Nancy Keller
Aurora é um nome lindo. Gostei!
Eu caminho pela casa ao lado da senhora Odete e, a cada passo, sinto algo dentro de mim se acomodar melhor no lugar. Não é só o luxo, não é só o tamanho dessa mansão que ainda me deixa meio tonta. É o fato de que, finalmente, eu sei algo concreto sobre a criança.
É uma menina.
— Aurora é muito linda, vai ver. — Odete diz com a voz baixa, quase respeitosa, enquanto começa a subir a escada.
Aurora.
O nome ecoa dentro de mim de um jeito bonito, suave, como se tivesse sido feito sob medida para um bebê. Eu sorrio sem perceber. Uma menina. Eu adoro meninas. Sempre adorei. Tem algo nelas que me toca diferente. Os vestidos pequenos, os lacinhos no cabelo, o jeitinho delicado de segurar as coisas, o olhar curioso que parece sempre perguntar tudo ao mesmo tempo. Meninas têm uma doçura própria, uma leveza que me encanta desde sempre.
Elas são lindas princesas!
Subo as escadas com cuidado, observando tudo ao redor. Cada degrau parece me levar para dentro de um cenário de filme. O corrimão é firme, frio ao toque, perfeitamente polido. O silêncio da casa é confortável, quase solene. Não é um silêncio vazio, é um silêncio de lugar bem cuidado, organizado, onde tudo funciona como deve.
Quando chegamos ao segundo andar, meu olhar se perde.
O corredor é imenso, se estendendo para os dois lados. Um tapete longo cobre o chão, macio, de um tom claro que combina com as paredes. O teto é alto, alto demais, e eu quase sinto vontade de inclinar a cabeça para tentar alcançar com o olhar. Há várias portas, todas fechadas, todas iguais, e isso me faz pensar no quanto essa casa guarda segredos atrás de cada uma delas.
Por que tantas portas?
Isso é mania de gente rica?
— O quarto da Aurora fica aqui, mais perto da escada. — Odete diz, apontando.
Seguimos alguns passos e, quando a porta se abre, eu sinto antes mesmo de ver.
O cheiro.
É aquele cheirinho inconfundível de bebê. Produtos infantis, sabonete suave, talco, algo levemente adocicado e limpo. É um aroma que abraça, que acalma, que traz uma sensação imediata de cuidado. Meu coração aperta de um jeito bom.
Dentro do quarto, uma mulher está de costas, dobrando roupinhas pequenas sobre uma cômoda impecável.
— Margarida... — Chama Odete. — Essa é a Nancy Keller. A nova babá da Aurora.
A mulher se vira e sorri. Um sorriso gentil, acolhedor.
— Prazer, Nancy. Seja bem-vinda! — Ela diz, estendendo a mão. — Que bom que chegou, querida.
— Prazer e obrigada. — Respondo, apertando a mão dela. — Roupinhas de bebê são uma perfeição, né?
Margarida ri baixinho.
— São mesmo. A gente até esquece do tempo dobrando.
Meus olhos percorrem o quarto. Tudo aqui é pensado nos mínimos detalhes. As cores são claras, suaves, tranquilas. O berço chama a minha atenção imediatamente. Caminho até ele quase sem perceber, como se meus pés soubessem o caminho antes de mim.
E então eu a vejo.
Aurora dorme tranquilamente. Pequena. Tão pequena. As mãozinhas estão fechadas, delicadas, e o peitö sobe e desce num ritmo calmo. Ela tem bastante cabelo, é escuro, liso, e bochechas tão cheinhas que dá vontade de tocar só para ter certeza de que é real. O rostinho é sereno, como se o mundo ainda fosse um lugar completamente seguro para ela. Ela tem pele alva, bem delicada e me pergunto como deve ser os olhos dela.
Aposto que são lindos!
— Ela é linda… — Sussurro, sem conseguir evitar.
— É uma perfeição. — Odete concorda, também falando baixo. — A Aurora tem um mês e alguns dias. É saudável, graças a Deus. Toma leite formulado, nunca faltou e nunca vai faltar. Tudo o que ela precisa está aqui.
Leite formulado? Por que ela toma leite formulado?
Onde está a mãe dela?
Já percebo de imediato que eu não posso fazer perguntas sobre isso. Então, eu me calo!
Ela faz um gesto amplo com a mão, indicando o quarto.
