Nancy Keller
Assim que a porta de casa se fecha atrás de mim, sinto o peso do dia cair sobre os meus ombros.
Tiro os sapatos com pressa e sigo direto para a sala, onde a minha mãe está sentada no sofá, costurando com atenção, mas com o olhar claramente inquieto. Ela ergue a cabeça assim que me vê, os olhos cheios de curiosidade.
Ela larga tudo!
— E então? — Pergunta, largando o tecido no colo. — Como foi?
Não respondo de imediato.
Apenas me jogo no sofá ao lado dela, soltando um suspiro longo, cansado, como se estivesse segurando tudo aquilo há horas.
E claro, querendo fazer suspense.
— Foi… muito bom. — Digo, enfim.
Minha mãe se inclina levemente para frente.
— Muito bom como?
Viro o rosto para ela e começo a rir sozinha, um riso quase incrédulo.
— Mãe, a dona Flor não exagerou em nada... nada mesmo. — Falo. — O lugar é realmente afastado para ir todo dia. E é luxo. Luxo de verdade. Luxo de mansão de cinema... de gente rica ao extremo.
Os olhos dela se arregalam.
— Sério?
— É uma mansão gigante. — Faço um gesto amplo com as mãos. — Parece coisa de filme. A propriedade inteira é enorme, jardim lindo, gramado impecável e de dar inveja, tudo impecável. E por dentro… — Balanço a cabeça. — Tudo brilha. Tudo é claro, organizado, novo. Não tem uma poeira naquele lugar.
Minha mãe leva a mão à boca, chocada.
— Meu Deus…
— Eu fiquei até com medo de tocar nas coisas. — Confesso. — O chão parece espelho. Lustres enormes. Decoração toda branca, dourada, cinza… parecia que eu tinha entrado em outro mundo.
Ela me observa em silêncio enquanto continuo contando sobre a entrevista, sobre a senhora Odete, sobre as perguntas, sobre a forma como tudo foi conduzido com profissionalismo e calma.
Sobre a quantidade de portas que eu vi. O silêncio do lugar. Como tudo tem segurança. Enfim!
— Ela me fez várias perguntas. — Explico. — Situações de emergência, rotina, experiência… nunca fui tão testada numa entrevista.
— E o bebê? — A minha mãe pergunta, de repente. — Você conheceu a criança? Como ela é? É muito novinha?
A pergunta faz algo em mim travar por um segundo.
— Não. — Respondo. — Não conheci.
Ela franze o cenho imediatamente.
— Como assim?
— Ela disse que uma das funcionárias estava cuidando da bebê no momento e acho que, como foi a primeira ida, ela não quis expor a criança. — Explico. — E que a pessoa que cuida hoje não pode fazer isso por muito tempo. Tem seus motivos.
Minha mãe cruza os braços.
— Estranho…
— Tem mais. — Digo, sentindo o incômodo voltar. — Eu não posso perguntar nada sobre a criança. E nem sobre os pais.
Ela me encara, séria agora.
— Nada?
— Nada. — Afirmo. — Não vi fotos pela casa, não falaram quem são os donos, os patrões… nada. Só vi empregados ali.
O silêncio se instala entre nós.
Eu realmente fico pensando aqui no mistério disso tudo. Nunca vi nada igual!
— Isso não é normal, Nancy. — A minha mãe diz, devagar. — Geralmente são os pais que fazem a contratação.
— Eu sei. — Concordo. — Também achei estranho. Mas… — Dou de ombros. — Eles podem estar viajando. Ou ocupados, sei lá. Afinal, tem um bebê envolvido e como eles têm dinheiro... não dá para entender gente rica.
Ela não parece totalmente convencida.
— E você quer mesmo ir?
Respiro fundo antes de responder.
— Se me contratarem, eu vou.
Ela me observa por alguns segundos, como se estivesse tentando me ler por dentro e eu decido mostrar o motivo disso.
Pego o papel que recebi de Odete e entrego a ela.
— Olha isso.
Minha mãe ajusta os óculos e começa a ler. Vejo sua expressão mudar linha por linha. Primeira surpresa. Depois choque. Depois incredulidade. E quando ela chega no que eles oferecem, ela quase se engasga sozinha.
