdi o sono. — Respondo, dando de ombros.
Ela me observa por alguns segundos, depois sorri de canto.
— Ansiedade pela vaga de babá... acha que eu não sei?
Não negö.
— Total.
Ela ri baixo, como quem entende perfeitamente.
Enquanto caminho em direção à cozinha, uma lembrança do sonho da noite anterior me atravessa a mente com força. Foi um sonho profundo. Diferente. Eu estava dentro de uma casa enorme, iluminada, cuidando de uma criança pequena. Uma meninazinha.
Ela tinha dois lacinhos no cabelo.
Era curiosa, sorridente. Me puxava pela mão, queria mostrar tudo. Cada canto da casa. Cada detalhe. Lembro bem e foi uma fofura. Mas, claro, não será assim já que se der certo, vou cuidar de uma bebê.
Na cozinha, começo a preparar o café da manhã. Faço café fresco, coloco queijos sobre a mesa, abro potes de geleia e mel. Bato ovos mexidos, corto pães, organizo tudo com cuidado.
Deixo a mesa bonita e cheia. A fome começa a surgir em mim.
Espero.
Minha mãe aparece pouco depois, ainda sonolenta, e me observa com atenção.
— Você caiu da cama? — Pergunta, confusa.
Rio.
— Só pedi o sono, mãe... nada demais.
Ela balança a cabeça, sorrindo, e se senta. Pouco depois, Geyse se junta a nós e as três tomamos café juntas. É um momento simples, mas confortável. Um daqueles momentos que eu aprendi a valorizar muito depois de tudo o que passamos.
Sempre fazemos alguma refeição juntas. Aqui, cada uma luta pela outra.
Geyse é a única que vai sair até o momento. Ela tem um curso de duas horas nesta dmanhã e depois vai direto para o restaurante. O turno ela é pouco antes do almoço e vai até o fim da tarde. Um horário que ela gosta, porque mantém as noites livres.
— Boa sorte no curso. — Digo quando Geyse se levanta.
— Obrigada. — ela responde. — Boa sorte pra você também. Benção, mãe.
— Deus te abençoe.
Ela sai, e eu fico com minha mãe organizando a cozinha. Como ontem foi dia de faxina, não há muita coisa para fazer. Mesmo assim, eu me mantenho ocupada, tentando não olhar para o celular a cada cinco segundos.
Não funciona.
O aparelho parece pesar na minha mão. Cada notificação me faz pular. Cada vibração me dá um frio na barriga. Minha mãe percebe.
— Você não precisa ficar assim... — Ela diz, com calma. — Se for pra ser, vai ser.
— Eu sei… — Respondo. — Mas não consigo controlar.
As horas passam devagar demais.
O relógio marca oito da manhã.
Depois nove.
Depois dez.
E a frustração começa a crescer dentro de mim, pesada e incômoda. Quem quer contratar costuma ligar cedo. Muito cedo. Começo a pensar que talvez não vá dar certo.
Para distrair a mente, ajudo minha mãe com alguns detalhes de costura. Fico perto da máquina, passando linhas, organizando tecidos. Tento focar no som repetitivo da agulha. No movimento.
Então, de repente, o celular toca.
Um número que não está salvo e o meu coração dispara.
Quase deixo o aparelho cair no chão de tão nervosa. Seguro firme, respiro fundo e atendo.
— Alô?
— Nancy Keller? — Uma voz feminina pergunta do outro lado.
— Sim, sou eu.
— Aqui é Odete. Soube que você está procurando trabalho como babá.
Engulo em seco.
— Sim, estou.
— Dona Flor falou muito bem de você. — Ela continua. — Gostaria de fazer uma entrevista ainda hoje. Você pode vir?
O meu coração começa a bater mais rápido ainda.
— Posso, sim. — Respondo. — Só preciso do endereço.
— A casa fica afastada da cidade, querida. — Ela explica. — Normalmente é difícil conseguir táxi ou transporte até aqui. Vou mandar um motorista buscá-la e depois deixá-la em casa. O que acha?
Fico surpresa.
— Ah… certo.
Se não fosse pela Dona Flor, eu recusaria na hora. Um carro vindo me buscar assim, sem conhecer ninguém… seria estranho demais. Mas Flor trabalhou lá. Conhece o lugar e garantiu que é um ambiente bom.
— O motorista se chama Hans. — Odete diz. — Ele chega em uma hora. Pode me passar seu endereço?
Gravo o nome na cabeça.
Hans.
Passo o endereço e confirmamos tudo. Minha mãe acompanha a conversa em silêncio, atenta. Quando desligo, dou um pequeno salto no lugar.
— Eu tenho uma entrevista! — Anuncio.
Minha mãe franze o cenho.
— Você tem certeza de que acha uma boa ideia ir no carro de alguém que você não conhece?
— Eu aceitei por causa da Dona Flor, mãe. — Respondo rápido. — Ela é de confiança. Conhece a casa.
Ela pensa por alguns segundos, depois suspira.
— Está bem. Vamos nos preparar, então.
Corro para o quarto, tomo um banho rápido, escolho uma roupa simples, mas arrumada. Meu coração está acelerado. Minha mente cheia de possibilidades.
Quero trabalhar. Preciso trabalhar.
{ . . . }
O carro já chegou e é hora de ir.
Me despeço da minha mãe, peço a bênção e ela me dá um beijo na testa.
— Tome cuidado e me dê notícias. — Eu aceno. — Boa sorte!
— Obrigada, mãe.
Entro, me apresento ao motorista. Hans é educado, fala pouco e se concentra na estrada.
O caminho é calmo.
Saímos da cidade aos poucos. As ruas movimentadas ficam para trás e surgem árvores, silêncio, uma sensação estranha de distância do mundo. Essa estrada é bonita. Tem um ar mais puro e eu fico observando.
O percurso não é rápido. Realmente é longe e fico chocada com esse caminho. Já estou aqui há mais de quarenta minutos. E nessa estrada, ele vai mais rápido.
— Estamos chegando. — Hans diz em certo momento.
Assinto, olhando pela janela.
Então vejo.
Uma mansão imensa surge diante de mim. Uma propriedade linda, luxuosa. Algo que parece saído diretamente de um filme. Fico desconcertada por alguns segundos.
O carro entra lentamente. Vejo o gramado impecável, um chafariz, a casa gigantesca à frente. Luxo puro. Dinheiro demais. É coisa de gente que tem dinheiro de sobra.
Respiro fundo.
Peço em silêncio para que tudo dê certo. Que seja um bom trabalho. Que seja correto. Que eu não esteja me iludindo de novo.
O carro para. Desço devagar.
Uma senhora se aproxima. Elegante, postura firme, olhar atento.
— Nancy? — Ela pergunta.
— Sim.
— Sou Odete. Seja bem-vinda!
Aperto a mão dela. O gesto é firme. E, naquele instante, sinto algo bom.
Uma energia tranquila e isso me deixa mais relaxada.
É hora de conhecer o lugar e o trabalho.