— Fraldas, produtos de higiene, roupas, mantas. O banheiro é totalmente equipado. Qualquer coisa que precisar, é só perguntar.
Eu continuo olhando para o berço, sentindo algo estranho e bonito crescer dentro de mim. Essa criança é linda, mas cheia de mistérios.
Sério, onde está a mãe dela?
— Eu vou cuidar muito bem dela. — Digo, com convicção.
Odete me observa por um segundo a mais, como se estivesse avaliando não só minhas palavras, mas a intenção por trás delas.
— É exatamente por isso que precisamos de você com urgência. Queremos agluém que só tenha a Aurora como prioridade!
Nos afastamos um pouco do berço para não acordar a Aurora. Margarida começa a me mostrar tudo com paciência. Abre gavetas, aponta cada divisão, explica onde ficam as fraldas, os lenços, as pomadas, as roupas separadas por tamanho. Mostra onde ficam as reposições, os itens extras, tudo organizado de um jeito quase impecável.
Tudo aqui é calculado e tem lista para ser preenchida quando estiver perto de faltar algo. Mas, já vejo que vai demorar.
— Aqui não falta nada. — Ela diz. — E quando faltar, é só avisar.
O banheiro do quarto é enorme. Banheira própria para bebê, trocador, armários cheios, toalhas macias. Tudo parece novo, pouco usado, perfeitamente limpo.
E a Margarida me mostra a babá eletrônica. Perfeito!
— Hoje a Margarida ainda vai cuidar da Aurora. — Odete explica. — Assim você consegue organizar seu quarto com calma. Organize as suas roupas e pertences. Amanhã você começa oficialmente.
— Está ótimo! — Respondo, sentindo um alívio estranho por ter essa noite para me ambientar.
Saímos do quarto e seguimos pelo corredor. Odete começa a falar sobre o contrato.
— Inicialmente, o contrato é de três meses. Se tudo correr bem e espero que corra, estendemos para um ano, e depois vamos renovando conforme necessário.
Eu escuto atentamente. Três meses passam rápido, mas já é mais do que eu tinha antes.
Ela continua explicando os horários. Existe um horário certo para tudo. Para as refeições da casa, para o início das atividades dos funcionários, para quando eles finalizam e trocam de turnos. Ouço sobre a casa ter um ótimo sistema de segurança, ter homes pela propriedade.
Tudo funciona como um relógio bem ajustado.
— Algumas regras são importantes... — Odete diz, agora com um tom mais sério. — Não andar pela casa sem motivo. Existem salas e alas que não devem ser acessadas. Nada deve ser mexido, explorado ou remexido. A privacidade dos donos da casa deve ser respeitada acima de tudo. — Eu aceno. — Você pode usar a sala sem problema, pode usar aquela sala da entrevista, a varanda de lá, a cozinha. Mas, em específico, as salas de cima não podem ser acessadas.
Eu fico intrigada, mas não mostro.
— Isso não é problema pra mim. — Respondo de imediato. — Sempre respeitei o espaço dos meus patrões.
Ela para de andar e fica de frente para mim.
— E reforço algo que já disse antes: não pergunte sobre os donos da casa. Não é assunto. Seu trabalho é cuidar da Aurora.
Eu aceno com a cabeça.
— Entendi.
Por fora, minha resposta é firme. Por dentro, minha mente começa a girar.
Será que esses pais moram aqui?
A casa é enorme. Luxuosa. Viva. Mas eu não vi uma única foto, um único objeto pessoal que indique uma família com um bebê recém-nascido. Tudo parece… organizado demais. Neutro demais. Como um lugar que existe mais para funcionar do que para viver.
Mas eu empurro o pensamento para longe.
Eu estou aqui por um motivo. Pela Aurora. Pelo trabalho. Pela chance de mudar de vida.
Enquanto seguimos pelo corredor, eu sinto um misto de empolgação e responsabilidade. Aquela criança tão pequena vai depender de mim. Do meu cuidado, da minha atenção, da minha paciência. E isso, longe de me assustar, me dá uma estranha sensação de propósito.
Eu não sei quem são os pais da Aurora.
Não sei por que eles se escondem tanto.
Não sei o que essa casa realmente guarda.
Mas uma coisa eu sei com certeza absoluta, enquanto lembro do rostinho tranquilo dormindo no berço.
Eu quero ficar.
E eu vou cuidar dela e ver o que pode acontecer. Afinal, uma hora os pais dela terão que aparecer.
Não é?