CAP 4

1301 Words
Nancy Keller Sou convidada a entrar. Assim que cruzo a porta da mansão, tenho a sensação imediata de estar invadindo um lugar que não foi feito para pessoas como eu. O som dos meus passos ecoa no chão impecavelmente polido, tão brilhante que quase reflete o meu rosto. Instintivamente, diminuo o ritmo, como se tivesse medo de fazer barulho demais ou de tocar em algo que não deveria. Tudo é claro. Branco, dourado e tons suaves de cinza se misturam em perfeita harmonia. As paredes são altas, absurdamente altas, e quando ergo o olhar, vejo lustres enormes pendendo do teto, delicados e imponentes ao mesmo tempo. A luz que entra pelas janelas gigantes ilumina cada canto, deixando tudo ainda mais reluzente. É imenso. Grande demais. Bonito demais. Perfeito demais. Luxuoso demais. Eu me sinto pequena aqui dentro. Deslocada. Como se qualquer movimento em falso pudesse quebrar a perfeição daquele lugar. As minhas mãos suam levemente. — É normal se sentir assim no começo. — A senhora Odete diz, percebendo o meu espanto. A sua voz é calma, acolhedora. — Mas logo você se acostuma. Se for contratada, claro. Viro o rosto para ela e sorrio, um sorriso tímido, quase inseguro. — É tudo… muito bonito. — Digo, escolhendo bem as palavras. Ela sorri de volta. — A casa impressiona mesmo. Mas não se preocupe que não demora para se habituar. Caminhamos alguns passos para dentro. Tento absorver cada detalhe, mesmo sabendo que talvez nunca mais volte aqui. Os móveis são sofisticados, elegantes, como se tivessem saído de uma revista de arquitetura. Nada parece fora do lugar. Nada parece antigo ou gasto. É como se tudo tivesse sido comprado ontem. Como se ninguém realmente morasse aqui. E isso me causa um leve arrepio. — Vamos conversar em um local mais reservado. — Odete diz, apontando para um corredor à esquerda. Sigo atrás dela, ajeitando discretamente a roupa, puxando os cabelos para trás da orelha. Tento parecer mais confiante do que me sinto. É inútil. Não há roupa, postura ou atitude que esconda o fato de que eu não pertenço a esse mundo. Entramos em uma sala menor, mas ainda assim elegante demais para ser chamada de “simples”. Um sofá claro, almofadas perfeitamente posicionadas, uma mesa de centro delicada e um aroma suave no ar, cheiro de ambiente limpo, fresco, agradável. Tudo impecável. — Fique à vontade. — Odete diz, apontando para o sofá. Sento com cuidado, mantendo a postura ereta, as mãos apoiadas no colo. Ela se senta no sofá à minha frente, cruzando as pernas com elegância. — Aceita um chá? — Pergunta. — Não, obrigada. — Respondo rapidamente. — Estou bem. Ela acena com a cabeça e, sem perder tempo, inicia a entrevista. — Então, Nancy… gostaria que me contasse um pouco sobre a sua experiência como babá. Especialmente com bebês. Respiro fundo. É a minha chance. Pego a minha bolsa, retiro o currículo que preparei com tanto cuidado e estendo para ela. — Eu comecei muito jovem. — Começo a dizer. — Sempre cuidei de crianças. Primeiro no bairro onde morava, depois mais profissionalmente. Já trabalhei com recém-nascidos, bebês de poucos meses, crianças pequenas e também maiores. Enquanto falo, Odete analisa o papel com atenção, passando os olhos pelas informações, pelas referências. E são referências reais que ela vai poder checar depois. — Sempre gostei de crianças. — Continuo. — Mas confesso que tenho um carinho especial por bebês. Ela levanta o olhar, interessada. — E por quê? Sorrio, sentindo algo apertar no peito. — Porque… — Faço uma breve pausa, tentando organizar os meus sentimentos. — Apesar de serem desafiadores, eles têm algo muito puro. A forma como olham para o mundo, como aprendem tudo do zero… o primeiro sorriso, as tentativas de falar, o jeito curioso. É tudo tão verdadeiro. Eles não fingem. Não sabem mentir. A alegria deles é genuína... e o processo de tudo é lindo. Percebo a minha