CAP 8

1205 Words
Nancy Keller Perceber que vou dormir em uma cama tão grande e confortável ainda parece mentira. Eu fico parada no meio do quarto por alguns segundos, só olhando ao redor, como se, a qualquer momento, alguém fosse entrar e dizer que houve um engano, que esse quarto não é meu, que eu preciso pegar minhas coisas e voltar para um lugar menor, mais simples, mais… real. Mas não. E a Odete não parece ser uma pessoa que cometa erros. O quarto continua aqui. Imenso. Silencioso. Elegante. A cama ocupa boa parte do espaço, com lençóis claros, macios, perfeitamente esticados, como se ninguém jamais tivesse deitado ali antes de mim. Tudo ainda parece mentira. Vai demorar para eu me acostumar. Eu passo a mão pela colcha, sentindo a textura, e solto um suspiro lento. É confortável demais. Bonito demais. Grande demais. E, mesmo assim, o que aperta no meu peitö não é medo, é saudade. A sensação de estar longe da minha mãe e da Geyse chega silenciosa, mas pesada. Nessas horas da noite, lá em casa, nós três estaríamos juntas. Provavelmente eu estaria terminando o jantar com a minha mãe, enquanto a Geyse falaria sem parar sobre alguma coisa do restaurante ou do curso. Depois, a gente se sentaria no sofá, cada uma com um prato na mão, dividindo algum doce simples. Um pedaço de bolo, uma sobremesa improvisada e escolheríamos algo para assistir. Às vezes era filme. Às vezes novela. Às vezes qualquer coisa só para rir, reclamar dos personagens e comentar as cenas como se fôssemos especialistas em tudo. Era simples. Barulhento. Quente. Nosso. Aqui, o silêncio é absoluto. Eu pego o celular e, antes que a saudade aperte mais, faço uma videochamada. Não demora nem dois toques para minha mãe atender. O rosto dela surge na tela, seguido quase imediatamente pelo da Geyse, que se espreme ao lado, curiosa como sempre. — Nancy! — A minha mãe fala primeiro. — Você já chegou? Está tudo bem? — Já cheguei, sim. Tudo ótimo! — Respondo, sentindo o meu peitö aliviar só de vê-las. — Mostra! — Geyse já pede, animada. — Quero ver tudo! Eu giro o celular devagar, mostrando o quarto. O tamanho do espaço, a cama enorme, as paredes claras, os detalhes delicados, as cortinas enormes. Ouço as duas soltarem exclamações quase ao mesmo tempo. — Meu Deus… — A minha mãe leva a mão à boca. — Isso é só o quarto? — Só o quarto... o meu quarto. — Confirmo, rindo. — Olha o tamanho dessa cama. Aproximo o celular, mostro melhor, depois caminho até o banheiro. A bancada grande, o espelho, o box espaçoso. Volto a câmera para mim. — Isso tudo é seu? — Geyse pergunta, incrédula. — É. — Respondo ainda meio desacreditada. — E isso sem falar do resto da mansão. É enorme. Enorme mesmo. — Você se deu bem demais, Nancy — A minha irmã diz, sorrindo largo. — Emprego dos sonhos, hein? Eu deveria ter aprendido a gostar de crianças... olha aonde eu estaria agora. Iria trabalhar apenas para famílias ricas nesse nível. Eu estou chocada! E eu sorrio aqui. Minha mãe observa tudo com atenção. Dá para ver o alívio nos olhos dela. — Fico mais tranquila vendo que você está confortável. — Ela fala. — Pelo menos sei que você está bem cuidada. — Eu estou. — Digo com sinceridade. — Muito bem. A gente conversa mais um pouco. Elas perguntam como foi o dia, como é a casa, se fui bem recebida. Eu conto por alto, sem entrar em detalhes demais. Mas, conto num sussurro que vou cuidar de uma linda menina. Elas ficam animadas. O cansaço começa a bater, e eu sinto que preciso descansar. — Vou dormir. — Aviso. — Amanhã começo oficialmente. — Descansa, minha filha. — A minha mãe diz. — Qualquer coisa, liga. Eu te amo! — Boa sorte amanhã. — Geyse completa. — Tenho certeza de que você vai arrasar. — Obrigada! Amo vocês. Me despeço, desligo a chamada e fico alguns segundos olhando para a tela apagada do celular antes de colocá-lo sobre a mesa de cabeceira. As minhas roupas já estão dobradas e organizadas no closet. Tudo tem um cantinho. Tudo parece no lugar certo, como se eu sempre tivesse pertencido a esse lugar. Falta só eu me acostumar com essa ideia. Tomo um banho demorado, deixo a água quente me cobrir toda, tentando relaxar. Depois, visto uma camisola simples, apago as luzes e me deito. A cama me envolve de um jeito quase absurdo de tão confortável que eu me sinto ser abraçada. Ainda assim, a ansiedade aparece. É meu primeiro dia com a bebê amanhã. Meu coração acelera. A mente começa a girar. Como será Aurora acordada? Será que ela chora muito? Será que vai gostar de mim? Será que vou dar conta? O pico de insônia vem rápido. Eu viro de um lado, depois do outro. Abraço o travesseiro. Olho o teto. Mas, em algum momento, o cansaço vence. A cama imensa finalmente me engole, e eu durmo. { . . . } Quando acordo, ainda está cedo. A luz da manhã entra suave pela janela. Eu me espreguiço inteira, sentindo o corpo leve, descansado. Dormi perfeitamente bem. Organizo a cama com cuidado, tomo um banho rápido, prendo o cabelo e sigo para a cozinha. O cheiro de comida me recebe antes mesmo de eu entrar. Margarida está ali. Ela levanta o olhar e sorri. — Bom dia, Nancy. — Bom dia. — Respondo, sorrindo também. Ela se aproxima e me entrega a babá eletrônica. — Agora a Aurora é toda sua. O meu coração dá um pequeno salto. — Olha... cuida bem dela! Eu comecei a ficar com ela desde que nasceu e eu me apeguei demais. — Ela suspira. — Amo aquela menininha. Eis mais um ponto: ela cuida da Aurora desde que nasceu. Será que a mãe dela morreu? E se morreu, porque não dizem de uma vez? Eu não consigo pensar em outra coisa que não seja mortë! — Vou cuidar dela com todo carinho. — Prometo, segurando o aparelho com cuidado, quase como se já fosse a própria bebê. — Tem uma cama no quarto dela. — Margarida explica. — Se precisar dormir lá em algum momento, pode usar sem problema... Assinto, atenta. — Ela teve cólica essa noite, mas nada fora do normal. Ela tomou leite e deixei os horários anotados no quarto. — Continua. — Ela deve acordar em uns quarenta minutos. Dá tempo de você comer tranquila. — Obrigada por me avisar. — Digo. Odete entra pouco depois e ela me olha como se lembrasse só agora que eu estou aqui nessa casa. — Bom dia, Nancy. Dormiu bem? — Perfeitamente bem. Bom dia! — Respondo, sincera. Ela parece satisfeita e se retira com a Margarida falando de tarefas da casa. Eu me sirvo com calma. Torradas, frutas, suco, um pedaço de bolo. Sento-me à mesa, mas meus olhos não desgrudam da tela da babá eletrônica. Aurora dorme tranquila. Tão pequena. Tão delicada. O frio na barriga cresce. Quando termino de comer, respiro fundo. Subo as escadas devagar. Cada passo ecoa dentro de mim. É hora de começar a trabalhar.
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