— Nancy… — Ela murmura. — Isso aqui é muito dinheiro.
— Eu sei. — Sorrio. — Muito mesmo.
Ela continua lendo os benefícios, a moradia, a alimentação, o transporte, a assistência.
— Meu Deus… — Ela repete. — Eu nunca vi isso aqui!
— Exatamente. E eu não ter gastos. — Digo. — Vai aliviar tudo aqui em casa. As contas, o aluguel, o mercado… Tudo fica mais tranquilo. Não tem como ignorar isso aqui.
Minha mãe suspira, larga o papel no colo e me encara.
— É um emprego perfeito demais. — Ela diz.
— Eu sei. — Sorrio de leve. — Mas eu não senti nada errado lá. O lugar é seguro, estruturado, organizado. Os funcionários são educados, a Odete é uma pessoa incrível. E a dona Flor conhece o lugar, trabalhou lá, garantiu que vale a pena.
Ela parece um pouco mais branda agora, mas a preocupação ainda está ali, evidente no olhar.
Ela assente lentamente.
— Se te ligarem… — Começa.
— Eu vou tentar! — Completo.
O resto do dia passa entre pequenas tarefas. Ajudo minha mãe em casa, organizo algumas coisas, saímos juntas para ir ao mercado. Em todo lugar, o meu celular está comigo. Volume no máximo. Qualquer vibração faz meu coração disparar.
Mas nada acontece.
Nenhuma ligação.
Nenhuma mensagem.
Quando voltamos para casa, a ansiedade já está quase insuportável. Eu fico pensando em muita coisa e me pergunto se mais alguém foi entrevistado também. Claro, pra um lugar daquele, seria impossível pensar que eu seria a única.
No fim da tarde, Geyse chega como sempre, cheia de energia.
— Oi, família! — Anuncia, largando a bolsa. — E aí, como foi a entrevista?
Sento à mesa com elas e conto tudo novamente. Mas agora, minha empolgação vem misturada com preocupação. Não consigo disfarçar! Eu me abalo fácil demais e fico com muita besteira na cabeça.
E ao olhar as horas, eu fico mais acreditada que hoje Odete não liga mais.
— Ainda não ligaram. — Confesso.
Geyse franze a testa.
— Mas ela disse que ligaria hoje?
— Não… — Admito. — Ela não falou o dia.
— Então calma! — A minha irmã diz, com simplicidade. — Ela deve ter outras obrigações. Deve analisar currículo, referências… amanhã ainda existe.
Penso por alguns segundos.
Talvez ela tenha razão.
— É… — Murmuro. — Pode ser.
Tentamos manter o clima leve. Preparamos uma comida simples, caseira, comemos juntas. Dou risada em alguns momentos, mas minha mente está longe.
Quando vou para o quarto, levo o celular comigo, coloco na mesa de cabeceira.
Deito.
Viro de um lado. Depois do outro. O coração bate rápido demais e a mente não desliga. Eu fico lembrando daquele lugar e penso aqui, quais as razões de não poder perguntar nada sobre a criança. E sobre os pais.
Será que são pessoas perigosas? Não, acha que não. Não faz sentido!
Horas passam. Sei disso porque olho o celular várias vezes. Duas da manhã. Três. Quase quatro.
Em algum momento, o cansaço vence e durmo.
Eu acordo assustada com o toque alto do celular e eu quase caio da cama. O sol mäl nasceu.
O meu coração quase sai pela boca, mas atendo.
— Alô?
— Bom dia, Nancy! — Diz a voz calma do outro lado. — Aqui é a senhora Odete.
Sento na cama imediatamente.
— Bom dia… tudo bem?
— Sim. Liguei para avisar que a vaga é sua.
Por um segundo, não consigo falar.
Meu peitö se enche de algo quente, bom, forte.
— Sério? — A minha voz sai quase um sussurro.
— Sim! — Ela confirma. — Se ainda tiver interesse, claro.
Um sorriso enorme se abre no meu rosto.
— Eu tenho — respondo, emocionada. — Muito.
— Ótimo! — Ela diz. — Combinaremos os próximos detalhes ainda hoje.
E eu fico aqui, sentada na cama, sorrindo sozinha, sentindo que, finalmente as coisas estejam começando a dar certo.
Eu tenho um emprego!