própria emoção nas palavras. — Eu amo acompanhar o desenvolvimento. — Continuo. — Ver cada pequena conquista. Um som novo, um gesto diferente, um olhar mais atento. Bebês representam algo novo, algo limpo, sem maldade. E isso… — Engulo em seco. — Isso sempre me deu força. Odete sorri, um sorriso sincero. — É bonito ouvir isso. — Ela diz. — Nem todo mundo fala de bebês dessa forma. Sinto as minhas bochechas esquentarem. — Desculpa… acho que me empolguei um pouco. — Não se desculpe. — Ela responde com suavidade. — Isso é um ponto positivo. A entrevista continua. Ela faz perguntas mais técnicas agora. Situações hipotéticas. Emergências. Rotina. Horários. Alimentação. Trocas. Sono. Desenvolvimento. Ela sabe bem o que está fazendo e nunca me perguntaram tanta coisa. A senhora Odete é muito analista. — E se o bebê apresentar febre durante a madrugada? — Ela pergunta. — Verifico a temperatura, observo outros sintomas, sigo as orientações médicas previamente indicadas e, se necessário, aciono ajuda imediatamente. — Respondo sem hesitar. — E se engasgar? — Manobra adequada para a idade, manter a calma e agir rápido. Já passei por momentos assim. Ela acena, satisfeita. Nunca fui tão testada em uma entrevista. Cada pergunta parece avaliar não só meu conhecimento, mas minha capacidade emocional. Minha firmeza. Minha responsabilidade. Depois de um tempo que parece longo e curto ao mesmo tempo, Odete se levanta. — Vou lhe mostrar um pouco da casa. — Diz. — Apenas o andar de baixo. Caminhamos novamente. Conheço a cozinha ampla, moderna, perfeitamente equipada. A sala de jantar com uma mesa enorme, capaz de acomodar muitas pessoas. O jardim nos fundos, verde, bem cuidado, silencioso. Tudo respira luxo. Tudo respira dinheiro. E eu começo a me animar. Ela não mostraria tudo isso se não estivesse considerando a minha contratação. É o que penso. É o que espero. Mas algo começa a martelar na minha cabeça. — Senhora Odete… — Digo, com cuidado. — Onde está o bebê? Ela para, vira-se para mim e sorri. — Uma das funcionárias está cuidando dela no momento. Mas isso não poderá continuar por muito tempo. Ela tem família, compromissos… precisamos de alguém fixo. Aceno, compreensiva. Então ela fica séria. Um pouco mais formal. — Sobre a criança... — Diz — Peço que não faça muitas perguntas. Meu corpo fica atento. — O que posso dizer é que ela é linda, saudável, nasceu há pouco tempo e precisa de cuidados experientes. — Ela respira fundo. — O salário é excelente. Oferecemos moradia, alimentação, transporte, benefícios e flexibilidade para folgas quando necessário. Haverá um quarto exclusivo para você, totalmente equipado. Não faltará nada. Ela me encara diretamente. — Qualquer necessidade, você falará comigo. Aceno novamente. — Eu entendo. — Respondo, mesmo sentindo uma pontada de estranheza. — E eu quero muito essa vaga. E é verdade. Apesar de algo não estar sendo dito, eu preciso desse trabalho. Odete sorri, satisfeita. Se a criança é saudável e não tem alguma condição especial, acho que não preciso temer. — Agradeço por ter vindo, Nancy. Entraremos em contato. Ela me acompanha até a saída e me entrega um papel. — Aqui estão os detalhes da vaga. Leia com atenção! Agradeço, aperto a sua mão e sigo até o carro, onde Hans já me espera. No caminho de volta, abro o papel que ela me deu. Tem bastante coisa sobre a casa, a rotina e vou lendo com atenção. Até que os meus olhos quase saltam. O salário é… inacreditável. Muito acima de tudo o que já ganhei. Benefícios completos como ela falou como: moradia, alimentação e mais. Praticamente nenhum gasto pessoal. Meu coração acelera. Eu quero esse trabalho. Preciso desse trabalho. E, pela primeira vez em semanas, me permito torcer de verdade para que o telefone toque com uma boa notícia. E claro, eu vou ficar grudada nesse aparelho.
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