Nancy Keller
Eu ainda estou com o celular na mão quando a ficha cai.
Tenho um emprego.
Um emprego de verdade.
O meu coração dispara de um jeito quase assustador, e antes mesmo de pensar direito, depois de desligar, eu pulo da cama. Saio do quarto correndo, descalça, o cabelo todo bagunçado, a boca precisando ser escovada, mas o sorriso escancarado no rosto.
— MÃE! — Grito pelo corredor. — MÃE, EU CONSEGUI!
A minha voz ecoa pela casa pequena, e não demora nem dois segundos para a minha mãe aparecer na porta da cozinha, com um pano de prato na mão e o susto estampado no rosto.
— Conseguiu o quê, menina?!
— O emprego! — Digo, quase sem ar. — Ela ligou! A vaga é minha!
Minha irmã surge logo atrás dela, atraída pelo barulho.
— O QUÊ?! — Geyse grita, arregalando os olhos.
— EU CONSEGUI O EMPREGO! — Repito, rindo e quase chorando ao mesmo tempo.
Geyse solta um grito tão alto que parece comemoração de gol em final de campeonato. Ela vem pra cima de mim e me abraça com força, pulando comigo no meio da sala. Eu estou eufórica com isso tudo.
Eu nem sinto mais cansaço.
— EU SABIA! — Ela diz. — Eu sabia que ia dar certo! Isso é incrível, Nancy!
Minha mãe larga o pano em cima da mesa e se aproxima, com um sorriso emocionado. Ela me abraça também, mais apertado, mais demorado.
— Graças a Deus… — Ela murmura. — Eu sabia que algo bom ia acontecer.
A alegria dura alguns segundos antes do pensamento inevitável surgir.
— Mas… — A minha mãe se afasta um pouco e me encara. — Você vai morar lá. Ah, meu Deus!
Ela sabe disso, mas enfim.
— Vou.
Ela suspira, tentando disfarçar o aperto no peitö.
— Serão dias longe, minha filha...
Seguro as mãos dela imediatamente.
— Não, mãe. — Digo firme. — A gente vai se falar todos os dias. Videochamada, mensagem, ligação… tudo. E nas minhas folgas, eu volto. Sempre vou voltar pra ficar com vocês. Falamos disso.
Ela me observa por alguns segundos, como se estivesse tentando se convencer disso.
— Promete?
— Prometo.
Geyse cruza os braços, pensativa.
— E agora? Qual é o próximo passo?
— O próximo passo... — Eu digo recuperando o ar. — É organizar uma mala. Porque, eu vou hoje no fim da tarde.
— Hoje? — Geyse pergunta.
— Hoje! — Confirmo. — Ela vai mandar o motorista me buscar.
Isso parece reacender a empolgação em nós três.
— Meu Deus, você tem um emprego! — Geyse diz de novo, rindo. — Um emprego chique! Manda fotos de lá... eu quero ver.
Eu imaginei isso!
Nós nos abraçamos mais uma vez, rindo, comemorando, como se esse momento fosse uma vitória coletiva. Porque é. Sempre foi.
Não demora para minha mãe já começar a se mexer pela casa.
— Vamos arrumar essa mala logo. — Ela diz. — Você vai ter um quarto só seu, então precisa levar suas coisas.
Entramos no meu quarto, e ela pega a mala ao lago do guarda-roupas e abre a mala em cima da cama. Começa a separar roupas e mais itens. Camisas, vestidos simples, calças, peças confortáveis, lingerie.
Eu fico pensando no que mais vou levar e penso no que eu uso todos os dias.
— Leva isso... — Ela diz, dobrando uma blusa. — E isso aqui também.
Vou pegando os meus sapatos, organizando em sacos, colocando do lado. Separo objetos pessoais, produtos de higiene, algumas bolsas que sempre uso. É bastante coisa!
Enquanto faço isso, a realidade vai se assentando devagar.
Eu vou trabalhar e morar no meu trabalho.
É estranho pensar assim. É novo. Assustador. Mas também… empolgante.
Geyse ajuda um pouco, mas logo ela vai se arrumando, porque precisa sair para o curso.
— Vou tentar voltar rápido! — Ela diz, me abraçando. — Quero te ver indo embora.
— Vai com calma. — Respondo. — Eu vou estar aqui.
Depois que ela sai, eu ajudo a minha mãe com as coisas aqui e depois com as de casa. Limpo, organizo, deixo tudo arrumado. Não porque precisa, mas porque a minha mente não para um segundo sequer.
O dia parece se arrastar e eu sei que a culpa é da ansiedade.
Fico imaginando como vai ser esse trabalho. Como vai ser morar naquele lugar. Como vai ser acordar numa mansão. Tudo é completamente novo pra mim. E já me pergunto como será o lugar que eu vou ficar.
Mas uma coisa eu sei: ali não vai faltar nada.
Depois do almoço, alguém bate à porta.
Quando abro, dou de cara com dona Flor.
— Eu soube da novidade, querida Nancy! — Ela diz, sorrindo.
— Eu consegui! — Falo, animada.
— Eu fiquei muito feliz quando soube. Odete me ligou! — Ela responde. — Você vai gostar de lá. Todos os funcionários são pessoas muito boas.
Ela entra um pouco, conversa com a minha mãe, e reforça o que já tinha dito antes.
— O pagamento nunca atrasa. O lugar dá conforto, não deixa faltar nada. E a senhora Odete… você vai gostar muito dela. A comida de lá é perfeita também.
— Eu senti isso. — Digo. — Desde a entrevista.
Conversamos mais um pouco, o tempo passa quase sem perceber. Quando dona Flor vai embora, a ansiedade volta com força total. E eu volto a verificar as minhas coisas que eu vou levar. Passo um tempo olhando tudo e quase esqueci o carregador do celular e de um creme que uso muito.
Não demora muito e meu celular vibra.
Mensagem da senhora Odete:
Boa tarde, Nancy. O motorista está a caminho. Chega em poucos minutos.
O meu coração dispara.
— Mãe… — Digo, com a voz trêmula. — Ele está chegando.
— Respira, minha filha...
É, eu estou maluca e me sinto uma criança!
Pouco depois, Geyse entra em casa quase correndo e larga a bolsa no sofá.
— Cheguei a tempo! — Ela diz, ofegante.
As despedidas começam.
Minha mãe me abraça forte, como se quisesse me guardar dentro dos braços. E eu começo a sentir o peso da decisão. Dias longe, dias sem esse abraço e dias sem a comida dela. Mas, é por uma causa maior.
— Se cuida. — Ela diz. — Qualquer coisa, me liga. E me liga todo dia pra eu te ver.
— Eu vou ligar. — Prometo de novo.
— E manda fotos... — Geyse pede.
Quando o carro estaciona em frente à casa, o nó na garganta fica maior. O motorista desce, educado, pega minha mala e as bolas.
E aqui, mais abraços. Mais despedidas. E choro que vem que nós três.
Até que elas entendem que chegou a hora.
Entro no carro e fico olhando para elas até não dar mais para ver.
E eu sigo olhando pela janela, imaginando como serão os meus primeiros dias numa casa nova, num trabalho novo… e como deve ser a criança que eu vou cuidar. Se passa muita coisa na minha cabeça aqui e o motorista me dá os parabéns pelo emprego e garante que eu vou gostar.
Estou contando com isso!
Quando chegamos à mansão, sou recebida pela senhora Odete.
— Bem-vinda, Nancy! — Ela diz, com um sorriso calmo. — Vou te mostrar seu quarto. Vamos!
Nós entramos e seguimos por um corredor silencioso que fica à direita aqui em baixo mesmo e ela abre uma porta.
Eu fico sem palavras.
O quarto é enorme. A cama é imensa, extremamente luxuosa, parece macia só de olhar. Há um closet só pra mim. Um banheiro dentro do quarto, todo claro, moderno. Tem tudo aqui! Tem lençóis limpos, toalhas, kits de cama. Tudo!
— Este é o seu espaço. O seu quarto! — Ela diz.
Coloco a minha mala ali, olho ao redor, sentindo o coração bater forte.
Esse agora é o lugar onde vou viver.
Eu deixo para organizar depois e olho para ela.
— Está pronta? — Eu sorrio. — Está na hora de conhecer a Aurora.
E eu sinto um frio gostoso no estômago.
Aurora. Então eu vou cuidar de uma menina!
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{Tenham um pouco de paciência sobre o mistérios envolvidos. Logo teremos respostas!}